“Sardinhas”, por Armando Fernandes

Sardinhas assadas. Foto: DR

Ainda Portugal enquanto nação independente não passava de um sonho do pai de Dom Afonso Henriques e já o porto de Vigo abastecia de sardinhas os portos secos das mais importantes povoações das hoje regiões minhotas e transmontanas. As pautas alfandegárias desses portos referem as impressionantes (pela quantidade) transacções de sardinhas adquiridas para abastecimento das populações.

PUB

As sardinhas na Península Ibérica desempenharam um papel crucial na diversidade das dietas monótonas da alimentação até bem dentro do século passado. As técnicas de conservação diferenciavam as procedências pesqueiras e o progresso científico, barricas, fumagem, em emulsões de azeite e outros óleos, sendo colocadas em latas de variados formatos não só para exportação como para consumo local.

Aos pontos do interior eram os almocreves (surge um almocreve no romance Amor de Perdição de muito mau feitio) que as levavam, os barcos a navegarem nos rios (o Tejo era navegável), em carroças, comboio no interior, as camionetas, por fim os vendedores porta a porta. ainda há mulheres e homens que relatam as agruras dessa função, levando-as a comer as sardinhas sobrantes, as denominadas sarnentas. Agora, mostram-se e vendem-se nas catedrais de consumo e nas carrinhas de peixarias itinerantes.

PUB

Ao longo dos séculos os cronicões, crónicas, obras de múltiplos géneros, gazetas e jornais registaram a enorme valia da sardinha na mantença dos carenciados porque além de ser barata possibilitava a sua consumição durante todo o ano. As sardinhas cabeçudas recebiam a preferência das mães de famílias numerosas por concederem um melhor aproveitamento pois a expressão – uma sardinha para três – não é patranha a sublinhar dificuldades, é verdade dolorosa que muitos filhos e netos ouviram e ouvem aos seus ancestrais.

Se o leitor quiser aquilatar quão pertinente e permanente se incrustou a sardinha no nosso quotidiano faça o favor de consultar as corografias e verifique a quantidade de topónimos a ela agregados, Casal da Sardinha, Quinta da Sardinha, rua da Sardinha, deixando de lado todos quantos completam a identidade com o apelido Sardinha, ou então recorra à Internet a fim de perceber o seu papel de inspiradora de canções, revistas teatrais, jocosidades bem-humoradas, obras artísticas, literárias, da moda e do design. E, o leitor perguntará; e no que tange a iguaria comestível?

PUB

A interrogação a ser respondida cabalmente origina bojuda, ridente e multidisciplinar livro. Porque me faltam talentos de forma a realizar boa empreitada apenas enumero várias maneiras de as prateadas (as escamas são empregues nas artes decorativas) nos concederem estridente felicidade a perdurar na nossa memória.

Permito-me enumerar: lombos de sardinha crus, após marinados em bom vinho branco com duas folhas de hortelã, especiarias e rodelas de cebolinhas e sal a gosto. Depois de retirar os lombos das sardinhas deixe-os escorrer sobre um guardanapo branco de tecido qualificado. De seguida condimente-os a gosto (preconizo gotas de limão e azeite), polvilhe-os com pimenta branca e deite-os sobre fatias de centeio.

Outra forma de as apreciar pode ser em caldeirada picante q.b. e/ou pequenas (petingas) e grandes (com pimentos, batatas, cebolas em rodelas, tomate bem maduro também em rodelas, duas folhas de louro num fundo de vinho branco e azeite. Malagueta ou piripiri ao gosto dos convivas.

As composições clássicas (cozidas, fritas e assadas) acumularam receitas, fundamentalmente, da autoria das mulheres mestras da cozinha popular campesina e urbana, escabeches, ceboladas mais ou menos compostas, albardadas ou estufadas e no ora propagandeado conceito de assadas. Não devem ser esquecidas as bolas de sardinha, famosas as de Lamego, o mesmo relativamente aos patés e na fórmula de sardinhas ao vapor.

Em pleno Estio tenho angariado decepções no respeitante a apreciar sardinhas a «pingar» no pão, os desaires não enfraquecem a vontade, por isso mesmo continuarei a porfiar, também no encalço de uma boa tomatada das amigas dos pobres, mesmo dos pobres de pedir.

Uma especialidade lambisqueira de Trancoso, são as sardinhas doces.

APOIE O NOSSO JORNAL, TORNE-SE UM LEITOR BENEMÉRITO

Se lê regularmente as nossas notícias torne-se um leitor benemérito fazendo contribuições a partir de 10€/mês, ou doando valores iguais ou superiores a 100€. Esses leitores passam a constar da ficha-técnica como apoiantes deste projeto independente de jornalismo. Pode também fazer uma contribuição pontual (5€, 10€, 20€, o que puder e quiser).

pub

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here