“Respeito pelos leitores”, por Armando Fernandes

Foto: DR

Por mais de uma vez, nos vários jornais onde escrevo, tenho abordado o tema que impende sobre a cabeça de quem neles escreve – o respeito pelos leitores –, especialmente na área da gastronomia, a qual está infestada de vocábulos ocos, sem sentido, os denominados cacófatos.

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Se por um lado impera ou pelo menos detém muito espaço, por outro a generalização corriqueira empobrece a compreensão do leitor no que tange à real percepção do talento ou não do cozinheiro porque quando questionado relativamente à receita seja tangível ou esteja conforme os seus três pontos cardeais – produto principal, acompanhamento e condimentos –, o quarto ponto cardeal pertence à cozinheira e/ou cozinheiro, nuns casos se for necessário substituir um acompanhamento ou condimento, noutras ocasiões dar-lhe um acrescento sem desqualificar a essência do preparado.

Atente-se no célebre arroz de carqueja. Por mero acaso ou porque alguém apreciou a junção da carqueja teve a ideia de quebrar a moleza da carne de coelho doméstico limpando-o das gorduras, parti-lo em pedaços pequenos e mergulhá-lo numa marinada de vinho, carqueja e louro durante três dias.

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Finda a marinada, o láparo foi cozinhado com arroz e «gourmets» consideraram a receita de grande sapidez elogiando a carne do saltarilho de coelho bravo. A ou as inventoras disseram a verdade: é arroz de coelho com carqueja, os «especialistas, divulgaram o prato de baixo do cognome de arroz de carqueja com carne de coelho bravo.

Ora, o respeito pelos leitores obriga aludir ao disfarce sem quebra de respeito ante a veracidade dos factos. A nona arte – a gastronomia – está recheada de máscaras na defesa de produtos menos nobres ou originais, veja-se a alcunha do níveo peixe tamboril – lagosta fingida – a demonstrar que todo o burro come palha, importa saber lha dar.

Sendo assim, e é, todos quantos escrevem sobre a arte de comer se obriga a estudar muito provando, testando e, quando é enganado, proclamar o engano, sem embargo de o protesto ser ruidoso quando o embuste é malicioso. Já me aconteceu, respondi a preceito, até num restaurante das redondezas de Abrantes.

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