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Quarta-feira, Dezembro 8, 2021
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Reportagem/Sertã | O “Diabo andou à solta” nas aldeias do Troviscal (C/fotos e video)

O que dizer quando percorremos quilómetros e quilómetros de terra queimada, com fogachos de lume em ambos os lados das curvas que nos levam até ao nosso destino, populares de mangueira na mão de olhar perdido no negro horizonte, animais desorientados no meio da estrada e casas esventradas pelas chamas?

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Fumo era intenso em muitas aldeias da freguesia do Troviscal, na Sertã Foto: mediotejo.net

Foi este o cenário que encontrámos na manhã desta segunda-feira, 16 de outubro em várias aldeias da freguesia do Troviscal, Sertã. E, desta vez, o Diabo trouxe com ele a Dona Morte. Foi na aldeia de Vale do Laço, Troviscal, que fica como o nome indica num profundo vale onde, para entrar, tivemos que fechar os olhos aos cabos pendurados no meio da estrada, ao fumo intenso que causava ardor nos olhos e rezar para não sermos nós a notícia. Para quem anda no terreno, o incerto é o mais certo e o instinto é o nosso principal aliado. Até ver.

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Na manhã de segunda-feira, populares de várias aldeias da Sertã mostravam-se apreensivos com possíveis reacendimentos Foto: mediotejo.net

O mesmo instinto que não teve Libânio Cardoso, 70 anos. Utente do Centro de Dia, no domingo, aconteceu estar com o irmão Américo dentro da casa que ambos habitam, em Vale do Laço, quando as chamas cercaram a habitação de primeiro andar num rompante. Uma ambulância dos bombeiros deslocou-se até ao local e pediu-lhes que saíssem mas, pensando na defesa da casa, não acataram o conselho.

Américo sofreu queimaduras ligeiras e recebeu assistência hospitalar mas pior sorte teve o irmão que acabou por ficar debaixo dos escombros da casa, cujo telhado e paredes ruíram devido ao incêndio. Na manhã desta segunda-feira, o cadáver de Libânio ainda estava por resgatar do interior da habitação. Aguardava-se a chegada dos bombeiros, com a Polícia Judiciária e a GNR a supervisionar o local da tragédia. Familiares chegavam, a conta gotas, combalidos com o sucedido. Ninguém esperava uma tragédia destas à porta.

Chamas invadiram a aldeia de Vale do Laço, Troviscal, Sertã Foto: mediotejo.net

“Foi o Diabo, andou por aqui à solta”, asseguram-me, a uns quilómetros de distância, alguns populares da aldeia de Macieira que encontramos à beira da estrada, com os rostos cansados fruto de uma noite mal dormida em que viram o “lume” entrar pela aldeia adentro. “Em 2003 também houve um grande incêndio mas não chegou aqui a entrar. Desta vez varreu tudo. Só se salvaram as casas”, dizem. Nem todas.

Piedade, com os seus rijos 89 anos, moradora na aldeia da Macieira estava a dormir a sesta quando o cheiro intenso a fumo a alertou. Tentou fugir mas já estava tudo a arder. Os pés pregaram-lhe uma partida e caiu, a tentar fugir do Diabo, em cima do lume. Valeu-lhe a ajuda de uma vizinha. Notou que tinha o braço queimado e, mais tarde, não aguentava as dores numa perna. Só aí reparou na enorme bolha que a fez ir até ao Centro de Saúde receber ajuda.

“Julguei que me ficava aqui. Não tinha força para andar nem para saltar os arames. Deixei lá os sapatos”, recorda. O incêndio que deflagrou na Sertã na noite de domingo, 15 de outubro – naquele que a Protecção Civil classifica como o pior dia do ano em termos de incêndios no país – terá provocado três feridos ligeiros na Sertã mas, asseguram os populares, há mais. Muito mais. Gente que ficou ferida a tentar salvar os seus bens, animais e, sobretudo, a casa.

Vítor Cardoso, morador em Vale do Laço, olha com alívio para a sua habitação que foi poupada pelas chamas Foto: mediotejo.net

Em Vale do Laço, Vítor Cardoso acaba de chegar de Lisboa, onde reside em permanência, para ver com os próprios olhos que a casa da sua terra natal se mantém intacta. Arderam-lhe medronheiros, entre outras árvores de fruto, e um anexo agrícola mas suspira de alívio quando verifica que a casa se mantém tal como a deixou da última vez que aqui veio.

Veiculo de bombeiros que estava numa exploração florestal foi consumido pelas chamas em Cimo Ribeiro Foto: mediotejo.net

A sua prima não ganhou para o susto e tentou evitar que o pior acontecesse. “Foi um inferno. A casa não teve nada mas tudo o resto…”, conta, antes de ir alimentar os animais. O fogo começou cerca das 17 horas de domingo e só depois de muitas horas é que houve lugar a um pouco de descanso.

Com as chamas no horizonte, muitos populares viram-se obrigados a defender as suas casas do pior Foto: mediotejo.net

No dia seguinte, em muitas aldeias do Troviscal ainda há vestígios do Diabo. Não há luz, nem água e a rede é fraca, impossibilitando chamadas de telemóvel. Passam por nós, em marcha rápida, carros de bombeiros em direcção a Marinha de Vale Carvalho, uma das situações mais preocupantes nesta manhã e cuja estrada cortada nos impediu de testemunhar o que ali se passava.

Terá sido ali perto, em Cimo do Vale, que ardeu um carro de bombeiros Voluntários da Sertã. Curiosamente, em Cimo do Ribeiro, numa zona de exploração florestal, encontramos um monte de lenha a arder e um veículo de bombeiros de Sousel, que soubemos mais tarde estava ali para arranjar, completamente danificado pelo fogo. O proprietário fala-nos em “milhares de prejuízos” e aguardava que alguém da câmara viesse fazer o registo dos danos sofridos na sua exploração. Causados pelo fogo. Pelo Diabo do Fogo.

Sertã / vítima deverá estar soterrada em casa que foi atingida pelos Incendios no Vale do Laço, Troviscal

Publicado por mediotejo.net em Segunda-feira, 16 de Outubro de 2017

Aos 12 anos já queria ser jornalista e todo o seu percurso académico foi percorrido com esse objetivo no horizonte. Licenciada em Jornalismo, exerce desde 2005, sempre no jornalismo de proximidade. Mãe de uma menina, assume que tem nas viagens a sua grande paixão. Gosta de aventura e de superar um bom desafio. Em maio de 2018, lançou o seu primeiro livro de ficção intitulado "Singularidades de uma mulher de 40", que marca a sua estreia na escrita literária, sob a chancela da Origami Livros.

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