Santarém | NERSANT discutiu o efeito da pandemia na saúde mental

Foto ilustrativa Foto: Pixabay

“A ansiedade e o medo no regresso a uma nova normalidade” foi o tema da videoconferência realizada na sexta-feira, dia 22 de maio, pela NERSANT – Associação Empresarial da Região de Santarém. A conferência online teve como orador o médico psiquiatra, Pedro Afonso, professor de psiquiatria na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e professor da AESE – Business School. “No regresso à nova normalidade, temos de lutar contra o medo, pois o medo não boa companhia”, afirmou.

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Além das pessoas que já eram doentes, o psiquiatra considera que “estão sob maior risco os profissionais de saúde, os doentes internados, os idosos internados em lares e os reclusos”.

Mas os efeitos da pandemia na saúde mental acabam por nos afetar a todos. “Aumentaram as tensões decorrentes das dificuldades financeiras e do desemprego”, salienta. E hoje todos nos colocamos questões como: “o que irei fazer se o dinheiro acabar? Irei ficar desempregado? Como vou pagar os salários? Como vou pagar os empréstimos? Conseguirei pagar a renda ou o empréstimo da casa?”

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Questões que se agravam perante a “incerteza sobre quando irá acabar o confinamento”. E de facto não é possível definir uma data para o fim da pandemia.

A somar a estes problemas temos o impacto da crise na vida familiar. Pedro Afonso refere, por exemplo, que “na China – onde a pandemia já leva dois meses de avanço sobre nós – o número de divórcios aumentou”.

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O médico psiquiatra observa os efeitos da epidemia até na forma como lidamos com a morte. “Tivemos a situação excecional de haver cerimónias fúnebres sem pessoas, situação agora já alterada com a possibilidade dos familiares assistirem. E isso é muito importante, pois como sublinha, “o  luto tem de ser feito em normalidade, caso contrário há risco de haver um luto patológico”.

Como vencer os medos

Pedro Afonso distingue quatro tipos de medo que todos nós sentimos: “há o medo de ficarmos infetado, o medo de infetarmos os outros que nos estão próximos, o medo de contrairmos uma forma grave da doença e o medo de sermos vítimas de estigma social depois de recuperarmos da doença”.

O médico psiquiatra concorda que se houver um segundo surto teremos de voltar ao princípio, mas considera que “é preciso termos confiança e os políticos devem transmitir confiança à população”.

Entende que é necessário “racionalizar o medo, tal como foi feito na sequência dos ataques terroristas do 11 de setembro nos EUA, que obrigaram a toda uma série de medidas de segurança com as quais passámos, desde então, a conviver, por exemplo nas medidas de segurança nas viagens aéreas”. Agora, “vamos ter também uma série de procedimentos de segurança, como o uso de máscara, de regras de higiene e distanciamento físico, entre ouros procedimentos.”

Como efeito positivo, Pedro Afonso considera que esta pandemia “veio reforçar a nossa confiança na ciência e na medicina, e deu-nos uma maior consciência de que o Serviço Nacional de Saúde é indispensável”.

Por outro lado, entende que a atual situação teve o “mérito de acelerar o uso das novas tecnologias da comunicação nas diversas áreas de atividade e trouxe modificações no modo de trabalharmos, com recurso ao teletrabalho e com efeito na redução do excesso de reuniões”.

Neste regresso à normalidade, Pedro Afonso considera que “nada vai ficar como dantes”. Por isso, entende que “temos de nos adaptar, de passar por um processo de aprendizagem, para enfrentar as grandes modificações em curso”. As alterações, na sua opinião, vão acontecer em todas as áreas, do trabalho ao ensino. Defende que “as aulas vão continuar a ter uma forte componente de ensino à distância, mesmo com o regresso das aulas presenciais”.

Teletrabalho veio para ficar

“O teletrabalho veio para ficar, embora não possamos prescindir do trabalho presencial”, afirma Pedro Afonso, considerando que “terá de haver um mix, aproveitando o melhor que cada modalidade oferece”.

“A presença física é indispensável, mas o teletrabalho tem muitas vantagens que vamos ter de explorar”, afirma Pedro Afonso. “O teletrabalho permite, por exemplo, evitar deslocações desnecessárias, com o que isso representa em termos de poupanças nas despesas das viagens, de perdas de tempo que em muitos casos chegam a ser de 2 e 3 horas por dia, e de cansaço físico provocado pelas deslocações entre casa e o trabalho.

Além destas vantagens, o médico psiquiatra salienta ainda o efeito do teletrabalho no combate ao “excesso de reuniões, muitas delas pouco ou nada produtivas. As reuniões através do Zoom são mais curtas, mais práticas e mais produtivas”.  Por isso, considera que “o teletrabalho vai aumentar, é uma consequência inevitável”.

Salienta que “há diferenças entre as gerações” na forma como estão a lidar com a situação de isolamento físico. Isto porque “os mais jovens já comunicam maioritariamente através das novas tecnologias, pelo que não sentem tanto os efeitos da atual situação”.

Para o orador, “a comunicação interpessoal é insubstituível pelas novas tecnologias. O convívio entre colegas de trabalho é necessário, pois tem um efeito terapêutico; o trabalho solitário não é bom para a maioria das pessoas”.

Outro efeito do teletrabalho é que muitas “empresas descobriram que podem prescindir de muitos espaços de escritórios, com reduções de custos com rendas”. Mas, para Pedro Afonso, a maior vantagem do teletrabalho e das mudanças trazidas na organização do trabalho será ao nível do aumento da produtividade.

“Portugal tem problemas de falta de produtividade, e não é porque os portugueses trabalham menos horas do que noutros países”, afirma o médico psiquiatra. No seu entender, “o que temos é um problema de “presentismo laboral”, isto é, os portugueses passam 10, 11, 12 horas no trabalho, mas acabam por perder imenso tempo a tomar café e em almoços pelo meio, enquanto noutros países as pessoas passam menos tempo no trabalho, mas são mais produtivas durante as horas em que lá estão”.

Melhorar a produtividade

Pedro Afonso afirma que “a pandemia teve o efeito de desmascarar muitas fragilidades e de obrigar a uma reflexão sobre o que andamos a fazer e a redefinir as prioridades da vida”. Uma das grandes lições desta pandemia é que “ninguém é auto-suficiente, somos todos dependentes uns dos outros”. Por isso, sublinha, “este é o tempo de cada um de nós dar o seu melhor. E foi isso mesmo que vimos no exemplo dos profissionais de saúde e dos profissionais que estão na primeira linha do combate ao vírus, oferecendo um grande exemplo, ao darem a vida com coragem e dedicação, para salvar as nossas vidas”.

Há quem compare a pandemia a uma guerra, mas para o orador, “uma guerra destrói tudo, enquanto a pandemia não afeta as infraestruturas, cabendo-nos agora reconstruir com esforço e dedicação e darmos o nosso testemunho e contribuição para reerguermos o nosso país. Temos de dar tudo, menos do que isso será pouco!”

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