Reportagem | Um ano depois dos incêndios de 15 de outubro, nada foi recuperado em Vale do Laço, na Sertã

O local onde morreu Libânio Cardoso, há um ano e agora. Foto: mediotejo.net

Voltámos ao pequeno lugar de Vale do Laço, Troviscal, na Sertã, onde há um ano os grandes incêndios de 15 de outubro causaram uma vítima mortal. Estão bem vivas as horas de aflição entre os populares mas, apesar de não ter havido qualquer obra na aldeia, os vestígios do fogo começam a ser camuflados pela natureza. A normalidade voltou a estas terras, onde não residem mais de 20 habitantes. Mas as memórias, essas, não se apagam.

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Procuramos saber o que é feito de Américo Cardoso, um septuagenário que perdeu o irmão quando o fogo lhes cercou a casa, naquele domingo, 15 de outubro, de má memória. Quando por ali andámos, há um ano, tivemos que fechar os olhos aos cabos pendurados no meio da estrada, ao fumo intenso que causava ardor nos olhos e rezar para não sermos nós a notícia. Libânio Cardoso, de 70 anos, acabou por não conseguir fugir ao infortúnio, ao contrário do irmão, que saíra de casa para pedir ajuda. Da propriedade onde tudo aconteceu, no alto da localidade e a poucos metros da capela de Vale do Laço, só restam escombros. Temos que pedir ajuda para lá chegar, pois o local ficou irreconhecível.

Margarida Silva, habitante de Vale do Laço, recorda os momentos de aflição de outubro de 2017 Foto: mediotejo.net

Um ano depois, Américo vive na mesma aldeia, mas na casa de um primo. Os outros familiares mais próximos vivem em Lisboa.

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No ano passado, quando as chamas cercaram aquela habitação de primeiro andar, uma ambulância dos bombeiros deslocou-se até ao local e pediu aos irmãos que saíssem mas, pensando na defesa da casa, não acataram o conselho. Ficaram para defender a sua propriedade e o pior aconteceu. O corpo de Libânio nunca viria a ser encontrado. Apenas a fivela de um cinto, que nem sequer sabem se é sua pertença. Por isso, a família nem conseguiu fazer um funeral. Só Américo mandou rezar uma missa por sua alma.

os incêndios de 15 de outubro de 2017 provocaram a morte de 50 pessoas e fizeram 70 feridos. ARDERAM mais de 220 mil hectares de território, 1 500 casas e 500 empresas

“Segundo contam, estavam os dois a proteger a casa do lado de fora, quando o fogo entrou na habitação… e eles quiseram apagar. O soalho da casa estava pobre e o Libânio terá ficado lá preso, porque enfiou uma perna num buraco. O irmão ainda tentou tirá-lo de lá mas sentiu o lume na cabeça e fugiu para a rua, para pedir ajuda”, conta Margarida Silva, uma vizinha.

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O incêndio chegou à localidade de Vale do Laço, freguesia de Troviscal, Sertã, e causou uma vítima mortal. Na mesma localidade registaram-se ainda três feridos. Foto: Luís Pirão

Margarida apercebeu-se da tragédia quando ouviu a botija do gás a explodir. Também estava a tentar salvar a sua casa, com o marido Manuel, antes de os sobrinhos os terem mandado sair. Foi a muito custo que deixaram a habitação mas, naquela hora, a vida sobrepunha-se aos bens materiais. “O que nos valeu foi termos os terrenos limpos ao redor da casa. O fogo andou por aqui mas não queimou nada”, explica Manuel Silva.

“Isto foi uma coisa que nos aconteceu e que… por mais anos que passem, nunca se esquece”, atalha Margarida. As pessoas voltaram à sua vida normal mas as memórias, essas, ficam crivadas na alma.

Os habitantes ficaram convencidos de que a casa dos irmãos iria ser reconstruída. “De vez em quando ouvimos passar uma máquina e pensamos que é para a reconstrução da casa do Américo… mas até hoje nada.”

A paisagem vai-se renovando naturalmente nos montes do Troviscal. Foto: mediotejo.net

De facto, o Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa visitou as áreas afetadas pelo incêndio poucos dias depois, a 21 de outubro, e parou em Vale do Laço, onde o esperavam familiares da vítima mortal e alguns moradores. Dada a dificuldade de acesso ao local onde se registou o caso fatídico, a comitiva presidencial estacionou as viaturas a cerca de 300 metros e percorreu o caminho a pé, por entre a zona ardida. Marcelo Rebelo de Sousa deixou palavras de incentivo para a necessária reconstrução e prometeu não esquecer a tragédia. Mas, até hoje, tudo permanece em escombros.

Presidente da República conforta irmão da vítima e cunhada (Foto: mediotejo.net)

Domingos Xavier Viegas, professor catedrático do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra e coordenador do Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais (CEIF), sustenta que “ainda há muito a fazer no que toca à prevenção de incêndios e proteção das pessoas”.

Durante a sua investigação no terreno apercebeu-se que muitas pessoas perderam a vida “porque a sociedade as ignorou, as pôs de parte”. O investigador considera que, numa situação de incêndio, temos que “estar atentos” e “não depende só da vontade do Estado, mas também da capacidade das pessoas terem essa sensibilidade, de olhar para quem está ao seu lado e ajudar, garantindo a sua proteção”.

O tempo parece ter parado no Vale do Laço, na Sertã. Foto: mediotejo.net

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