“Roupa Velha”, por Armando Fernandes

Eis a representação do nada se perder no tocante a comeres mesmo em dia de maior abastança de comidas. É uma espécie daquele indivíduo que cresceu ficando os tornozelos a descoberto, no entanto, a mãe obriga-o a usar as calças curtas para fastio dele e risos das raparigas e dichotes dos rapazes.

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A roupa velha incorpora as sobras da noite de Consoada, o rapaz perna-longa incorpora ressabiamentos à medida do crescimento das gâmbias e encurtamento das ditas calças trazendo-lhe azedume, levando-o a carregar o ressabiamento pela vida fora, a tentar exorcizar a lembrança das comparações a animais esgalgados.

A roupa velha é elogiada logo no acto de ser colocada na mesa às vezes na frigideira onde o guisado ligou os restos recorrendo aos bons ofícios de ovos bem batidos, os amesendados olham de soslaio na esperança de vislumbrarem outras comidas novas, acabadas de fazer, se as vêm ou lhes chega o cheiro denunciador das mesmas logo retraem o gesto de encherem a concha ou a colher a servirem de transporte até ao prato.

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A Avó mestra treinada no amanho de calças minguadas e no da pouca matéria-prima comestível elaborar toda a sorte de roupas velhas conhecidas através de diferentes denominações desfia carências do passado, recorda aflições e censura os netos mal habituados, sempre de calças a roçar o chão e descaídas até ao rego, alimentados a cereais, concentrados, pizas, hambúrgueres e cachorros quentes além de comida recente e decente. Os netos riem ante os avisos lembretes do passado, trauteiam entre dentes venha lá o peru assado obtendo sorrisos largos dos progenitores e negativos meneios de cabeça da Senhora Avó de provecta idade ainda a lamber as feridas de tempos de penúria.

A receita de roupa velha é conforme os despojos a incluir, se o das calças acanhadas resfolga até morrer contra o facto de não ter sido inteligente de modo a superar o trauma, de forma a entender o meio onde viveu, de maneira a perceber a dialéctica e a retórica do ajuste dos contrários, o conceber de modo prazenteiro a canónica junção dos referidos sobejos tem levado a vários preparados culinários a ganharem aplausos verbais e gozos palatais de quem os usufrui.

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Aqui, no Ribatejo, se levássemos a cabo um inventário de composições de roupa velha conseguiríamos amplo acervo de múltiplas tonalidades, cromatismos e sons dadas as sápidas sensações recolhidas, assim ao modo das guardadas na memória depois de um concerto da Orquestra Filarmónica de Berlim, durante o reinado de Von Karajan.

Façam o favor de apreciar a roupa velha familiar sem reservas, sem cenho franzido, jubilosamente porque as Avós o merecem inteiramente. Após o «sacrifício» degustem a ave vinda do Novo Mundo, se sobre a mesa surgir leitão não deixem os vossos créditos em mãos alheias, ganso assado melhor ainda. Não falo de capões porque por estas bandas não é tradição cozinhá-los. Nada me move contra a roupa velha, mas prefiro roupa nova.

Um vinho Natalício

Pode parecer estridente abuso designar o tinto Quinta do Côro como vinho natalício. Escrevo isso mesmo porque parto do princípio de os leitores escolherem um vinho de grande qualidade, esfusiante, destinado a coadjuvar a refeição da Consoada, por norma refeição agregadora, de saudade pelos falecidos, de júbilo entre os presentes. Sem pensar muito, elegi um tinto originário do vizinho concelho do Sardoal, terra de celebrações ou exaltações derivadas do pai do Teatro Português, o célebre e pouco lido Gil Vicente.

Escolhi o Quinta do Côro tinto, feito com uvas das castas Syrah e Touriga Nacional. A escolha baseou-se no registo, bom registo que ficou de o ter degustado em ocasiões anteriores espaçadas no tempo, no lugar e nos motivos. Sempre que foi chamado a acolitar charcutaria fina, fumada ou não, peixes assados e grelhados, caça de pêlo e pena, carnes frescas e salgadas, queijos de vários quilates, sempre transmitiu notações sensoriais de bom quilate a perdurarem, se assim não fosse não o recordava.

Não sei onde possa ser encontrado, talvez existam algumas garrafas na adega produtora, Sociedade Agrícola Muscata, Sardoal, no meu entender alia o vigor e fortaleza (14º) à suavidade palatal tornando seivoso, tentador à repetição. Tal como um menino suspira pela moeda ao acabar o bolo, eu lastimo a sua finitude, mas não lastimo os elogios, antes pelo contrário, são inteiramente merecidos. Provem e ajuízem.

Aos leitores do Médio Tejo endereço votos de Boas Festas.

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