Sardoal | À descoberta: Em busca do Caminho da Moura Encantada (c/fotos e video)

Acompanhámos o último percurso organizado pelo município de Sardoal neste ano, e que fora escolhido enquanto percurso de Natal. Depois de termos sobrevivido à experiência, percebemos o porquê de o ter sido. E, como tal, registámos a experiência para que possa tirar a prova dos nove num dia destes. Calce as sapatilhas, agasalhe-se e venha daí!

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Em plena quadra natalícia, o título deste artigo poderá parecer sugestivo. E é-o efetivamente, pois este pretende despertar-lhe a curiosidade sobre um percurso pedestre que poderá fazer durante as férias de Natal. O certo é que, depois de caminhar por entre lugares feitos de lendas, mas também de memória e tradição, terminará em beleza e à porta de um local que o vai tentar pelo olfato. E se decidir entrar, acredite que o conquista pelo estômago, e o fará recuperar as calorias então perdidas. Comecemos por chegar a Santa Clara, Alcaravela, pois daqui se inicia a aventura de 16 km.

Do largo, entre a junta de freguesia e o largo do mercado, desce-se passando pela Igreja paroquial de Santa Clara, entrando pela esquerda, à saída da localidade, para iniciar percurso por uma levada que, segundo pode ler-se na informação deste percurso, outrora servia para fornecer água a uma azenha ali ao lado.

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Alguns minutos depois, deparamo-nos com a Rosa Mana, parque de lazer, com um espelho de água que salta aos olhos de quem por ali passa, e que a população, desde tempos idos, faz de praia fluvial nos tórridos verões que apelam a um mergulho de água (bem) fria.

Parque de lazer da Rosa Mana, em Alcaravela. Foto: mediotejo.net

Com parque de merendas, sombras, e comodidades para churrasco, este lugar apela ao convívio ou à simples passagem para apreciar, ficando ali a uns passos do centro da aldeia da Presa.

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Há quem diga que aqui, antigamente, viviam a Rosa e a Mana, e lá no alto do penedo deixavam linho e dinheiro para que no dia seguinte, as Mouras Encantadas pudessem dobar novelos de linha.

Passando ao lado da ribeira que alimenta o espelho de água da Rosa Mana, segue-se pelo carreiro até começar a subir, subir. Por entre a Serra de Santa Clara, o andamento começa a ser outro, até se passar pela barragem da Lapa.

Os cheiros e cores vão fazendo sobressair a flora tradicional da região em zona florestal, desde a esteva, à carqueja, ao rosmaninho, a murta e a giesta, e o medronheiro.

Junto aos cursos de água, ribeiros e levadas, entre pinhal e eucaliptal, lá se vão notando os grossos e imponentes troncos de choupos e amieiros, mas nestas matas e sua envolvência também se encontram exemplares de carvalhos, sobreiros e bastante olival.

Eis que vislumbramos outra aldeia, depois algumas subidas íngremes, mas cuja vista acaba por compensar, atenuando depois o caminho que se começa a fazer a direito.

Passamos por Pisão Fundeiro, onde descemos para as ruínas de um antigo lagar, e onde se contempla uma ponte medieval/moderna. Depois de se entrar em Vale Formoso, num troço asfaltado, segue-se caminho até Pisão Cimeiro, e lá no alto está, naquele Largo da Capela ladeado por algumas casas, a capela em honra de S. Francisco de Assis, que convida a parar e a apreciar o sossego do lugar.

Ponte Medieval/Moderna, no Pisão Fundeiro. Foto: mediotejo.net

Continuando a rota, traçando caminho por entre mata infelizmente atingida pelas chamas deste verão e por entre troços de estrada alcatroada, seguimos junto às povoações de Saramaga, terra outrora muito conhecida pelos moinhos e fontes.

Mais uns quilómetros em zona florestal, entre Casos Novos, passando ao lado do Casal Pedro da Maia e chegando à Chã Grande, depois de se passar pelo antigo moinho de vento, (dos poucos que ainda ali se erguem e que eram comuns na freguesia) e suas mós de pedra.

A esta altura já falta pouco, são os derradeiros quilómetros, onde já se sente o cheiro a forno de lenha no ar. A pouco e pouco, deciframos o ponto de chegada, que vem entregar os caminheiros após um percurso circular de cerca de 16 km, com desnível acumulado de 504 metros de subida, classificado como grau de dificuldade III – algo difícil, mas que se pode percorrer durante todo o ano, exceto restrições pontuais.

Ali do lado direito, situa-se a Artelinho – Cooperativa agrícola que foi ideia de um conterrâneo, antigo Secretário de Estado da Agricultura, natural de Alcaravela, Engenheiro Domingos Gaspar, que convida a uma visita ao núcleo museológico.

Fundada em 22 de março de 1989, a cooperativa iniciou-se como forma de preservar a cultura do linho, criar postos de trabalho e combater a desertificação. Surgiu pelo esforço de um grupo de 40 mulheres, ligadas à Ação Católica Rural de Alcaravela.

Uma das secções do núcleo museológico da Artelinho, esta dedicada à transformação do linho. Foto: mediotejo.net

Entre as atividades, as associadas desta cooperativa trabalham o linho, transformando-o em linha nos teares de madeira, e dando depois lugar à criação de colchas, panos e outros produtos.

Também a cestaria é uma arte ali familiar, cujo vime surge entrançado com mestria em cestos e cestas de tamanhos diversos.

Mas o forno a lenha… o forno a lenha é aquilo que nos deixa alerta, porque depois de queimar todas as calorias… nada melhor do que as repor com produtos locais, confecionados artesanalmente e cujo aroma apetecível surge no ar. Desde as tigeladas (que há quem diga que são a receita original em que se baseou as também conhecidas tigeladas de Abrantes), aos bolos amassados, ao pão caseiro. E por esta altura, já que ali ainda reina a tradição, os fritos de Natal não podem faltar, caso dos sonhos e filhós. A melhor parte? Pode levar consigo, mediante a disponibilidade da Artelinho para as vendas.

Por fim, não se preocupe com mais nada. O caminho de regresso a Santa Clara fica logo ali, em caminho plano e asfaltado, descendo ao Largo do Mercado.

Fica então o convite, para partir à descoberta entre montes e vales, lugares lendários e com história em Alcaravela. Aproveite, pois não é todos os dias que se arranja um percurso pedestre que, no final, adoça o paladar.

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