Sexta-feira, Fevereiro 26, 2021

REPORTAGEM: Vêm aí os melhores vinhos da década na região do Tejo

Terminado o período de uma “longa e dura” vindima, e depois de “lavados os cestos”, o enólogo Nuno Rodrigues, da Quinta do Casal da Coelheira, em Tramagal, antecipa ao mediotejo.net que os vinhos do Tejo de 2015 vão ser, “seguramente, dos melhores dos últimos dez anos”.

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Sabia que na produção de vinho tinto a película das uvas é muito importante? Que é a capa da uva que vai dar cor, aroma e corpo ao vinho? O mediotejo.net calçou as botas e foi à Quinta do Casal da Coelheira, no Tramagal, concelho de Abrantes, ver como são feitas as vindimas e conhecer o processo de fabricação dos vinhos que têm conquistado dezenas de prémios nos concursos internacionais.

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O sol já ia alto quando chegámos aos terrenos das vinhas da Quinta do Casal da Coelheira, no Tramagal. Os trabalhadores, com mais de três horas de trabalho feitas, já tinham enchido uma carrinha de uvas que, daí a pouco, iam partir para o lagar, onde são preparadas para depois serem esmagadas.

A vindima é o culminar de um ano inteiro de trabalho na vinha. Ao contrário de outras regiões do país, e mesmo dentro da região do Tejo, no Casal da Coelheira as vindimas começam sempre mais cedo, em agosto. E este foi dos anos que começou mais cedo, a 16 de agosto.

“Somos dos produtores que começam mais cedo e acho que isso está muito relacionado não só com o clima quente, mas com o tipo de solo que temos. São terrenos muito arenosos, relativamente pobres, onde a vinha e a uva também amadurecem muito facilmente e isso permite-nos ter vinhas mais precoces”, explica Nuno Falcão Rodrigues, enólogo e proprietário da Quinta do Casal da Coelheira.

E como é que se consegue saber que as uvas estão na altura exata da sua apanha?

“Em meados de julho começamos a vir à vinha com maior regularidade e colhemos algumas amostras que levamos para o nosso laboratório e fazemos a determinação dos açúcares e análises a ácidos. Isso permite-nos começar a prever o início das vindimas de uma forma geral e depois, mais tarde, com amostras mais regulares, definir o início da vindima para cada uma das parcelas”.

A vinha da Quinta do Casal da Coelheira tem atualmente 11 castas de uvas. Cada uma destas castas tem as suas características próprias, o que faz com que no processo das vindimas sejam colhidas primeiramente as castas mais sensíveis e cuja maturação se faz mais rapidamente, deixando para o fim as castas mais resistentes.

Vindimas são oportunidade de trabalho sazonal

Durante mais de um mês, cerca de 12 pessoas participaram nas vindimas da quinta centenária do Tramagal. Além de ter uma equipa fixa de cinco trabalhadores ao longo do ano, a época das vindimas na Quinta do Casal da Coelheira representa sempre uma oportunidade de trabalho temporário. Ali, na apanha da uva, estão “pessoas da terra”, com idades entre os 18 e os 60 anos.

O trabalho começa às 7 e meia da manhã e termina às quatro e meia da tarde. Jovens e menos jovens têm o equilíbrio e força necessários para levar os baldes carregados de uvas, desde o sítio onde estão a apanhar até ao caminho de terra fofa e mole onde fica parqueado o trator.

Com o corpo dobrado, ao som da tesoura que vai separando os cachos das videiras, os trabalhadores vão convivendo. Dois a dois, vão enchendo de uvas os baldes pequenos que depois passam para baldes maiores que alguém irá transportar à cabeça ou aos ombros até ao trator que se encontra no caminho, com contentores que vão transportar as uvas até ao lagar, para serem moídas.

Francisco Ruivo, 58 anos, é das Bicas, aldeia que pertence à freguesia de São Miguel do Rio Torto e Rossio ao Sul do Tejo. De há oito anos para cá, não falha nenhuma campanha das vindimas na Quinta do Casal da Coelheira. “O trabalho é duro, mas todos os anos venho, gosto muito”, atira, enquanto continua a colher as uvas.

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Ali perto, na apanha da uva, está também Maria de Lurdes Tiago, de 61 anos. Trabalha há 9 anos na Quinta do Casal da Coelheira. Durante o ano, o seu trabalho é desenvolvido no campo, seja na apanha do milho, da ervilha, do trigo, ou na manutenção das videiras e apanha da uva. Está vestida de branco e usa um chapéu de palha envolvido por um plástico. “É para proteger da chuva”, diz, reconhecendo que o trabalho “é um pouco duro”. Mas “tudo se faz”, afirma, sem lamentos.

O processo dos tintos e dos brancos

Cerca de um quilómetro é a distância entre as vinhas e o lagar da Quinta do Casal da Coelheira. É ali que vai começar o processo que dará origens a vinhos brancos e tintos.

O primeiro tratamento das uvas chama-se desengace, que consiste simplesmente em separar as uvas do cacho, retirando todos os pauzinhos. No caso das uvas brancas, que vão dar origem aos vinhos brancos, depois do desengace, os bagos são esmagados e enviados para a prensa. “Aí, fazemos a separação do líquido dos sólidos e vamos ficar com o sumo da uva (mosto) e com a parte sólida, que são as películas e as grainhas das uvas. No caso dos brancos, o mosto vai ser enviado para depósitos onde depois vai ter uma decantação de cerca de 48 horas a baixa temperatura (cerca de 10 graus)”, explica Nuno Falcão Rodrigues.

Passadas as 48 horas, esse mosto é passado a limpo para um outro depósito, onde vai fazer a fermentação. Este é um processo que também decorre a baixa temperatura e poderá demorar cerca de um mês: “Terminado o mês de fermentação, podemos dizer que já temos o vinho branco feito”, refere Nuno Rodrigues.

No caso dos vinhos tintos, o processo é um pouco diferente e mais longo. Após o desengace e o esmagamento das uvas, estas são enviadas para os lagares, ou cubas de maceração, onde o mosto vai estar entre uma a duas semanas em contacto com as películas das uvas.

“Há uma maceração que vai fazer com que o sumo da uva (mosto) vá extrair da película aqueles compostos que são importantes para nós, porque é na película que está a matéria que vai dar a cor ao vinho tinto. Grande parte dos compostos aromáticos também estão na película e são os responsáveis pelo corpo do vinho. Daí ser muito importante este tempo de maceração”, explica o enólogo.

Durante a maceração, ocorre também a fermentação alcoólica do mosto. No final, é feito o sangramento da cuba, para ser retirado o líquido, que vai para um depósito onde irá decantar e repousar durante mais algum tempo.

São longos os percursos dos vinhos tintos até chegarem ao copo dos consumidores. Por vezes levam anos. E por detrás de um bom vinho, há sempre a sensibilidade e arte de um enólogo.

Para este ano, as expectativas são de se conseguir um vinho excecional. Nuno Falcão Rodrigues considera que este “será um dos melhores anos desta década que estamos a viver”.

Qualidade dos vinhos da região do Tejo

Nos últimos anos, a evolução da qualidade dos vinhos da região do Tejo foi notória. Segundo Nuno Falcão Rodrigues, esta evolução deveu-se ao trabalho que os produtores fizeram.

“Há 30 ou 40 anos, grande parte das vinhas estavam em terrenos mais férteis, mais produtivos, em que a qualidade não era importante, era mais importante encher a adega. A revolução que os produtores fizeram na região está agora a dar os seus frutos, com vinhas que vão para terrenos mais pobres, e também com a introdução de novas castas, algumas delas estrangeiras, mas essencialmente nacionais, que foram trazidas de outras regiões e que se adaptaram muito bem à região do Tejo”.

Para o enólogo, foram estes dois fatores que permitiram ter uvas de melhor qualidade, aliados à modernização que se registou nas adegas, e que levam a que, hoje, a região tenha as condições para estar “ao nível do que melhor se faz no país e no mundo”.

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Os vinhos da Quinta do Casal da Coelheira já ganharam várias medalhas de ouro e prata em concursos internacionais, mas o destaque vai para o vinho rosé que em 2010, em Bruxelas, foi considerado o melhor vinho do mundo.

Estados Unidos, Canadá, Brasil, Equador, Angola, Bélgica, Polónia, Rússia e China são alguns dos 18 países onde os vinhos da Coelheira já marcam presença.

A vinha de Nuno Rodrigues, em Tramagal, terá agora o seu período de merecido descanso, mas a ela voltará já em novembro, para começar a trabalhar para a colheita de 2016.

“Este é um trabalho de equipa que não se reduz ao mês e meio da vindima, mas que se estende pelos doze meses do ano”, brindou o enólogo, mestre na arte de produzir os néctares da Coelheira.

Entrou no mundo do jornalismo há cerca de 13 anos pelo gosto de informar o público sobre o que acontece e dar a conhecer histórias e projetos interessantes. Acredita numa sociedade informada e com valores. Tem 35 anos, já plantou uma árvore e tem três filhos. Só lhe falta escrever um livro.

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