Apoie o jornalismo que fazemos,
junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

Quarta-feira, Julho 28, 2021

Apoie o jornalismo que fazemos, junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

Trincanela

“Santiago de Montalegre em livro”, por José Martinho Gaspar

Francisco da Silva António trouxe recentemente a público, numa edição da Câmara Municipal de Sardoal e da Junta de Freguesia de Santiago de Montalegre o livro intitulado “Santiago de Montalegre: a história, as lendas, as gentes”, apresentado no âmbito da comemoração do 89.º aniversário desta freguesia do concelho de Sardoal.

- Publicidade -

O autor nasceu em Salgueira e viveu parte da sua vida na localidade de Codes, na freguesia de Santiago de Montalegre. Desde cedo dedicou especial atenção à sua freguesia e às múltiplas manifestações sociais e culturais que nela existem, algumas das quais tendem a desaparecer, fruto das transformações que a cavalgada do tempo inevitavelmente traz consigo. Francisco António é ainda conhecido pela forma como sempre abraçou o movimento associativo, tendo integrado, entre outras, a Comissão Fabriqueira da Igreja e a Associação dos Amigos de Santiago de Montalegre. É, na atualidade, Deputado da Assembleia Municipal do Sardoal.

Muitos são os motivos que justificam uma leitura atenta do livro de Francisco António: alguns elementos históricos da freguesia desde a sua fundação; dados históricos da região; usos e costumes das localidades que integram a freguesia; atividades desenvolvidas na freguesia que se encontram extintos ou em vias de extinção (ofícios, mezinhas, crenças, festividades…); lendas que marcaram o imaginário da região; associativismo local; caracterização das localidades da freguesia; figuras que marcaram a região.

- Publicidade -

No tempo em que vivemos, em que a desertificação dos espaços rurais é uma realidade incontornável, para que se possa promover o desenvolvimento rural urge trabalhar fundamentalmente em dois sentidos: no conhecimento e registo das características de um passado mais ou menos recente das comunidades rurais, sob pena de tais elementos se perderem irremediavelmente; na dinamização dos espaços rurais, encontrando novas soluções que incluam, em simultâneo, sustentabilidade económica e ambiental, tendo sempre as características endógenas como referência. Ora, o livro de Francisco António é mais uma ferramenta oportuna para que estes objetivos sejam alcançados. Todas as localidades, ou pelo menos todas as freguesias, devem diligenciar no sentido de que alguém produza a sua monografia, que as caracterize e, sobretudo, que faça um levantamento de múltiplos elementos patrimoniais que nelas existem ou existiram. Este livro cumpre esse papel e, por isso, o autor e a sua freguesia estão de parabéns.

Num livro com mais de 300 páginas, seria impossível tentar aqui um resumo, porém não resistimos a destacar alguns episódios ou elementos que nele são divulgados. Num capítulo intitulado “A vida de outros tempos” abordam-se os trabalhos agrícolas locais, a saída das gentes para trabalhos sazonais (ceifa, cortiça, resina, etc.) e, para além de outros aspetos, múltiplos ritos de passagem e a forma como as populações locais viviam. “O lugar das refeições era geralmente a cozinha, sobretudo no inverno, onde a família se juntava à volta do barranhão de barro, que servia de prato único para todos, à luz da candeia de azeite e ao calor da lareira e cada um se ia desenrascando o mais rápido que podia […]. Os alimentos que prevaleciam eram os que a terra produzia, cozinhados na panela de ferro e temperados com toucinhos velhos e, em alguns casos, com um pouco de azeite”. Nas comunidades rurais das aldeias da freguesia de Santiago de Montalegre, “De dia, as portas das casas estavam quase sempre abertas, ou fechadas com a chave na porta, os utensílios domésticos e de lavoura ficavam junto à casa ou num barracão aberto. Nos assuntos do dia-a-dia não havia segredos entre vizinhos, tudo se conhecia publicamente […]”. Entre as figuras de relevo realçadas por Francisco António, destaco o Padre Manuel Matias, que conheci na minha infância, que ainda é uma referência para muitos dos que residem ou são naturais da freguesia de Santiago de Montalegre, natural de Cardigos, já tinha 35 anos quando foi ordenado e já havia aprendido a arte de carpinteiro. Num tempo em que cada pároco tinha apenas uma paróquia, em que a religiosidade era uma marca do quotidiano e em que a generalidade da população era analfabeta, o Padre Matias granjeou especial estima e consideração por parte dos seus paroquianos. Num ano em que Paróquia de Santiago de Montalegre completa 100 anos (criada a 17 de março de 1917), ainda que não corresponda exatamente em termos territoriais à freguesia com a mesma designação, a publicação do livro de Francisco António é uma excelente notícia para quem gosta desta região.

 

 

José Martinho Gaspar nasceu em Água das Casas (Abrantes), na década de 60 do século XX, e vive em Abrantes. É Professor de História e Mestre em História Contemporânea. Desenvolve a sua ação entre aulas, atividades associativas (Palha de Abrantes e CEHLA/Zahara, mas também CSCRD de Água das Casas), leitura e escrita, tanto de História como de ficção, sendo autor de vários artigos e livros. Apaixonado por desporto, já não vai em futebóis, mas continua a dar as suas voltas de bicicleta. Afinal, diz, "viver é como andar de bicicleta: não se pode deixar de pedalar e quando surge um cruzamento escolhe-se o nosso caminho".

- Publicidade -
- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here