Santos, rezas e amuletos na Botica do Real Convento de Thomar

Santos, rezas e amuletos, ex-votos, potes e vasos, vidros e almofarizes, seringas, armários, estantes, balcões e tetos profusamente decorados, integram a exposição ‘A Botica do Real Convento de Thomar’, no Convento de Cristo, em Tomar, expondo-os num ambiente algo ascético, misterioso e esplendoroso.

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A evocação dos ‘Gabinetes de Curiosidades’ é acentuada pela presença, por entre tratados médicos, remédios e produtos secretos, de animais exóticos e plantas de territórios longínquos. Na longa caminhada ancestral do Homem pela eterna demanda da cura dos males do corpo, e do espírito, são herdeiros, hoje, a avançada pesquisa farmacêutica e, também, a tradição rural e naturalista das terapias tradicionais.

A exposição A Botica do Real Convento de Thomar, (botica significa a nossa farmácia de hoje) patente ao público até ao dia 3 de julho de 2017, enquadra-se na estratégia delineada para a programação cultural deste extraordinário complexo monumental, castelo templário e convento da Ordem de Cristo inscrito na Lista do Património do Património Mundial da UNESCO desde 1983.

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Fruto de uma inédita parceria com o Museu da Farmácia, Palácio Nacional de Mafra, Museu Nacional do Azulejo e Instituto Politécnico de Tomar, e contando com várias colaborações científicas e técnicas, esta exposição contribui inequivocamente para aprofundar a reflexão sobre este espaço e este Monumento, requalificando o percurso de visita.

Curandeiras, ritualidades e natureza (ver vídeo)

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São mulheres, reconhecidas e prestigiadas pela comunidade, herdeiras de uma tradição rural e naturalista, de um saber-fazer que se transmite oralmente através de avós, mães e tias e que instrumentaliza, empiricamente, ingredientes vegetais e animais para curar males do corpo e do espírito, dores agudas e quebrantos malditos.

“A casa da minha avó ia muita gente. Até tinha fama de ser santa. Quando morreu, disseram que morreu a Santa da Ti Cândida. Muita gente chorou. Ela aprendeu com a mãe dela. Aprendi com ela. São mezinhas muito antigas, mas resultam”. (Deonilde, 27-4-2016)

À flora local recorre-se para defumações (com palha de alho e alecrim) das casas, das pessoas e dos animais onde o mal pousou.

Com decocções, infusões e macerações das plantas que se colhem nos quintais, nos campos ou nas matas mais distantes curam-se as doenças, mais ou menos visíveis que, a certa altura, a todos afligem.

A recolha da flora local obedece a preceitos rígidos. Respeitam-se os ritmos biológicos das diversas espécies que se colhem no tempo certo, sempre em dias soalheiros, e se secam à sombra de forma a garantir a preservação das suas qualidades e a posterior eficácia dos tratamentos.

Preparam-se emplastros e unguentos com os quais se aliviam as dores, e o alho e o azeite são panaceias para quase todos os males: dores de dentes, picadas de bichos, pele gretada.

Os processos são lentos, quando comparados com aqueles que a medicina convencional utiliza, obrigando a um exercício de perseverança, de fé, dos pacientes.

Nos processos de cura, a gestualidade da curandeira, os ingredientes e os objectos utilizados são reforçados por palavras sagradas, orações e esconjuros que procuram assegurar o sucesso do tratamento, frequentemente repetido em número ímpar.

“A minha mãe, quando precisava de fazer um chá, dizia-me para eu ir buscar três folhas de laranjeira. E se eu trouxesse mais, ela só punha três. Ou cinco. Nunca podiam ser números pares”. (Luísa L., 12-4-2016)

Carne quebrada

No tratamento da carne quebrada, um mau jeito numa determinada parte do corpo, é central o recurso a uma fórmula oratória à qual se associam a água e diversos artefactos como um púcaro, uma agulha, uma linha ou um pano. Um tratamento que algumas curandeiras dizem ter eficácia até mesmo se for realizado sem a presença do paciente.

“O que é que eu coso no pé de Catarina?

É carne quebrada, nervo torto ou linha desmentida?

Se é carne quebrada, Deus a solde e a queira soldar

Se é linha desmentida

Deus a leve à sua subida

Se é nervo torto

Deus o leve ao seu posto

Em louvor de Deus e da Virgem Maria

Pai Nosso e Avé Maria

Em louvor de São João

Que este mal seja são

Em louvor de Santo Eduardo

Que este mal fique curado”

(Deonilde, 27-4-2016)

“Tem de se dizer a oração três vezes e durante três, cinco ou sete dias. Se a pessoa vier a nossa casa, cose-se com a agulha por cima da parte que está afectada. Se a pessoa estiver longe, até pode estar em Angola, tem de se ter um pano que se coze, como quem está a dar um chuleio, com uma agulha com a linha enfiada enquanto se diz a oração. Usa-se sempre o mesmo paninho. No fim, queima-se”.

(Deonilde, 27-4-2016)

“A minha avó tinha sempre um pucarozinho com água ao lado da lareira. As pessoas iam lá e diziam “Olha, dei um mau jeito numa perna e tens de me cozer de carne quebrada”. Ela rezava e ela emborcava o púcaro com água quente dentro do alguidar e a água recolhia toda” (Luísa L. 12-4-2016)

“Já cosi muitos pés. Os médicos dizem que é ruptura de ligamentos. A gente pega numa agulha com linha, sem nó, mas tem sempre de ser aquela agulha e aquela linha as nove vezes que se diz a oração e se faz o tratamento. Faz-se uma oração enquanto se cose em cruz com a linha e a agulha por cima do sítio que está dorido. Passa para um lado e para o outro, para cima e para baixo. Faz-se a oração uma vez por dia durante nove dias”. (Eugénia, 4-4-2016

Cobrão

Para curar o cobrão (herpes zoster) talha-se ritualmente a zona afectada procurando reverter o crescimento do animal peçonhento impedindo que este junte o rabo com a cabeça, o que se crê ser fatal para o paciente. À oração e à gestualidade, que simboliza o corte do bicho, associa-se o uso de óleo de trigo que, no passado, se conseguia junto dos ferreiros. Estes, martelando na bigorna os grão de trigo obtinham um óleo escuro que era, depois, aplicado na zona afectada de modo a aliviar os sintomas. Actualmente, compra-se o óleo de trigo nas farmácias, mas permanece o recurso à oração mágica.

Queimaduras

A cal virgem, numa lógica de semelhança e configurando o princípio da magia simpática, é usada, ainda hoje, para o tratamento de queimaduras. Após ser devidamente diluída em água e depois de um longo período de repouso, serve de panaceia para as queimaduras. Guardada em velhas talhas, a água de cal é periodicamente renovada e serve aqueles que, rejeitando os tratamentos convencionais, preferem recorrer ao saber-fazer das curandeiras locais.

Anginas

O xarope de pele de cobra é, ainda hoje, usado para curar dores de garganta em adultos e crianças. Primeiro, ferve-se a pele de cobra juntamente com um pouco de água, figos, sultanas ou ameixas. Coa-se e, ao líquido resultante, junta-se a mesma quantidade de açúcar levando-se novamente ao lume para fazer um xarope.

A enxúndia de galinha, usada com o mesmo propósito, parece ter caído em desuso. Cortada aos pedacinhos e preservada em azeite ou sal, era aquecida e nela se mergulhavam tiras de papel pardo que depois se colocavam à volta da garganta e se acomodavam com um pano para abafar e tornar o tratamento mais eficaz.

com/ A Botica do Real Convento de Thomar/IPT/Convento de Cristo/ DGPC

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