VN Barquinha | Tesouro dos Templários mais próximo da luz do dia? (c/ vídeo)

O Castelo de Almourol, pelas características e cenário únicos, é por si só uma relíquia e a ligação aos Cavaleiros das Ordens do Templo e de Cristo aumenta-lhe o valor. No entanto, não é desta riqueza Templária que falamos, mas da que muitos defendem ter estado (ou estar) escondida nas míticas salas subterrâneas. Fomos investigar e descobrimos um documento com 120 anos que pode ser o “mapa do tesouro”.

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A investigação teve início em livros e documentos ligados à História para conhecer os factos documentados e acrescentámos-lhe conversas com duas pessoas que conhecem Vila Nova da Barquinha como as palmas das mãos. Primeiro com António Luís Roldão, que dedicou parte da vida a pesquisar e a escrever sobre a história local, e segundo com Fernando Freire, presidente da Câmara Municipal e investigador dos episódios do tempo que marcaram o concelho que tem o castelo como ex-libris.

Comecemos pela História sobre a fortaleza militar que tem feito correr quase tanta tinta quanto a água que é obrigada a contornar a pequena ilhota do rio Tejo onde está localizada. Nos últimos séculos, houve quem escrevesse e falasse sobre a Historia e quem o tenha feito sobre as outras, de “h” pequeno e começadas por “e”, que adensam a neblina mística que envolve o castelo classificado como Monumento Nacional desde 1910.

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As que têm passado de boca em boca, geração após geração, perpetuaram lendas e mitos que, no último caso, muitos esperam vir a passar para o lado dos factos comprovados. Se, para alguns, as muralhas são associadas às lendas que alimentam o imaginário, para outros, a fortaleza militar de nome “Almorolan”, que os portugueses encontraram quando conquistaram esta zona do território em 1129, é um dos expoentes máximos do legado Templário.

O Castelo de Almourol está envolto em mistérios. Foto: mediotejo.net

E, já se sabe, Templários são sinónimo de misticismo sobre os cavaleiros de manto branco que ostentavam a cruz vermelha e cuja génese está ligada ao ano de 1118 com o surgimento da Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, no Reino de Jerusalém. Como primeira missão tiveram a guarda dos peregrinos cristãos e o Concílio de Troyes renomeava-a como Ordem do Templo, uma década mais tarde, no mesmo ano em que recebiam a doação do Castelo de Soure por D. Teresa.

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O apoio prestado nas conquistas militares de D. Afonso Henriques foi sendo recompensado e, em 1159, o rei doava a D. Gualdim Pais o Castelo de Ceras e respetivo termo, em Tomar, cuja atribuição viria a ser confirmada dez anos depois, com o acrescento dos castelos de “Ozêzar” (Ozêzere) e da Cardiga. O Castelo de Almourol andava por perto, mas o nome não consta no documento oficial de 1169 que os tornava propriedade da Ordem do Templo a título perpétuo.

É na lápide branca por cima da porta principal do castelo que encontramos a data em que o cavaleiro de D. Afonso Henriques e quarto Mestre da Ordem do Templo em Portugal, desde 1157, terá reedificado a fortaleza. Estávamos no ano de 1209 da Era de César, que corresponde ao de 1171 da Era Cristã e, nesta altura, surgiam as Comendas de Ozêzere, Almourol e Cardiga, ainda que muitos defendam que os três castelos formavam uma única Comenda.

Luís Roldão. Foto: mediotejo.net

A História seguiu o seu rumo e a Ordem do Templo afirmou-se no mundo conhecido de então. Doação após doação, os Templários foram conquistando território, riqueza e influência, aplicando e desenvolvendo as técnicas militares e de engenharia que tinham trazido da Terra Santa. Um poderio que rivalizou com o de monarcas e papas até à fatídica sexta-feira 13, no mês de outubro de 1307, em que o rei francês Filipe “o Belo” (Filipe IV) mandou prender os cavaleiros Templários.

Em novembro desse ano, por indicação do papa Clemente V, as acusações de blasfémia e heresia ultrapassaram as fronteiras francesas, levando à decisão de extinguir a Ordem do Templo no décimo quinto concílio da Igreja Católica, realizado em Viena entre outubro de 1311 e maio de 1312. Portugal não foi exceção e tudo apontava para o desaparecimento dos cavaleiros Templários com a chegada da bula Vox Clamantis, em 1312, às mãos do rei D. Dinis.

No entanto, o rei português conseguiu negociar a criação de uma nova ordem religiosa militar junto da Santa Sé e, em 1319, nova bula, desta vez assinada pelo papa João XII, instituía a Ordo Militae Jesu Christi (Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo), integrando “para todo o sempre” os cavaleiros, privilégios e património da antiga Ordem do Templo.

É neste ponto da História que surge a questão que tem levantado diversas teorias associadas ao Castelo de Almourol: onde foram guardadas as relíquias Templárias?

A Torre de Menagem do castelo. Foto: mediotejo.net

Para primeiro mestre da Ordem de Cristo foi escolhido D. Gil Martins do Outeiro, da Ordem de Avis, e a aprovação do primeiro regimento, em 1321, instituiu as comendas de Almourol e de Cardiga, que ocupavam o oitavo lugar no que respeitava à relevância económica numa lista de 38. Nesse ano, D. João Lourenço tornou-se no segundo mestre e reduziu as comendas para 36, tendo as de Almourol e Cardiga chegado a ocupar o quarto lugar.

A importância da região no património Templário é comprovada por documentos datados de 1333 e 1340, que referem o facto de ambas as Comendas estarem sob administração do Frei João Lourenço. A Comenda de Tomar ocupava lugar cimeiro na lista da grandeza financeira e o seu castelo, à semelhança do sucedido nos tempos da Ordem do Templo, viria mais tarde a tornar-se na sede da Ordem de Cristo, em 1357, sucedendo ao Castelo de Castro Marim.

Teriam os cavaleiros Templários escondido o mítico tesouro no topo das colinas tomarenses ou seria esta uma solução demasiado óbvia para os cobiçosos olhares alheios? O ideal seria esconde-lo num local estratégico que não levantasse suspeitas. Uma fortaleza militar no meio do rio Tejo pode ter surgido aqui como forte hipótese, sobretudo se as infraestruturas incluíssem as salas subterrâneas que muitos defendem ter existido ou ainda existir.

Fernando Freire. Foto: mediotejo.net

Uma conjuntura possível reforçada na conversa com António Luís Roldão, durante a qual nos referiu o levantamento cartográfico realizado pela então Escola Prática de Engenharia, à qual foi atribuída a charneca de Tancos para a criação de um campo militar de exercícios e que recebeu, em 1880, a sede da Escola Regimental Prática de Engenharia. O historiador local mostrou-nos o mapa da altura da doação do Ministério das Obras Públicas.

Foi nos cinco lotes para habitação indicados com “E – Fundações de anexos” que terão morado os comendadores de Almourol, nomeadamente a família Coutinho, dos quais destaca D. Álvaro – neto de D. Vasco Coutinho, primeiro Conde de Borba e do Redondo-, que mandou erigir o Convento do Loureto nas proximidades do castelo. A primeira pedra foi lançada em 1572, mas o templo religioso que hoje conhece avançado estado de ruína apenas resultou à terceira tentativa uma vez que as anteriores não resistiram ao tempo.

Segundo António Luís Roldão, seria igualmente na zona habitacional que se localizavam algumas das salas subterrâneas conforme, sublinha, lhe terá confirmado há alguns anos o filho de um dos cartógrafos que assinaram o mapa resultante das escavações realizadas pelo Exército no interior do castelo.

O pai do militar terá confidenciado, inclusivamente, que uma das divisões teria 11x11m2 e que as salas não foram incluídas na documentação oficial.

Foto antiga do Convento do Loureto, que hoje se encontra em ruínas. Foto: António Luís Roldão

Mais não foi revelado, mas a teoria ganha força quando António Luís Roldão acrescenta que a construção das primeiras galeotas utilizadas nos Descobrimentos Portugueses foi feita num antigo estaleiro localizados na zona do Cafuz, nas margens do rio Zêzere, onde se diz existirem ainda ruínas de um antigo porto.

O difícil acesso não nos permitiu confirmar a informação no local, contudo, esta surge referida no relatório de Ruy Diaz de Vega, espião castelhano ao serviço do rei espanhol Fernando I de Aragão, datado de 23 de abril de 1415.

A descrição dava conta das galeotas construídas por “El Prior et los maestres”, indicando a zona como “en el rryo Sesar [Zêzere], que es cerca de Puñete [antiga designação de Constância]” e acrescentando que “Et ellos estan todos en sus tieras, adereçando pera la partyda, que an todos de partyr com el rrey”. Outra razão possível para a escolha do Cafuz, diz António Luís Roldão, é proximidade das matas reais de Ferreira do Zêzere e de Dornes.

O financiamento para a epopeia portuguesa que deu a conhecer o mundo e marcou os primórdios da globalização implicava somas avultadas numa altura em que estavam frescas as memórias da Grande Peste, que eclodiu em meados do século XIV, e da crise que a Europa viveu nessa altura. No caso português, a situação era agravada pelas guerras luso-castelhanas que terminaram com a vitória da batalha de Aljubarrota, em 1385.

Vista do Castelo de Almourol para Tancos. Foto: mediotejo.net

Um momento decisivo para a independência nacional, conquistada a D. João I de Castela por D. João I, declarado décimo rei de Portugal e primeiro da dinastia de Avis pelas cortes de Coimbra nesse ano. O mesmo rei que se diz ter deixado cunho na nomeação do Infante D. Henrique para Governador da Ordem de Cristo, que contribuiu para os Descobrimentos com financiamento Templário e participou no primeiro momento, ou seja, a conquista de Ceuta em 1415.

Já dizia Fernando Pessoa, num poema do seu heterónimo Alberto Caeiro, que “Pelo Tejo vai-se para o Mundo” e que “Para além do Tejo há a América”. Entre um e outro encontra-se o arquipélago dos Açores e o Infante D. Henrique tinha no seu ciclo privado o cavaleiro Templário Gonçalo Velho, que se tornaria no primeiro capitão donatário das ilhas de Santa Maria e de São Miguel, depois de as ter descoberto em 1427, e que estão associadas a uma das lendas de Almourol.

Nesta altura, o nome do navegador português também surge como comendador de Almourol e Senhor de Pias, no concelho de Ferreira do Zêzere, comprovando a importância do castelo localizado em Vila Nova da Barquinha para a Ordem de Cristo. Terá Gonçalo Velho residido por cima do tesouro templário?

A pergunta volta a remeter-nos para a localização das salas subterrâneas referidas por António Luís Roldão e o mapa que este dizia estar na posse do Regimento de Engenharia n.º 1 (RE1).

Segundo o testemunho ouvido por António Luís Roldão, as salas localizam-se na zona dos lotes para habitação. Foto: mediotejo.net

Recentemente, foi assinado um protocolo entre a Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha e o Exército, possibilitando que algumas peças do espólio da unidade militar localizada no Polígono de Tancos – onde outrora funcionou a antiga Escola Regimental Prática de Engenharia – passem a estar patentes no Centro de Interpretação Templário de Almourol, equipamento inaugurado em novembro de 2018.

Na altura, decidimos ir conhecer por antecipação o espaço que passou a ocupar o primeiro piso do Centro Cultural de Vila Nova da Barquinha, orçamentado em €152.000 euros, €136.000 dos quais financiados pelo Turismo Centro de Portugal. Dele fazem parte uma biblioteca-arquivo e três salas, sendo uma para a exposição permanente, outra para exposições temporárias e na terceira serão exibidos filmes ligados à temática Templária.

Ficámos a conhecer o projeto através de Fernando Freire, que o considera uma aposta valiosa no desenvolvimento do concelho. Não só porque motivará o aumento de visitas, mas também por perpetuar a ligação secular de Vila Nova da Barquinha aos Templários, cujos contornos históricos mostra conhecer pelas investigações que vai fazendo.

O mapa que esteve guardado durante 120 anos. Foto: mediotejo.net

O presidente do município barquinhense é um amante confesso da história local e não escapa ao misticismo que envolve Almourol. À semelhança de António Luís Roldão, fala-nos sobre a importância estratégica do castelo, das capacidades técnicas dos Templários, dos Descobrimento e não só… Também nos revela que entre o espólio cedido para o Centro de Interpretação Templário se encontra o mapa das escavações realizadas em 1898.

Tivemos acesso ao documento com cinco assinaturas entre as quais pode estar a do pai de quem partilhou com António Luís Roldão o testemunho sobre as salas secretas do castelo.

Nele estão indicados os achados na zona habitacional, nomeadamente medalhões, moedas e outros objetos em ferro que serão visitáveis a partir de domingo. Dos espaços subterrâneos, onde Fernando Freire também considera poder estar o tesouro Templário, não existe qualquer registo.

Uma coisa é certa, os factos históricos provam que Almourol teve um papel preponderante na História da Ordem do Templo e, mais tarde, da Ordem de Cristo. Cada um fará a sua interpretação e o mistério está longe de ficar resolvido, mas este mapa pode ser uma prova de que as muralhas da pequena ilhota no rio Tejo não serviram apenas para defender o país que estava à sua volta, mas também para proteger um tesouro no seu interior.

*Notícia publicada em dezembro de 2018, republicada em agosto de 2020

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