- Publicidade -

Sardoal | A prisão das bolhas de conforto no regresso da Rede Eunice (c/ fotogaleria)

No meio da correria da vida, por vezes surge algo que nos faz parar para pensar sobre ela. Pode ser uma frase, um gesto, uma paisagem ou um espetáculo de teatro como o que abriu a nova temporada da Rede Eunice no Sardoal. Na noite deste sábado, dia 26, foi a lua em “Quarto Minguante” que fez refletir sobre a apatia e receio face à mudança. Não falamos da que procurámos no céu, em vão, mas da que encontrámos no palco.

- Publicidade -

Faltavam cerca de 24h para a lua entrar oficialmente em Quarto Minguante quando entrámos nós no Centro Cultural Gil Vicente para assistir ao primeiro espetáculo da nova temporada da Rede Eunice no Sardoal. Diz-se por aí que esta fase lunar é ideal para cortarmos com o que não queremos, refletirmos e preparar-nos para a fase seguinte, mas…

E se, apesar da consciência de que estamos mal, nada fazemos para mudar? E se o mundo fora da nossa bolha de conforto for pior do daquele que conhecemos e, tantas vezes pensamos (erroneamente), dominar? Não é mais fácil assumir que fazemos parte de um jogo viciado? Conseguimos estar sozinhos ou mantemos a relação?

- Publicidade -

Quarto Minguante, do TNDMII, no Sardoal. Foto: Paulo Jorge de Sousa

É este o desconforto do desconhecido que a peça do Teatro D. Maria II, encenada por Álvaro Correia, leva do mundo para o palco e do palco para a plateia. A nossa tentação para revelar todos os pormenores é grande. Não o faremos. Mesmo que o fizéssemos nunca contaríamos tudo pois cada elementos da plateia, cheia, fez uma interpretação particular da história.

Sete pessoas diferentes com a tendência comum de transformar os problemas em animais de estimação e esses foram aparecendo juntamente com um gato invisível que vai comendo torradas queimadas. Momentos saídos do texto escrito por Joana Bértholo, ao qual se juntam as palavras de Malcom X, Franz Kafka, Diógenes Laércio, Voltaire e Antonin Artaud, entre outros.

Quem as cita é o suspeito de um crime que partilha o palco com cinco elementos da mesma família: a avó, o pai, a mãe e dois filhos. Sempre por perto está o terapeuta. Personagens interpretadas por Cristina Carvalhal, Gustavo Salvador Rebelo, José Neves, Manuel Coelho, Paula Mora, Rita Rocha e Sílvio Vieira num cenário em que as cores diferenciam os ambientes.

Quarto Minguante, do TNDMII, no Sardoal. Foto: Paulo Jorge de Sousa

Vermelho e amarelo na casa de família, azul na prisão e castanho no consultório. Tons que acabam por se fundir ao longo da peça em que a lua vai mudando, mas as rotinas e os anseios se vão mantendo. Adereços sobrepostos como os diálogos nos quais se percebe que, todos estão presos e são os seus próprios carcereiros. No fundo, é tudo uma questão de ciclos.

“Hoje como foi?”

“É sempre o mesmo!”

No espetáculo estreado no Teatro Nacional D. Maria II em novembro do ano passado toma-se sempre o mesmo pequeno-almoço, tenta-se terminar a mesma conversa, partilha-se o mesmo fim-de-dia… Dorme-se. Sonha-se, por exemplo, com o naufrágio do planeta. No dia seguinte há mais… do mesmo, independentemente do mundo que se avista da janela ou do que chega através da televisão e do telemóvel.

Quarto Minguante, do TNDMII, no Sardoal. Foto: Paulo Jorge de Sousa

“Tens que fazer a revolução!”

“Porque não sais?”

O desafio vai sendo lançado ao longo de pouco mais de hora e meia. Perto do final, quem se manteve mudo, ganha voz. Quase ao mesmo tempo em que a jarra vermelha voltava a ser arranjada. E, por falar em tempo, entretanto surge a certeza da única inevitabilidade da vida, a morte. Talvez algum preso se recuse a seguir pelo seu próprio pé na fila dos condenados, que o texto não esquece.

Como dissemos, não vale a pena contar tudo. Há sempre quem arrisque sair e quem prefira ficar. Qual é o seu caso? Mais importante do que mudar, é querer mudar e esta é a fase ideal. Vai aproveitar este Quarto Minguante?

Os espetáculos apresentados no âmbito do projeto de descentralização cultural do Teatro Nacional D. Maria II que engloba Sardoal, Vila Real, Funchal e Portimão vão continuar. A Rede Eunice regressa ao Médio Tejo, mais precisamente ao Centro Cultural Gil Vicente, a 23 de março com a peça “À espera de Godot” e a terceira temporada encerra a 18 de maio com “Frei Luís de Sousa”.

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

- Publicidade -
- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
O seu nome

APOIE O NOSSO JORNAL, TORNE-SE UM LEITOR BENEMÉRITO

Se lê regularmente as nossas notícias torne-se um leitor benemérito fazendo contribuições a partir de 10€/mês, ou doando valores iguais ou superiores a 100€. Esses leitores passam a constar da ficha-técnica como apoiantes deste projeto independente de jornalismo. Pode também fazer uma contribuição pontual (5€, 10€, 20€, o que puder e quiser).

- Publicidade -