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“Responsabilidade partilhada”, por Nuno Pedro

A notícia não encerra em si qualquer novidade. Pelo tempo que já decorreu desde o seu anúncio pela Federação Portuguesa de Futebol (FPF), logo, sendo do domínio público, pelo menos do interessado, a que acresce a relevância que a mesma despertou junto, não só das partes envolvidas, como também nas comunidades locais. Das bafejadas e da que não o foi. Refiro-me à aprovação por parte da FPF das candidaturas apresentadas pelo Tramagal Sport União e Casa do Povo do Pego ao arrelvamento com piso sintético dos seus campos de futebol, no âmbito do programa de apoio criado para esse efeito pelo organismo que tutela o futebol no nosso país. Pior sorte teve a outra candidatura. A dos Dragões de Alferrarede, que não viu as suas pretensões atendidas. Como tantas outras centenas espalhadas por todo o continente e ilhas que viram ser defraudadas as suas expectativas.

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Das mais de 500 candidaturas apresentadas, apenas 120 ficaram com razões para sorrir. E se atendermos ao facto das 21 que concorreram via Associação de Futebol de Santarém, apenas quatro serem contempladas e duas pertencerem a clubes do concelho de Abrantes, estão mais que justificadas as razões do entusiasmo tramagalense e pegacho. Por sinal, três clubes abrantinos, incluído o não contemplado Dragões de Alferrarede, que ainda pertencem ao restrito lote de menos de meia dúzia por todo o distrito de Santarém que, infelizmente, dispõem de condições pouco propícias para a prática da modalidade, direi mesmo ultrapassadas, desadequadas, inapropriadas, como são os campos pelados. Por pouco tempo. Assim todos o desejamos. Independentemente da camisola que vestimos. Aqueles que a vestem. Porque muitos continuam a passar ao lado daquilo que são as vivências desportivas das suas localidades, pouco se importando que os seus filhos, netos ou conhecidos continuem a fazer do pó e da lama seus parceiros inseparáveis.

Adiante, o futuro encarregar-se-á de provar de que lado estava a sensatez e promover a tão essencial separação do trigo do joio. A malta da bola não é iletrada. Também pensa. E muito. Mas deixemos o acessório e foquemo-nos no que realmente interessa: a questão dos sintéticos.

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O primeiro passo para que o Tramagal e Pego vejam as suas infraestruturas desportivas consideravelmente melhoradas está dado. Cada um dos projectos apresentados conta já com 60 mil euros para financiar o custo total da obra. Insuficiente? Claro que é. Mas mais vale ter alguma coisa do que não ter nada. Penso que é razoável pensarmos assim.

Já os Dragões de Alferrarede, zero de euros. Pelo menos, para já. Quero acreditar que sim. Mas este é um processo cuja responsabilidade não poderá estar exclusivamente do lado dos clubes. Nem os mesmos têm capacidade para tal. Por razões sobejamente conhecidas. Se assim fosse, nem valia a pena ter perdido tempo e certamente algum dinheiro na elaboração das candidaturas apresentadas. Colocando o tecido empresarial da região bem como a envolvente social, leia-se sócios e simpatizantes das colectividades, num plano secundário enquanto veículos de angariação de verbas que possam igualmente contribuir para suportar a colocação dos sintéticos, numa lógica de responsabilidade partilhada, caberá à Câmara Municipal de Abrantes dar respostas em termos orçamentais para que os sintéticos vejam a luz do dia.

Uma realidade nua e crua e que nem sequer pode dar azo a qualquer tipo de dúvida quanto à exequibilidade dos projectos e até mesmo alguma crítica proceda ela de que quadrante for. O assunto é demasiadamente importante para servir de arma de arremesso político. A tentação de cair em rivalidades bacocas por vezes é grande. Porque é que tu tens e eu não tenho? O caminho não é esse.

Se tu tens vamos todos juntos encontrar soluções para que eu também possa ter. Só assim será possível satisfazer todos num só. Só assim poderemos assistir a uma política criteriosa, alicerçada em padrões de equidade, dentro daquilo que são as assimetrias sempre existentes, sejam de que índole for. Mas que existem e não devem ser escamoteadas. Que espelham diferenças. Que importa fazer desaparecer. Ou, pelo menos, diluir. Que assim seja.

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Nuno Pedro
Com uma vida ligada ao futebol, particularmente enquanto dirigente, Nuno Pedro, abrantino, 46 anos, integra desde 2008 o quadro de Delegados da Liga Portuguesa de Futebol Profissional e mais recentemente a direcção da Associação de Futebol de Lisboa mas, acima de tudo, tem uma enorme paixão pela modalidade. Escreve no mediotejo.net de forma regular.

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