Apoie o jornalismo que fazemos,
junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

Segunda-feira, Outubro 18, 2021

Apoie o jornalismo que fazemos, junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

REPORTAGEM/VN Barquinha | Estórias locais da I Guerra Mundial recordadas no palco (c/ fotogaleria)

Associamos a guerra ao momento em que se ouvem os sons dos disparos e dos bombardeamentos. No entanto, esta começa antes e continua depois desse ponto do destino que decide quem regressa a casa para abraçar a família. Memórias e estórias como aquelas que este sábado, dia 27, sobem ao palco da Junta de Freguesia da Praia do Ribatejo durante o espetáculo teatral “História das Estórias de Uma Guerra” e que fomos conhecer num dos ensaios da turma de teatro da FOS.

- Publicidade -

Salão da Junta de Freguesia da Praia do Ribatejo, oito e meia da noite. Na rua impera o silêncio, interrompido de tempos a tempos pelos carros que passam. Quem segue lá dentro deve ir a caminho de casa depois de um dia de trabalho, deserto para chegar ao aconchego do lar numa noite que ameaça ser fresca. Um regresso que, há precisamente um século, outros ansiaram de forma muito mais intensa, desejado lá longe, na Flandres (França), entre os tiros e bombardeamentos da I Guerra Mundial.

Falamos dos que integraram o Corpo Expedicionário Português (CEP) e tinham feito parte do episódio histórico que viria a ficar conhecido como o Milagre de Tancos. Vinte mil homens preparados em três meses na cidade de Paulona, cujos terrenos se situavam na sua terra. Não, não estamos enganados. Segundo Antónia Coelho, diretora artística da turma de teatro da FOS – Formação Ocupacional de Seniores / Universidade de Seniores de Vila Nova da Barquinha há três anos, o Milagre de Tancos deu-se na Praia do Ribatejo, na altura designada Paio de Pele.

- Publicidade -

Um dos momentos do ensaio. Foto: mediotejo.net

A docente de História da Escola D. Maria II, em Vila Nova da Barquinha, realizou uma pesquisa histórica juntamente com Rita Inácio para preparar o espetáculo “História das Estórias de Uma Guerra” que sobe ao palco do salão da Junta de Freguesia da Praia do Ribatejo na noite deste sábado. As duas e a turma de História Local da FOS trouxeram até ao presente os nomes dos 29 homens de Paio de Pele que participaram na I Guerra Mundial e não só. Os deles e os delas, as mulheres que ficaram por cá de coração apertado.

Amores de mãe e de esposa ou namorada mantidos à distância através da palavra escrita. Saudades e anseios partilhados que ultrapassavam as barreiras da guerra através de cartas, como as que são lidas em palco pelos atores que pertencem ao polo da Praia do Ribatejo da FOS e dois jovens atores. Letras que entram em cena nos primeiros minutos do espetáculo, marcado para as 21h27, e às quais se juntam as que formam os nomes dos conterrâneos, projetadas no final depois do Toque do Silêncio.

Pelo meio, surgem personagens conhecidas pelos da terra e outras pelo resto do país, como o General Tamagnini. Quem lhes dá vida são David Rosa e Daniela Branco, de 21 e 19 anos, que contracenam com Rita Inácio, Laurinda Rodrigues, Emília Carvalho, Manuel João Silva, Manuela Santos, Benjamim Reis – o presidente da Junta de Freguesia -, Manuela Aranha, Teresa Paula, José Azeredo, Teresinha Castro e Ana Cristina Pimenta, cujas idades iniciam perto dos 40 e terminam pouco depois dos 70.

Antónia Coelho durante o ensaio. Foto: mediotejo.net

Estórias da guerra. Do antes, do durante e do depois. Momentos em que a emoção se mistura com o humor e a crítica política. Memórias daqueles que partiram e regressaram, todos vivos, a casa e, segundo Antónia Coelho, e não foram justamente recebidos pelos que os mandaram para as trincheiras sem preparação. Factos esquecidos da luta contra os alemães que o espetáculo recorda, sucedendo aos já produzidos sobre o Foral de Pay Pelle e as Revoluções Francesas.

Sempre com foco no contexto local, como nos é confirmado por Manuel João Silva, que começa por nos explicar que a maioria dos elementos do polo da Praia do Ribatejo entraram na turma de teatro da FOS devido ao contacto e “amizade” que tinham com a diretora artística. Muitos já conheciam bem o palco, nomeadamente através da Associação Paio de Pele que, devido à formação da turma de teatro, foi revitalizada com novos corpos sociais no mês passado.

As opiniões vão sendo trocadas pelos elementos do grupo. Foto: mediotejo.net

A salvaguarda da “identidade do território” também é destacada pelo ator que começou a subir ao por homenagem à mãe – que tinha forte ligação a esta arte performativa – e agora integra a associação cultural. Historial mais longo tem Manuela Aranha, que esteve presente no momento da fundação da associação com o jornalista Silvino Nunes, há cerca de duas décadas, e agora assumiu a responsabilidade máxima.

A atual presidente recorda os teatros de revista produzidos no passado e para o futuro perspetiva outras atividades, conjugadas com as realizadas na FOS, salientando que ambas ficam a ganhar por trabalhar em conjunto. Um espírito de comunidade igualmente presente na turma de teatro pois os textos originais têm autoria de Antónia Coelho e acabam por se transformar numa criação coletiva depois de ouvidos todos os elementos.

A peça “História das Estórias de Uma Guerra” é disso exemplo e o ambiente descontraído que encontramos durante o ensaio, no qual Rita Inácio esteve ausente, prova-o. Os “ajustes” vão sendo dados aqui e ali, trocam-se opiniões e partilham-se gargalhadas. Mais do que um grupo de atores, encontramos um grupo de amigos de todas as idades que se juntam devido ao gosto que têm pelo teatro e pela a terra onde nasceram ou moram.

O ambiente é, sobretudo, de um grupo de amigos. Foto: mediotejo.net

No caso da encenadora Antónia Coelho, residente ali ao lado, em Tancos, a relação é feita de afetos e neste espetáculo que junta teatro, poesia, música, História e multimédia volta a estar decidida a fazer “as pessoas sentirem que existe uma memória coletiva”. Este ano, o Centenário da I Guerra Mundial foi o mote escolhido para trabalhar com o polo da Praia do Ribatejo, que integra a FOS juntamente com os polos do Cardal e de Tancos.

Os três polos dão corpo ao projeto da Associação de Voluntários Essência da Partilha, no qual estão envolvidos 165 alunos com uma média de idades situada nos 69 anos e que participam nas diversas atividades realizadas por 43 turmas em 23 disciplinas. A eles juntam-se 26 formadores voluntários e o resto da equipa, na qual se encontra Vânia Moura.

A coordenadora conhece bem o trabalho desenvolvido na globalidade e sobre o grupo de atores da Praia do Ribatejo destaca que a “disciplina de Teatro da Formação Ocupacional de Seniores no polo da Praia do Ribatejo, criada em setembro de 2015, é de extrema importância para os alunos que a frequentam pois permite-lhes desenvolver a criatividade e o raciocínio, ao mesmo tempo que estimula o trabalho em equipa e o convívio”.

O espetáculo junta História, emoção, humor e crítica política. Foto: mediotejo.net

Três anos depois, preparam-se para estrear a peça que começou a ser preparada há um ano e tem diversas fontes de inspiração, como o Diário do General Norton de Matos ou o livro “A Malta das Trincheiras”, de André Brun. No entanto, quem for assistir à peça na Junta de Freguesia da Praia do Ribatejo,este sábado, ou no Centro Cultural de Vila Nova da Barquinha, no dia 11 de novembro, não vai encontrar uma reconstituição histórica.

Antónia Coelho salienta que nos 13 atos interpretados pelos 13 atores é dada “vida” aos dados oficiais, entrando “na pele daquelas pessoas e imaginar o que elas teriam feito”. Aqui surge a essência das estórias. As da guerra e as de quem entra em cena ou se senta na plateia e as sente como suas pois, destaca, que “não vamos falar da guerra, mas da nossa guerra”.

O mesmo acontece na exposição “A Primeira Guerra Mundial… A História por Contar”, atualmente patente no Museu Etnográfico da Praia do Ribatejo, em que não é dado destaque ao soldado desconhecido.

Aqui todos têm nome, nas palavras de Antónia Coelho, durante o espetáculo o palco vai transformar-se num “espaço de memória”, acrescentando que também será um momento “de magia” que “vai permanecer para sempre” uma vez que “alguém que já não está cá sentiu que se lembraram e fizeram aquilo que estava há muito tempo adormecido”.

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

- Publicidade -
- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Faça o seu comentário, por favor!
O seu nome