Reportagem/Incêndios | O negro voltou a reinar de Belver a Gavião, mas já se mergulha no Alamal

Gavião continua a ser o único concelho do Alentejo cujo território se estende acima do rio Tejo, pela freguesia de Belver. Mas agora é menos “diferente” como prometem os anúncios de promoção turística. É certo que as altas colinas graníticas permanecem no mesmo local mas as paisagens de beleza singular estão agora enegrecidas, transformadas em cinza à semelhança dos concelhos vizinhos de Mação e Abrantes. Resta encontrar ânimo e começar de novo. A promessa de não baixar os braços é do vice-presidente da Câmara António Severino.

Incêndio no concelho de Gavião

Conta a lenda que certo dia uma princesa chegada à janela da torre de menagem do castelo, e descobrindo o panorama, terá exclamado: “Oh, meu pai, que belo ver!”. A realidade é agora completamente diferente. O cenário verdejante foi substituído pelo negro da terra queimada e pelo desespero das gentes que fustigadas pela má sorte exclamam que este incêndio “é muito pior” que o último grande fogo, em 2003.

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José de Matos, de 56 anos, é natural da freguesia de Margem, em Gavião, e já viu muitos incêndios mas, quando o fogo chega a 50 metros das habitações, o problema é sempre o mesmo: “Não sabemos para que lado nos havemos de virar”, desabafa ao mediotejo.net. Desde quarta-feira em alerta de dia e de noite “não se sossega, não se dorme, tudo em perigo. Viveu-se um horror”, garante.

José de Matos residente em Gavião viu ontem o fogo perto de sua casa

No combate, os populares socorrem-se de baldes e mangueiras. “Os civis têm de ajudar os bombeiros que não chegam a todo o lado”, afirma. Passado o maior susto, José de Matos receia que “venham botar fogo” na pequena zona que permanece verde junto a sua casa.

Explica ao mediotejo.net que a prevenção é a razão pela qual se veem baldes, garrafas e garrafões cheios de água debaixo das árvores. “Isto tem mão criminosa. Só pode!” afirma. Considera “impossível” um incêndio com reacendimentos “em triângulo” ter causas naturais. Acredita que “quem faz isto anda sempre à frente dos bombeiros”. As chamas chegaram a ameaçar o Bairro Cadete, no perímetro urbano da vila.

Devido à preocupação com eventuais reactivações os populares deixavam baldes com água nas poucas zonas que ainda continuam verdes

O vice-presidente da Câmara Municipal de Mação, António Severino, conta ter sido “uma noite de muito trabalho de todos os operacionais no terreno”. As povoações de Degracia Fundeira e Cimeira eram a maior preocupação. A evacuação chegou a ser equacionada não fosse a mudança do vento e a pouca humidade que a noite trouxe consigo a ajudar no combate ao fogo.

As horas foram de “pânico” quando dentro da vila o fogo galgou para dentro dos quintais e quase que roçava as paredes das casas, indicou o autarca. A agricultura nos quintais não resistiu assim à força impiedosa das chamas. Vinhas, pomares e olivais também foram consumidos pelas labaredas que conseguiam ser mais altas que as árvores.

António Severino, vice-presidente da Câmara Municipal de Gavião

“Os bombeiros estavam muito divididos porque o fogo foi de tal forma avassalador” que em cerca de duas horas traçou um caminho de destruição entre Belver e Gavião. António Severino continua sem encontrar uma explicação para projecções “com mais de três quilómetros, que passam o rio Tejo e que aparecem na outra margem”. E compara: “pareciam dois barris de pólvora. De repente estava tudo a arder. Inexplicável!”. Argumentos que justificam a possibilidade de “mão criminosa”.

Na parte norte do concelho de Gavião, particularmente nas aldeias da freguesia de Belver, só restam as casas, excepto uma de primeira habitação em Torre Cimeira que queimou o primeiro andar. O fogo entrou pelo telhado. A área florestal foi consumida pelas chamas do incêndio que chegou do concelho vizinho de Mação.

A praia do Alamal em Gavião não está interdita mas conta agora com um cenário mais negro

Nem a “Pérola do Tejo” resistiu ao poder do fogo. Apesar da zona circundante de campismo, dos edifícios de apoio, do bar e a unidade de alojamento local não terem sido atingidos “a praia do Alamal está destruída. Parte do passadiço foi consumido e temos um cenário cinzento”, considera o vice-presidente, explicando que foi salva “com a ajuda dos proprietários dos espaços”. A praia fluvial entretanto reabriu.

Sem tempo ainda para pensar no futuro há uma certeza: Gavião vai reerguer-se. “Não é uma situação fácil. As pessoas estão muito transtornadas. A nível psicológico temos de fazer muito trabalho de proximidade junto das populações “. No entanto, a aposta “vai continuar a nível turístico apesar da paisagem natural estar destruída. Queremos fazer do concelho uma referência”, assegura António Severino.

O Castelo de Belver lá do alto da encosta contempla agora terra queimada

O autarca deu conta das lágrimas de alguns populares que perderam tudo depois de “terem investido dinheiro e muitas horas da limpeza das suas propriedades, em animais, vinhas olivais que neste momento estão reduzidos a cinza”. A prioridade é agora a casa de primeira habitação destruída em Torre Cimeira. “Já estivemos hoje no local e vamos pôr os serviços municipais a trabalhar” na reconstrução. Os meios operacionais no terreno foram considerados os “adequados”.

Filipe e Elisabete Oliveira são do Porto e estão de férias na Praia fluvial do Alamal. Contam-se entre as oito pessoas que ontem, apesar da ordem de evacuação da Protecção Civil, permaneceram na praia durante a noite. As restantes saíram “ordenadamente por volta das 17h00”.

Filipe e Elisabete Oliveira, do Porto, estão de férias do Alamal e contam-se entre as oito pessoas que não saíram da praia durante a evacuação

“É seguro. Há água em frente. Metemos os carros na areia e depois ajudámos com toalhas e com ancinhos a fazer linhas de corta-fogo”, refere Filipe. Durante a noite “saímos para ajudar a apagá-lo no passadiço”. A Quinta do Alamal estava então cercada. “Foi uma questão de minutos. O fogo galgou o monte e as projecções começaram a vir do outro lado do rio”. Os bombeiros de Torres Vedras e Almoçageme fizeram o resto.

Elisabete chegou de comboio a Abrantes cerca das 21h00. De seguida apanhou uma boleia até à Barragem de Belver. Não tinha como passar para cima porque as estradas estavam todas cortadas. Foi ‘resgatada’ pelo barco de Carlos Marques que descendo o rio fez a viagem por entre o inferno. Noite escura “nas margens pareciam árvores de natal”, compara Filipe.

Carlos Marques é o arrendatário do Bar do Alamal, propriedade da Câmara Municipal de Gavião. Explica que “foi tudo rápido de mais. Vinte minutos até o incêndio chegar à Quinta do Alamal e meia hora até sair daqui”. Carlos e as sete pessoas que permaneceram conseguiram “salvar o que hoje está verde”, garante.

Carlos Marques, empresário que faz a exploração do Bar do Alamal apela a que todos venham à praia apesar do cenário não ser agora tão verdejante

Carlos explora aquele espaço de bar há cinco anos, mas em 2003 aquando de outro grande incêndio que permanece na memória das gentes de Gavião, também estava no Alamal. “Um inferno. Ardeu como um fósforo. E infelizmente tive o azar de estar aqui nas duas vezes”. Há 14 anos a Quinta do Alamal ardeu “quase na totalidade mas foi muito mais brando”, garante.

A preocupação já pairava na cabeça de Carlos há meses. “Era o que eu temia, porque este ano não vi correr os ribeiros e estava tudo cada vez mais seco”.

Depois do incêndio passar, os “resistentes” enfrentaram uma retenção forçada na praia devido à queda de um eucalipto a arder que cortou a estrada. “Quando pensávamos que íamos descansar ainda tivemos de esperar pelos sapadores”. Saíram perto das 02h30.

Com o negócio em risco, Carlos, visivelmente emocionado, acredita que vai tudo correr bem. “Temos mais força quando estas situações acontecem para mostrar às pessoas que estes locais são bonitos e aprazíveis” mesmo depois de um incêndio destas dimensões. Apesar do alento, a verdade é que trabalham diariamente no bar dez pessoas, “todos os dias faz falta mais alguém e hoje sobram”.

Henrique Henriques, gerente do Alamal River Club conta que de lotados passaram a ter dois quartos ocupados com o incêndio

Para Henrique Henriques, gerente do Alamal River Club, o dia começou calmo. Já passava das 15h00 quando aterra na praia um helicóptero da Protecção Civil com ordem de evacuar. “Disseram-nos: os vossos clientes têm de sair rapidamente, não podem levar bens pessoais nem nada, é sair já”.

O cenário era “dantesco”. Alguns clientes do Alamal River Club com familiares a residir nas proximidades passaram lá a noite. No hotel encontram-se ainda “algumas malas, bagagens e pertences das pessoas que saíram. A maior parte dos clientes decidiu regressar às suas casas”, indica. Regressaram à unidade hoteleira cerca das 02h00.

O gerente revela que hoje “a quebra foi imensa em número de pessoas que vinham entrar. As pessoas com as notícias que foram passando na televisão acharam que não tinham condições de segurança. Já tivemos muitos cancelamentos de reservas. Com a semana praticamente cheia até ao final de Agosto e neste momento, dos 17, temos dois quartos ocupados”.

A família Pina, de Lisboa, com três filhos, apesar do incêndio decidiu ficar ainda mais dias no Alamal River Club

Henrique Henriques manifestou-se “bastante apreensivo quanto ao resto do verão e do ano” uma vez que a unidade de Alojamento Local “vive essencialmente dos percursos pedestres e do turismo de natureza”, recordando que o passadiço de madeira ardeu bem como o trilho do Alamal até à Barragem de Belver. “Vamos ter de reunir com a Câmara de Gavião e ver quais as soluções para ultrapassar o inverno que vai ser muito duro com as consequências deste incêndio”, vaticina.

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Paula Mourato
A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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