“Rostos de Misericórdia”, exposição de arte sacra em Sardoal

“Rostos de Misericórdia” é a designação da exposição patente na Galeria do Centro Cultural Gil Vicente, em Sardoal, até 15 de maio. A mostra de Arte Sacra está inserida na programação complementar da Semana Santa, sendo composta por oito peças de escultura, uma peça de ourivesaria e quatro pinturas a óleo, uma Custódia em prata dourada, um Calvário, com a imagem de Cristo Crucificado, de São João Evangelista e da Senhora das Dores, e as esculturas do Senhor da Paciência e do Senhor Morto.

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“A Quaresma dá-nos um momento único para refletirmos sobre o sentido da Humanidade e desafia-nos a descobrir a nossa verdadeira natureza, o perdão e a compaixão” disse ao mediotejo.net João Soares, curador da exposição e responsável pelo setor de conservação e restauro da Câmara de Sardoal.

“Quando se expõem imagens sacras há que ter em conta a função para a qual elas foram concebidas: o Culto. O discurso expositivo deve então ser elaborado respeitando essa premissa, pelo que a seleção das obras de arte que integraram esta exposição foi feita segundo critérios de tema de conservação e restauro, e também do espaço onde as mesmas estão inseridas” destacou o responsável, que coordenou os trabalhos e a seleção das obras patentes na mostra com Maria Jorge Rocha, ambos Técnicos Superiores de Conservação e Restauro do município de Sardoal .

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A dupla de especialistas conduz os leitores do mediotejo.net para uma visita a estra mostra de Arte Sacra, exposição patente no Centro Cultural Gil Vicente até ao dia 15 de maio, e de nome Rostos de Misericórdia. A mostra é composta pelas seguintes peças:

Senhor da Paciência:

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SRD1
Escultura em madeira policroma do Séc. XVII – Paróquia de São João Batista – Abrantes

“Imagem representativa do aceitar da Paixão. Jesus apresenta-se em estado contemplativo, aceitando assim os desígnios do Pai.

A escultura apresenta um excelente equilíbrio anatómico, um olhar resignado e melancólico, assim como uma postura de aceitação. Teve aqui o entalhador mestria na interpretação do tema.

A policromia não é a original, apresentando-se também grosseiramente aplicada e num estado de conservação frágil”.

Senhor dos Passos:

SRD2
Escultura de roca, em madeira policroma, do Séc. XVIII – Paróquia de Santiago e São Mateus – Sardoal

“Esta tipologia de imagens de roca, amplamente utilizadas no Séc. XVIII, foi idealizada para ser utilizada em procissões ou em cenários, sendo que as mesmas são de vestir, com trajes de tecido, com membros articulados, sendo só esculpidas as partes anatómicas que ficam à vista. Maioritariamente têm olhos de vidro, ou cristal e cabeleiras sintéticas ou até mesmo verdadeiras.

O termo roca vem pelo facto de a sua base ser constituída por um esquema de ripas ou gradeado, dando a ideia de ser uma roca de fiar.

A imagem representa Jesus a caminho do Calvário, carregando o madeiro. É de uma forte carga emotiva a visão de um homem a caminho da própria crucificação, com um rosto de misericórdia, aceitando o destino.

A nível do seu estado de conservação, a escultura apresenta-se razoavelmente em bom estado”.

Cristo cruxificado (Senhor dos Aflitos):

SRD3
Escultura em madeira policroma, do Séc. XVII – Paróquia de Rossio ao Sul do Tejo – Abrantes

“Importante Jesus Cristo crucificado, representado morto, coberto apenas por cendal pregueado, mostra um abdómen contraído e face pendente. Longos cabelos ondulados e cabeça coroada com coroa de espinhos e resplendor de prata. É uma representação naturalista dos detalhes anatómicos.

É seguramente uma das melhores imagens de cristos cruxificados na região. A forma como o entalhador deu vida ao material lenhoso foi sem dúvida alguma um momento de inspiração artística”.

Pietà:

SRD4
Escultura de madeira policroma do séc. XVIII – Paróquia de Santiago e São Mateus – Sardoal

“Esta escultura apresenta o sofrimento da mãe de Cristo, perante a dor do seu filho. Um olhar triste, num rosto doce, representando todo o seu carinho de mãe nesta altura de lamentação.

A imagem tem uma plasticidade surpreendente, característica da época, com um excelente tratamento anatómico, proporcional à base onde a mesma está inserida, indicadora de que seria processional.

A nível de conservação, a mesma apresenta algumas lacunas volumétricas, assim como alguns destacamentos de policromia. A peça apresenta ainda alguns elementos metálicos e vernizes oxidados e sujidades várias”.

Calvário:

SRD5
Escultura de roca, em madeira policroma, do Séc. XVIII – Paróquia de São João Batista – Abrantes

“Encontramos aqui um Cristo cruxificado, com braços articulados, pendente na cruz e em sua adoração, estão três figuras bíblicas típicas de um calvário: Santa Maria Madalena, São João Evangelista e Nossa Senhora das Dores, mãe de Cristo.

A imagem de Cristo encontra-se algo descentrada a nível anatómico.

A nível conservativo, o conjunto escultórico apresenta-se em bom estado de conservação, apresentando somente alguma sujidade superficial”.

Senhor morto:

SRD6
Escultura policroma do Séc. XVII/XVIII – Paróquia de Santiago e São Mateus – Sardoal

“É uma imagem jacente de Cristo, de braços articulados, pertencente a um monumento funerário em tamanho muito próximo ao natural. A figura do defunto tem formas esguias, delicadas, e algum movimento. Por agasalho apenas tem um cendal em tecido, o rosto apresenta traços delicados e alongados, olhos cerrados, boca ligeiramente entreaberta, sobrancelhas levemente contraídas, e um nariz longo e fino. É emoldurado por uma cabeleira de ondulação ténue e comprimento razoável, que acompanha o pescoço. Tem barba e bigode aparados. Por entre madeixas, entrevêem-se as orelhas de dimensão reduzida.

A cabeça repousa sobre uma almofada singela. Tanto nos pés como nas mãos tem orifícios que corresponderiam à zona de inserção de pregos no momento da crucificação.

A feição é de dor, ainda que apresente um ar sereno, concordante com o período de Misericórdia e Ressurreição.

Relativamente ao estado de conservação, a peça apresenta pequenos destacamentos pictóricos e o cendal encontra-se com policromia pulverulenta”.

Custódia de prata dourada:

SRD7
Prata dourada, do Séc. XVIII – Paróquia de Santiago e São Mateus

“No final do reinado de D. João V começam a surgir as primeiras formas de rocaille, culminando no reinado de D. José. O século XVIII foi profícuo para a ourivesaria portuguesa, tendo esta época dado origem às mais belas peças de ourivesaria religiosa.

A peça apresenta um hostiário elegante, com concheados e pedras semipreciosas. O corpo do fuste tem cabeças de anjo e a sua base é composta por putis, contendo magnificamente cinzelados dois pelicanos, símbolo do sacrifício e da doação e um Agnus Dei, uma expressão do latim, muito utilizada pelos cristãos para falar referência a Jesus Cristo, após ter sido sacrificado na cruz”.

Nossa Senhora da Piedade:

SRD8
Pintura a óleo sobre tela, Séc. XVI – Santa Casa da Misericórdia de Sardoal

“Nesta pintura encontramos como figuras centrais Nossa Senhora, de olhar baixo e braços abertos em sinal de desespero, erguendo-se ao alto e o seu filho, Jesus Cristo, morto, cujo corpo alongado sobre o lençol é apoiado pelos seus joelhos, aos pés da cruz”.

Conjunto de Painéis e Bandeiras da Misericórdia: 

Flagelação

Pintura a óleo sobre tela, Séc. XVI – Santa Casa da Misericórdia de Sardoal

“A flagelação é um episódio da Paixão de Cristo que aparece com bastante frequência na arte cristã, em ciclos da Paixão ou como um grande tema nos ciclos da Vida de Cristo, fazendo parte do processo político romano às mãos de Pôncio Pilatos.

Jesus aparece-nos seminu, somente com um pano cruzado a envolver a sua cintura, com as mãos atadas à coluna”.

  1. Caminho do Calvário

Pintura a óleo sobre tela, Séc. XVI – Santa Casa da Misericórdia de Sardoal

“Jesus está a carregar a cruz a caminho da sua crucificação. É um episódio da vida de Jesus relatado nos quatro evangelhos canônicos, sendo um tema muito comum na arte cristã.

Vai a caminho do calvário vestido e coroado de espinhos, caído, com joelhos por terra, apoiando o seu corpo numa pedra do chão e a sua mão esquerda abraça o lenho que o está a macerar. Apesar disso tem um olhar brilhante e doce, com expressão sofrida mas serena”.

  1. Calvário

Pintura a óleo sobre tela, Séc. XVI – Santa Casa da Misericórdia de Sardoal

“Estamos perante uma pintura tenebrista, característica deste século, onde são visíveis as cores negras e as sombras em detrimento da cor e da luminosidade. A figura central é um Cristo cruxificado, com uma paisagem de fundo sombria, onde é visível a linha do horizonte ao por-do-sol. Do lado esquerdo da cruz encontra-se ainda uma caveira, símbolo de transformação, início de um novo ciclo. A caveira é também o símbolo da mortalidade, representa o caráter transitório e passageiro da vida.

Estes estão ainda ladeados por Santa Maria Madalena à esquerda e o Apóstolo João à direita, ambos exemplo de amor fiel.

Os olhares das figuras são serenos e contemplativos, demonstrando até alguma melancolia”.

A exposição de Arte Sacra é organizada pelo município, com a colaboração da Paróquia de Sardoal, Paróquia do Rossio ao Sul do Tejo, Paróquia de S. João Batista, de Abrantes, e Santa Casa da Misericórdia de Sardoal.

– Visita conduzida por João Soares e Maria Jorge Rocha, Técnicos Superiores de Conservação e Restauro do município de Sardoal.

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