Reportagem | Uma viagem pela capelinha da Cova da Iria, 100 anos depois da sua edificação (c/vídeo)

A capelinha das aparições do Santuário de Fátima, edificada no lugar onde outrora existiu a azinheira onde os pastorinhos diziam ter visto a Virgem, era visitável até aos anos 80 do século passado. Pelo exíguo espaço de culto passaram peregrinos de todo o mundo, deixando mensagens por súplicas atendidas. Um século depois da sua construção, resistindo a uma dinamitação em 1922, a estrutura encontra-se hoje fechada ao público, no patamar elevado onde se encontra o altar e a imagem original de Nossa Senhora do Rosário de Fátima. Tornou-se ela própria, na linguagem da tradição católica, uma “relíquia”. Desde 1 de dezembro e até outubro de 2019, uma exposição nas galerias inferiores da Basílica da Santíssima Trindade dá a conhecer a história desta estrutura de edificação popular.

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“Quero dizer-te que façam aqui uma capela em minha honra, que sou a Senhora do Rosário.” Estas terão sido as palavras de Nossa Senhora aos três pastorinhos de Fátima, na aparição de 13 de outubro, como referem as Memórias da Irmã Lúcia. Mas a história desta capelinha terá de citar um outro nome, o de Maria dos Santos Carreira (1872-1949), uma mulher do povo que acorreu à Cova da Iria logo no início das aparições.

Inicialmente, limpou o mato e enfeitou a azinheira com fitas. Posteriormente construiu com o marido o arco que ali estava no 13 de outubro, aquando o milagre do sol, acabando por se tornar depositária das esmolas que os peregrinos deixavam e que foram canalizadas para a construção da ermida em 1919, da qual foi zeladora.

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A primeira capelinha das Aparições, em 1922. Foto: DR
Capelinha das Aparições em Fátima. Foto: mediotejo.net

A 6 de março de 1922 a capelinha das aparições foi dinamitada por desconhecidos. O telhado ficou destruído mas a imagem salvou-se, uma vez que havia sido retirada para salvaguarda durante a noite por Maria dos Santos Carreira. A pequena estrutura seria reconstruída ainda nesse ano.

A capelinha ficou parcialmente destruída em 1922, quando foi dinamitada por desconhecidos. Foto: DR

Ao longo de 60 anos a capelinha manteve-se igual, com placas em pedra com mensagens à Virgem a serem colocadas nas suas paredes exteriores, mas foi sendo protegida por sucessivos alpendres. À sua volta a paisagem foi mudando gradualmente, com o terreno pedregoso a ser nivelado e grandes portões que fechavam o recinto a serem edificados e depois demolidos, obtendo por fim a imagem ampla e aberta, alcatroada, que existe hoje. A última grande intervenção que se deu no espaço ocorreu no início dos anos 80, com a capelinha a ser fechada aos olhos do público, e a imagem de Nossa Senhora a ser colocada no exterior e envidraçada, com um vasto alpendre a protegê-la.

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“Até aos anos 50 houve projetos para a reconstrução da capela”, narrou ao mediotejo.net o diretor do Museu do Santuário de Fátima, Marco Daniel Duarte, alguns dos quais estão expostos nesta mostra, designada Capela Múndi. “Mas [a construção rústica] foi entendida como símbolo maior e a rudeza do edifício como um desejo vindo do Céu”, explicou.

Esta é assim uma capelinha que resistiu à tentação da erudição artística e manteve os seus traços populares, acabando por ser encarada ela própria como uma “relíquia”, ou seja, parte integrante da santidade do próprio local.

A capelinha é tão pequena que as cerimónias foram sempre feitas no seu exterior Foto: Arquivo Santuário de Fátima
O Santuário de Fátima recebeu centenas de placas de pedra com mensagens, algumas das quais chegaram a estar afixadas nas paredes da capelinha Foto: mediotejo.net

É esta a razão, explicou ao mediotejo.net Marco Daniel Duarte, pela qual a capelinha original está fechada e foi construída uma cópia na exposição, para que a população tenha noção da sua pequenez. “A capelinha das aparições fica mais distanciada dos peregrinos, mas surge mais valorizada” no seu aspeto simbólico, de pedido que veio de Nossa Senhora, podendo ser observada de todos os lados.

Afinal foi em redor da ermida que se construiu o culto, além do próprio Santuário, e é nela “que se mostram os gestos mais significativos, desde a oração do terço a momentos de intimidade”. Disso dão conta as centenas de placas de pedra de agradecimento e oração que o Santuário recebeu ao longo das décadas, algumas das quais chegaram a estar afixadas na capelinha.

“Temos cerca de 400 placas na nossa reserva”, adiantou o diretor, e um grande arquivo de mensagens privadas sobre o qual se têm debruçado vários investigadores. “São mensagens de agradecimento e de súplica”, referiu o responsável, que quando são cedidas para estudo científico muitas vezes vão sem identificação do autor. A guerra colonial foi uma temática recorrente, referiu.

junto ao quadro de Josefa de óbidos estão as primeiras lages onde os peregrinos fizeram as promessas de joelhos Foto: mediotejo.net

A história da capelinha das aparições é assim narrada ao longo de nove núcleos, que focam não só a sua edificação e memória (estão presentes as primeiras lages da “passadeira dos penitentes”, onde os peregrinos ainda hoje fazem as promessas de joelhos), como as manifestações de fé e a temática mariana. Um dos episódios expostos é o do naufrágio dos pescadores de Caxinas em 2011, em que os homens rezaram a Nossa Senhora de Fátima para se salvarem, encontrando-se o terço oferecido em exposição.

Na exposição pode ser visto o velho andor, retirado recentemente para restauro Foto: mediotejo.net

A mostra é ainda composta, por forma a dinamizar a narrativa, de obras de arte sacra provenientes de todo o país, de elevado valor artístico e patrimonial. Um dos destaques vai para a presença do quadro de Josefa de Óbidos, “Cordeiro Pascal”. O antigo andor de Nossa Senhora, retirado para reabilitação, também se encontra exposto, assim como esculturas dos Santos Jacinta e Francisco Marto.

A exposição inaugurada neste mês de dezembro, antecipando o centenário da capelinha que se celebrará ao longo de 2019, encontra-se patente até 15 de outubro do próximo ano, havendo a possibilidade de marcar visitas guiadas.

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