Apoie o jornalismo que fazemos,
junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

Domingo, Julho 25, 2021

Apoie o jornalismo que fazemos, junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

“Restauração – Restaurar”, por Armando Fernandes

No primeiro dia de Dezembro de 1640, ocorreu a restauração da Independência de Portugal, logo o triunfo dos restauradores, entre eles uma espanhola amante do poder, tanto o amou que terá dito mais vale ser rainha um dia, que duquesa toda a vida.

- Publicidade -

A frase serviu de mote nos últimos dias aos adversário de António Costa, no fito de referirem a gula do socialista relativamente a tão desejado poder. A raposa velha italiana costumava afirmar que o poder só faz mal a quem não o tem. Imputam-lhe responsabilidades na morte de Aldo Moro, precisamente, por amor ao mando não ter cedido às exigências das Brigadas Vermelhas.

Ora, restauração de e das forças está na origem dos restaurantes. Há anos uma investigadora americana concebeu robusto trabalho referente a restaurantes e seus antecedentes, nele demonstrou como os carretões parisienses restauravam as forças engolindo caldos restaurativos em locandas e baiucas, e a sua evolução redundar em restaurantes de todos os géneros, formatos e feitios de comeres.

- Publicidade -

É enorme o acervo documental relativo a restaurantes e respectiva evolução, acrescido de nutrida lista de obras sobre a sua importância patrimonial e simbólica de muitos deles, seja porque foram palco de grandes, gratos ou tristes acontecimentos.

Porque vem ao talhe de foice, lembro trabalhos sobre o célebre Avis, onde amesendou o Senhor Gulbenkian, a Casa da Comida, o Ritz, entre outros, e portugueses. Obviamente, pululam as vaidades, deixo essas aos outros.

O grande impulso dos restaurantes ocorreu após triunfo da Revolução Francesa a originar o massivo despedimento de cozinheiros até então ao serviço da nobreza, alta, média e mais sapatos de sola furada a que os fogões das suas residências funcionassem. Há notícia de um ajudante de cozinha português ter participado na execução da menina Maria Antonieta, a quem injustamente atribuem uma piada acerca de pão e brioches. A ocorrência a envolver o português merece escrito à parte o que farei quando tiver oportunidade. Não dou mais pormenores porque estou cansado de ser plagiado, ao menos podiam referir a origem!

Aos cozinheiros sem trabalho, só os mais famosos receberam convites de exercício da profissão no estrangeiro, só lhes restou meterem as mãos na massa nos tachos e panelas de espaços destinados ao restauro estomacal, longe dos refinamentos dos senhores de sangue azul, especialistas no desbaratarem milhões e explorarem todos quantos trabalhavam nos seus imensos domínios, exceptuando os ilustres cozinheiros donos de saberes proporcionadores de gratos prazeres palatais.

Na actualidade a paleta de restaurantes é ampla, múltipla nas origens, produtos e sabores, a sua existência alargou-se, a classificação também, apesar de tão evidente realidade atrevo-me a estragar o preparo culinário interrogando:

Dos muitos milhares de restaurantes assim designados, quantos, efectivamente, o são? Será que os seus profissionais, efectivamente, o são? E, no respeitante aos empresários eles possuem conhecimentos mínimos, para, efectivamente o serem? E, no que tange às receitas integradoras das suas cartas, as mesmas, efectivamente, respeitam a fórmula original?

Às interrogações em causa podia juntar outras, algumas comezinhas, simples, quase ridículas, caso da higiene das instalações sanitárias, do acerto na escolha de toalhetes e toalhas, e por aí fora.

Costuma-se dizer: quem não sabe, não se estabelece. Só que relativamente a restaurantes e casas de comeres ainda prevalece a velha crença, basta – fogões, tachos, panelas, mesas, cadeiras, imitações de guardanapos, pratos, copos e cutelarias – e, já está. Mas não está, nem basta, daí o pouco tempo de vida de inúmeros sítios a quem chamam restaurantes. De outros subsistirem, nem o Oráculo sabe como!

 

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

- Publicidade -
- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here