PUB

“Ritos tradicionais nos fins do ano, a expulsão do velho e do maléfico”, por Aurélio Lopes

Nas sociedades tradicionais anteriores à História, o tempo é entendido como entrópico, degenerando-se gradual e irremediavelmente, segundo ciclos que coincidem com os ritmos cósmicos dominantes. Para se não extinguir, para obstar à sua dissolução no niilismo absoluto, o mesmo  precisa de ser renovado ou, mais precisamente,… recriado.

PUB

Pode assim dizer-se que o modelo entrópico da temporalidade arcaica confere à existência, uma necessidade de recriação ritual, condição única para uma indispensável regeneração do tempo e da vida.

Inspirando-se no crescimento e decrescimento do diurno do Sol, paradigma de uma degeneração cíclica ou, ainda, na sazonalidade vegetativa feita de crescimento, maturação e declínio, sempre as conceções cosmogónicas do Homem foram entendidas como modelo de recriação periódica do Cosmos.

PUB

Mas a perfeição sublime do começo exige a destruição radical do velho,… do desgastado! A um novo começo absoluto corresponde, inevitavelmente, um prévio fim do mundo total e radical.

Com isto se relacionam os diversos costumes que celebram os fins dos anos e dos tempos e, que corporizando personagens (principalmente solsticiais) caóticas e/ou diabolizadas, expressam combates rituais ou dão corpo a domínios que terminam, posteriormente, em ações de expulsão e morte.

PUB

Veremos, numa perspetiva de antropologia arqueológica, as atitudes de expulsão e exorcização de males comunitários; vistos ancestralmente como degenerados e corruptos e, nalguns casos,  tornados imorais pela cristianização.

Destes chegaram, entre nós, reminiscências de práticas arcaicas de exorcização comunitária através dos seus caracteres simbolicamente mais fortes e ritualmente mais elaborados, transvertidos e operacionalizados, muitas vezes na expulsão de malefícios diversos de especial importância local.

Expulsam-se, assim, os males da comunidade, consubstanciados num homem, animal ou boneco, especialmente escolhidos para o efeito. Funcionalidade que, inclusive, as ancestrais práticas de expulsão do ano velho configuravam já nas épocas pré-cristãs. Expulsam-se os parasitas das hortas e das searas. Expulsa-se o “inverno”, com o “ano velho”, especificamente, identificado. Expulsam-se as “coisas ruins”,  para que não “atentem” no ano que entra.

E o mecanismo operatório é, como não podia deixar de ser, idêntico ao utilizado, no dia a dia, para afugentar o indesejado; barulhos, correrias, gritos e ameaças simuladas.

Aí parece radicar, aliás, o corpo de práticas que, em tempos idos, um pouco por todo o país, envolviam em certas épocas do ano, bandos de homens e rapazes que, em loucas correrias e envergando chocalhos, campainhas, instrumentos musicais diversos, latarias várias e tudo aquilo que, em última instância, fosse suscetível de fazer barulho, percorriam as ruas das aldeias, gritando, vociferando e ameaçando tudo e todos.

Por exemplo, em Cinfães, era costume, na manhã de São João, antes do nascer do sol, grupos de rapazes espalharem-se pelos campos e, em grande vozearia, apuparem e largarem imprecações às raposas, chamando-lhes “porcas, bêbadas e lambareiras”, para que, estas, não viessem (no ano que entrava) a atacar as capoeiras.

Estes costumes, que persistiram até recentemente nas “Procissões dos Fogaréus” de Braga e Coimbra (por exemplo), aconteciam entre nós na Quinta Feira da Endoenças. Conduzindo lanternas fantasiosamente ornamentadas, grande numero de rapazes, os “farricocos”, percorriam as ruas, vociferando as maiores insolências. Não faltava a matraca e o gáudio, prolongando-se [o frenesim] madrugada dentro.

E, de uma maneira ainda mais evidente, podemos referir o costume ancestral daquilo a que se chamava a “Corrida do Porco Preto” e que, em tempos não muito remotos, se fazia, ainda, em Braga.

“Em véspera de São João Batista, se (…) põe a cavalo a gente principal da cidade e, passado o rio, fingem que  emprazam um porco. Gastada a tarde em festas vão, no dia do santo, pela manhã, fazer nova montaria com um porco negro, que lá têm aparelhado e, soltando-o, lhe seguem no alcance ao som de cornetas e vozes que representam uma verdadeira montaria e o vem seguindo contra a cidade todo o tropel de gente.

E se passar do rio, se lança ao vau e passa pela água, o dão aos moradores das azenhas que há na mesma ribeira. Se tornado á ponte, fica das gentes da cidade1”.

Prática em que não será muito difícil reconhecer a ancestral função de expulsão do “bode expiatório”. Em que os aspetos sociais negativos são consubstanciados simbolicamente no porco negro que, ao ser expulso, transporta consigo os males/pecados da comunidade/nação; enviado, assim, para longínquos e ignotos lugares.

Ou, ainda, a prática peculiar dita de “Correr o Montujo”, em Vieira do Minho, na Quinta Feita da Ascensão. “Depois do sol posto, o povo em grande berraria, tocando búzios e dando tiros começa a afugentar o Montujo2”.

Finalmente, em tempos mais afastados que encontramos diretamente relacionados com o período carnavalesco: “deitava-se fora o Entrudo, na noite de terça-feira, disparando tiros, queimando bombas e atirando à rua com vasos de barro3”.

Nas classes mais favorecidas persistia o costume de “toda a louça que era finíssima se quebrar e, a roupa da mesa toda, se dividir pelos criados. O mesmo acontecendo com a louça e a roupa que tinha servido na Quaresma4”.

E como nas classes mais pobres, tais despojares não eram possíveis, perpetuou-se, com o tempo, a prática de quebrar, ritualmente, as cântaras velhas e às vezes quebradas, que acabaram por dar origem ao popular “jogo da quarta”.

“Velhas” e “chocalheiros”

Do mesmo modo, chegaram até nós terríficas personagens, estranhas e grotescas, cuja singular persistência só encontra explicação num comunitarismo intenso e enraizado e, ainda, no secular isolamento de certas regiões do interior do país.

Entendidas como consubstanciando valências pagãs e até demoníacas, a simbologia primeva que as envolve, radica nos referidos e arcaicos mitos de regeneração do ano velho que finda: ou, se quisermos, da regeneração periódica do tempo e do mundo, vistos como cíclicos e renováveis.

Encarnam “velhos” e “velhas” (representações antropomorfas de um ano/tempo desgastado e degenerado) “carochos” e “chocalheiros” (exprimindo por gritos e “chocalhadas”, catárticas e energéticas regenerações) “caretos” e “zangarrões” (representantes da transformação que a transição sustenta), “farandulos” e “diabos”: simbolizando as potências do caos, enquanto canonicamente encaradas.

Um olhar mais atento revela-nos, até, os contornos, mesmo que irregulares, de dois tipos arcanos distintos: “chocalheiros”, “carochos” e “farandulos”” encarnam, essencialmente, potências fecundantes (serpentes, chifres, barbas, símbolos fálicos assentes na forma e na atitude, assédios às raparigas) com o masculino ligados e, ainda, um corpo alargado de atitudes subversivas (gritos, chocalhares, roubos, insolências), que expressam, cabalmente, o domínio da desordem.

Já as “velhas”, portadoras de indumentárias femininas tradicionais, normalmente não veiculam de forma tão clara tais simbologias agressivas (nomeadamente eróticas), assumindo, isso sim, a solicitação de dádivas, dançando, bebendo, roubando e guardando o espólio em sacos transportados para o efeito.

Utilizam máscaras de madeira ou lata, adornadas com os mais diversos símbolos invernais e de transição. Cornos, serpentes, salamandras, bugalhos, laranjas, castanhas e o negro com que se pintam e tentam difundir; mascarrando, igualmente, as moçoilas que passam ao alcance.

Seja como for, como emanações simbólicas do caos criador, propiciador do excesso e da desordem, todas estas personagens assumem, frequentemente, atitudes licenciosas diversas, contrárias à ordem e à disciplina que vigora no resto do ano.

Passado este tempo, o seu desaparecimento corresponde ao restabelecimento da ordem. Nalguns casos como em Vale de Porco/Mogadouro e Vila Chã da Braciosa/Miranda do Douro, a máscara e o traje eram antigamente queimados

Personificações que são de um tempo de rotura com o quotidiano, interpretam ostensivamente o papel de transgressores da ordem estabelecida, desrespeitando valores localmente estimáveis, como a adequada timidez feminina ou o sagrado direito de propriedade.

Por isso, todos eles, atacam as raparigas, gritam desvairadamente, chocalham desalmadamente, ou surripiam, insolentemente, chouriços do fumeiro, bem assim como outros bens, comestíveis e não só, a que possam deitar a mão.

Na verdade, o roubo ritual, misto de transgressão e consentimento tácito, aparece-nos sempre ligado a estas figuras que, numa atitude subversiva que vem do fundo dos tempos, pedem por sistema e roubam por oportunidade.

Dança-se, pede-se, exige-se,…. surripia-se. A obtenção dos enchidos que constituirão as iguarias da refeição que se há de seguir surge, neste estádio de degeneração do rito, como seu móbil principal.

Nos nossos dias, o exotismo destas manifestações, que o especial isolamento e a vitalidade comunitária permitiram preservar, faz de cada uma das ações realizadas em remotas aldeias do nordeste transmontano, um acontecimento mediático. A funcionalidade da afirmação intracomunitária dos mais novos, vai-se transmudando em afirmação da comunidade face ao exterior, num contexto turístico nacional e de competitividade face às aldeias vizinhas com quem, secularmente, se rivaliza.

De tudo isto emerge uma maior domesticação (ou pelo menos distorção) da irreverência tradicional, num contexto disciplinador estrutural de mudança (de que o “chocalheiro manso” da Bemposta é bem exemplo) que, pese embora o balão de oxigénio da promoção mediática, não tem impedido o desaparecimento contemporâneo de muitas destas práticas.

É o combate secular com o poder civil e religioso, hoje menos feroz, mas reforçado, agora, com a desertificação gradual de toda esta região. Valverde, São Pedro da Silva ou Fornos (este no concelho de Freixo de Espada à Cinta), são exemplos, entre outros, de um irreversível e recente desaparecimento a que, com certeza, estes aspetos não foram alheios.

E enquanto os imperativos da mudança exercem a sua natural e inexorável ação, poder-se-á dizer que, apesar de tudo, se encontram ainda hoje aqui fundido (como que em simbiose), um complexo de elementos simbólicos, relacionados todos eles, de uma forma ou doutra, com arcaicos cerimoniais ligados aos fins dos anos e, ainda, com as determinantes temporais que a colocação do mesmo a 31 de Dezembro e a criação sequencial do período quaresmal, originaram na tradição europeia (como se sabe), com o solstício invernal, intimamente relacionada.

Figuras mais ou menos diabolizadas, marcadamente fecundantes, em que impera a simbologia da regeneração/imortalidade5 ou, se quisermos, da imortalidade pela regeneração. Curiosamente, algumas vezes pouco modificados nos seus elementos essenciais, não deixam, contudo, nos tempos modernos, de solicitar dádivas para o Deus Menino, entremeadas estas com dádivas para si próprios, consubstanciadoras, nalguns casos, de enormes “comezainas”!

Pedem assim, literalmente, para Deus e o Diabo”, numa curiosa ambivalência sincrética, que exprime bem a teimosa persistência do ancestral simbólico na representação popular.

São expressões grotescas e comunitárias de cosmovisões arcaicas, que o cristianismo estigmatizou e contribuiu para olvidar. De um tempo em que a fertilidade criadora, que ciclicamente gerava o novo mundo, era simbolizada por rituais catalisadores que, interpretados por personagens sagrados (em tempos idos ainda mais sagrados), reinterpretavam na Terra a cosmogonia divina.

Situação, que, aliada às funcionalidades mais atuantes e socialmente marcantes dos ritos masculinos de passagem à idade adulta, foi permitindo a singular perpetuação destas práticas (hoje insólitas e, à primeira vista, incompreensíveis), desaparecida que foi, já, a razão de ser do seu sentido e significado primordiais.

“Queimas” e “enterros”

E nas diversas formas que a tradição consagrou de rejeição do tempo passado, velho e gasto, com o inverno ou com a morte do sol ou do ano identificados, veremos agora que a morte simbólica de uma figura antropomorfa (boneco ou indivíduo transvertido) através do ato ritual de “enterrar”, “queimar”, afogar ou despedaçar (decorrente, esta, de um prévio e burlesco “julgamento” e produzindo ou não um , não menos burlesco, “testamento”) é quase omnipresente e chegou até aos nossos dias5.

Nas nossas sociedades rurais a “morte do galo” corresponde, simbolicamente, à morte do Entrudo; abandono cerimonial da carne que aí se consome em profusão; glorificação dos excessos ora terminados.

Poderemos dizer que o modelo padrão nacional desta peculiar representação que marca em apoteose, em muitas zonas do país, o fim do Entrudo, configura entre nós uma pantomina, em que o dito (personificado num boneco) é, na terça feira de Carnaval ao anoitecer (ou mais raramente à meia-noite) e após um cortejo grotesco (donde emana, quase sempre, a proclamação pública de um “testamento”), “julgado” e finalmente queimado ou, menos frequentemente, afogado ou “enterrado”.

Mas o galo é como vimos, igualmente, um avatar do sol. Do Sol que nessa altura atinge o ponto mais baixo do seu processo degenerativo anual. A sua morte personifica assim, ritualmente, a morte do sol; morte que regenera, que revitaliza, que prefigura o apogeu da vida expresso, cabalmente, na dominância estival. E como acontece quase sempre nas configurações mitológicas da morte/renascimento, para que possa eclodir num clímax de energia criadora, a morte deve ser violenta; muitas vezes assumindo a forma de combates rituais.

Portanto, assim como o fim do Carnaval era comemorado entre nós, burlesca e faustosamente, “enterrando” ou “matando o Entrudo”, personificação do período que terminava, bem como o galo, símbolo da carne que nele dominava,  também a magra e austera Quaresma, avara de excessos e farturas, era objeto de grotescas celebrações que festejavam o seu fim tão ansiado.

Deste modo, se no “sábado d’aleluia”, nalgumas regiões do país, se “queima o Judas” ou enforca o Judas (elevado este a bode expiatório da abstinência quaresmal) e noutras se “enterra o Bacalhau”, companheiro inseparável da frugalidade quaresmal, no meio da Quaresma eclode, satírica, a “serração da Velha”.

E se a “morte do Galo” do Entrudo se nos apresenta como uma burlesca lamentação pelo fim da fartura, o correspondente “enterro do Bacalhau”, constitui uma insolente celebração pelo término de uma época de miséria alimentar e, igualmente, um ajuste de contas (glosado sob a forma de um “julgamento” público) com um parceiro obrigatório e indesejável durante a longa quarentena quaresmal.

Algumas vezes, contudo, os cómicos desideratos podem até não corresponder necessariamente ao fim do período considerado, mas ao ultrapassar de um dado momento do mesmo (a primeira metade, por exemplo), desde que aquele, pela sua dimensão e particular severidade, surja aos nossos olhos como interminável.

Ora, é precisamente o que se passa com a “serração da Velha” em que, para assinalar tal data, se serra ao meio a velha e esquelética Quaresma; avatar canónico do jejum e da fome, que com a representação invernal se interliga em simbiose.

Num interminável ciclo de perpétuo retorno. Feito de degeneração e regeneração. De morte e renascimento

Afinal, poder-se-á dizer propósito, a escatologia não é mais que a prefiguração de uma cosmogonia  futura.

1 Rocha Peixoto, Etnografia Portuguesa, D. Quixote, Lisboa, 1990, p. 64.

2 Por Montujo, entenda-se, todo o animal daninho. Consiglieri Pedroso, Contribuições para uma Mitologia. Popular Portuguesa, D. Quixote, Lisboa,  1990, p. 271.

3 A. Alfredo Alves, Algumas tradições populares recolhidas na aldeia de Santa Margarida/Idanha a Nova, Revista Lusitana, vol. 3, Porto, 1895, p. 76.

4 ANTT; Archivo da  Torre do Tombo códice 819, fl. 45v Reflexões à carta de D Filipe de Noronha.

5 Sobre este assunto ver Aurelio Lopes, a Face do Caos; Ritos de Subversão na Tradição Portuguesa, Chamusca, Cosmos, 2000.

6 Aurélio Lopes, Bielhas i Chocalheiros na ne Praino Mirandés, Lisboa, Apenas Livros, 2005, pp. 26-48.

PUB
PUB
Aurélio Lopes
Investigador universitário na área da cultura tradicional, especialmente no que respeita à Antropologia do Simbólico e à problemática do Sagrado e suas representações festivas, tem-se debruçado especialmente sobre práticas tradicionais comunitárias culturais e cultuais, nomeadamente no que concerne à religiosidade popular e suas relações sincréticas com raízes ancestrais e influências mutacionais modernas. É Licenciado em Antropologia Social, Mestre em Sociologia da Educação e Doutorado em Antropologia Cultural pelo ISCSP da Universidade Técnica de Lisboa.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

APOIE O NOSSO JORNAL, TORNE-SE UM LEITOR BENEMÉRITO

Se lê regularmente as nossas notícias torne-se um leitor benemérito fazendo contribuições a partir de 10€/mês, ou doando valores iguais ou superiores a 100€. Esses leitores passam a constar da ficha-técnica como apoiantes deste projeto independente de jornalismo. Pode também fazer uma contribuição pontual (5€, 10€, 20€, o que puder e quiser).