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Segunda-feira, Setembro 27, 2021

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“Restos do Natal da nossa tradição”, por António Matias Coelho

Sendo das festas do ano uma das maiores de todas, pela importância que tem e pela que lhe damos nós, o Natal é mais privado do que festejo de rua. É a festa da família, vivida dentro de casa, afinal o que tem na essência é que um menino nasceu, tem mãe e pai junto de si, por muito pobre que seja é esta a maior riqueza.

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O Natal que temos hoje, trazido pela televisão, pela cegueira consumista, pelo desperdício das prendas, pelas imitações estrangeiras, pais natais, árvores do norte, é um produto recente do mundo em que a gente vive, mais virado para a imagem do que para a substância, muita coisa, pouco afeto.

Felizmente ainda há, numas quantas casas da nossa terra, lembranças de outro Natal, que vem da nossa raiz, tão vistoso não será, mas é bem mais verdadeiro. São os fritos que a avó faz, velhoses, coscorões, o pratinho de arroz-doce, o bacalhau da consoada, um jeito que nos ficou do bacalhau a pataco que era comida de pobre, onde é que isso já vai…

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E o presépio, que ainda se arma num canto da nossa casa, com musgo vindo do mato, um lago com um patinho, caminhos, uma ponte, um pastor, um rebanho de ovelhas, imagens de um mundo rural onde nascemos e que trazemos na essência, e a cabana, a vaca e o burrinho, a Virgem e S. José, e o Menino, o centro das atenções, o símbolo da vida que começa, o Natal é isso mesmo, nascer, abrir os olhos para o mundo.

Tem Reis Magos o presépio, três, um de cada raça, a lembrar que a cor não interessa, o que importa é a dádiva que o gesto deles traduz. Vem daí a tradição, definitivamente perdida, de em noite de Natal, terminada a consoada, irem as crianças dormir na ânsia do dia seguinte, já que durante essa noite vinha o menino jesus, escrito assim, com minúsculas, pois para aquelas crianças, que nós fomos noutro tempo, esse era nome de prenda, quantas vezes sendo o menino jesus a única do ano inteiro.

Desse Natal da nossa tradição faz parte a missa do galo, rezada à meia-noite, a que toda a gente ia, nem que alguma ficasse à porta por não ser muito de igreja, com o seu fato melhor e um ar de festa no estar.

Madeiro do Natal. Foto: Gazeta do Interior

Da tradição também é o madeiro que em algumas aldeias se acende ainda no largo maior da terra, quase sempre ao pé da igreja. São uns cepos de tamanho descomunal que para ali se trouxeram para aquecer os corpos e alumiar a noite, a da consoada não, a seguinte, que é a noite do madeiro, e as outras por aí fora, é tanta a lenha para arder que fica acesa a fogueira, se não cair muita chuva, até chegar o ano bom.

E em roda do fogo, onde se assam coiratos, chouriços, coisas assim, se junta a gente da aldeia, por tradição mais os homens, cavaqueando, esfregando as mãos enregeladas, aquecendo o sentimento que os liga uns aos outros, sempre o lume teve o condão de aproximar as pessoas.

Sendo essa, como se sabe, a mensagem do Natal, bem merecia o madeiro continuar por muito tempo a ser aceso nos lugares da nossa terra, lembrando que estar com os outros é um bem que não se deve extinguir[i].

[i] Este texto, ao qual se introduziram agora ligeiras alterações, integrou originalmente o Caderno da Ascensão A Fé e a Festa, publicado pela Câmara Municipal da Chamusca em 1998, p. 53-55.

É ribatejano. De Salvaterra, onde nasceu e cresceu. Da Chamusca onde foi professor de História durante mais de 30 anos. Da Golegã, onde vive há quase outros tantos. E de Constância, a que vem dedicando, há não menos tempo, a sua atenção e o seu trabalho, nas áreas da história, da cultura, do património, do turismo, da memória de Camões, da comunicação, da divulgação, da promoção. É o criador do epíteto Constância, Vila Poema, lançado em 1990 e que o tempo consagrou.
Escreve no mediotejo.net na primeira quarta-feira de cada mês.

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