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Segunda-feira, Setembro 27, 2021

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Reportagem | São João do Peso, a terra de ‘poucos mas bons’ e onde há sempre lugar para mais um

São João do Peso, concelho de Vila de Rei, é uma freguesia peculiar, desde logo por ostentar a medalha de freguesia com menor número de eleitores em Portugal continental, que obriga a instituir um plenário de cidadãos eleitores por ter menos de 150 pessoas recenseadas. Isto, por si só, já é indicador de que algo não está bem: uma freguesia no interior, envelhecida, em despovoamento crescente nas últimas décadas, e que perdeu mais de metade dos eleitores. Também os Censos de 2021 vieram evidenciar mais uma marca; esta é a freguesia, na região do Médio Tejo, que mais perdeu população desde 2011, correspondendo a uma perda de 35,3%, ou seja, o equivalente a menos 72 habitantes. O mediotejo.net regressou a São João do Peso para perceber a realidade local e a dinâmica desta terra, que apesar de pequena e com poucos moradores, mantém a boa disposição e o espírito de entreajuda e comunidade, pratica a arte de bem receber e, por estes dias quentes de verão, tem conquistado novos conterrâneos.

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Daria uma boa crónica as vezes que o nosso jornal ali se deslocou seja no inverno, em confinamento durante a pandemia, no verão quente de eleições autárquicas de 2017 ou a apurar os prejuízos dos fogos florestais que varreram por completo a envolvente florestal desta zona, na confluência dos concelhos de Sertã, Vila de Rei e Mação, concelhos que em 2017 e 2019 ficaram manchados de negrume.

Encontramos estados de alma diversos por ali, que parecem variar conforme as estações do ano. A verdade é que a sazonalidade marca a freguesia profundamente, não tivesse na sua maioria casas de férias (diz-nos a presidente de junta que há 15 piscinas e que há dias em que as piscinas são mais que as pessoas que ali vivem a tempo inteiro), sendo que se contam 60 casas habitadas em toda a freguesia, que tem perto de 13 km quadrados de área.

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É quase paradoxal puxar da memória a última viagem a São João do Peso, em pleno inverno, durante um dos confinamentos obrigatórios, no final de janeiro. A verdade é que não se via vivalma na sede de freguesia e nas aldeias limítrofes, sendo que durante a nossa presença, em cerca de cinco horas, passaram dois carros no largo. Da última vez que estacionámos o carro, o termómetro marcava 4 graus… e agora 32. Se antes não se avistava gente por se refugiar do frio, agora tivemos de esperar que o calor amainasse, à tardinha, para poder conversar com as gentes da terra.

Freixo frondoso, imponente e de copa alta, com mais de 150 anos, junto à Igreja de São João do Peso. É considerada árvore de interesse público. Foto: mediotejo.net

Por estes dias estaríamos em São João do Peso no rescaldo da festa anual em honra do padroeiro, São João Baptista. Festa que costuma realizar-se no terceiro fim de semana do mês de agosto, e que traz muita gente, filhos da terra, familiares que estão fora, emigrantes, amigos e oriundos das aldeias e concelhos limítrofes. Mas não. O largo da festa está só, coberto de folhas que o vento espalha pelo chão. Os bancos estão vazios. A sombra serve carros de residentes daquela rua.

O sino, nesta tarde, toca uma balada, a melodia instrumental de um dos cânticos cristãos que costumam entoar na eucaristia. São 16h00.

Passear pela aldeia é encontrar grandes casas, de estilo senhorial, na sua maioria recuperadas. Ruas, largos, ruelas e travessas onde só se consegue passar a pé. Fontes de mergulho, muita azulejaria estampada em fachadas de edifícios e sempre a representar a fé e religiosidade com o orago São João Baptista, mas também com São José, Nossa Senhora de Fátima e o Sagrado Coração de Jesus. Mas é São João quem ganha, contando-se mais de uma dezena na envolvente de uma só rua. A Rua de… São João.

As casas, quase todas de primeiro piso, altas e espaçosas, têm barras de cor a destacar na brancura das paredes. Nas janelas muitas flores, a condizer com as que estão no espaço público, cuidadas pela junta de freguesia para dar outro ar e alegria. Parece estarmos numa réplica de um bairro à portuguesa, com semelhanças de Alfama ou Mouraria.

O parque infantil com dois baloiços e um brinquedo de mola está impecavelmente mantido, e ali está à disposição dos netos que vêm até a casa dos avós nas férias grandes ou das crianças que por ali passam sazonalmente ou em viagem. Não encontramos jovens nesta tarde, mas duas bicicletas encostadas junto à entrada de casa evidenciam a sua presença. Temos, por isso, a certeza de que pelo menos dois netos vieram até à terra dos avós este verão.

Ali, ao pé do imponente freixo centenário encostado à Igreja, num sítio onde a sombra se torna aprazível e é salvação com o ar que corre para tentar refrescar do calor que se faz sentir, encontramos Rosário Cavalheiro, presidente de Junta. Termina agora em setembro, por força da lei, o seu tempo na gestão da freguesia, uma vez que completa os 12 anos, isto é, os três mandatos de quatro anos, permitidos.

Admite que, se não fosse a imposição legal, seria “natural” que continuasse nestas funções. Tem na agenda o contacto de toda a gente, e já lhes conhece as rotinas. Sabe ao que vai e onde e quando procurar alguém, tal como a população sabe como a encontrar.

Está de férias do emprego, mas sempre ao serviço. “Está a ver? Fui a Lisboa e tenho de regressar para um funeral… Nas últimas semanas já morreram duas pessoas”, atesta.

Nisto, sente-se outra presença. Rosário cumprimenta uma das residentes que veio rapidamente com o seu companheiro de quatro patas à rua. O calor ainda aperta.

Rosário Cavalheiro, presidente da Junta de São João do Peso. Foto: mediotejo.net

Tem duas filhas. Uma reside em Lisboa (e é lá que já tem um neto), a outra mantém-se nas suas raízes.

Rita Cavalheiro, filha de Rosário, tem 30 anos. Em 2017 foi eleita presidente da mesa do plenário. É a única da sua geração a permanecer na terra, onde já comprou casa para se fixar. Já foi indicada como sendo quem seguirá as pisadas da mãe, tendo-se assumido como candidata à junta de freguesia pelo PSD. Agora é esperar pela decisão em plenário, uma vez que qualquer cidadão recenseado pode apresentar, até ao dia do plenário, uma lista a votação.

Rita alerta que só no dia das eleições se poderá saber, até lá, é uma incógnita. “Não é preciso publicitar antes do plenário quem são os candidatos. Se eu quisesse, poderia apresentar-me e à minha lista só naquele dia. O partido é que entendeu avançar já com o meu nome”, contextualiza.

Estudou na escola primária de São João do Peso onde fez o 1º ano. Escola que fechou portas em 1999/2000. Do 2º ao 9º ano estudou em Vila de Rei, e fez o ensino secundário na Sertã.

Acompanhou desde início a construção e arranque da atividade do Centro de Acolhimento, nas Sesmarias, corria o ano 2005. Centro que não reuniu consenso entre os habitantes dali, porque entendem que estando fora da sede de freguesia, está desviado da vida local.

Até 2014 ali fez voluntariado, passando os dias com as pessoas idosas e com as funcionárias, muitas hoje já estão reformadas e outras foram despedidas num momento menos bom da instituição.

Entra ao serviço enquanto auxiliar de serviços gerais, e foi aquela instituição a sua escola e formação, dedicando-se a cuidar dos outros, a maioria pessoas idosas que vêm de outros pontos do país. Situação que se verifica atualmente, pois entre 38 utentes pouco mais de cinco são de São João do Peso.

Rita Cavalheiro, 30 anos, é das poucas jovens a residir em São João do Peso, mantendo-se fiel às suas raízes. É candidata à junta de freguesia nas próximas eleições autárquicas, seguindo as pisadas da mãe, que terá de deixar o cargo após três mandatos e passar o testemunho. Foto: mediotejo.net

“Com o aumento da esperança média de vida, as pessoas estão mais tempo em suas casas, são autónomas até mais tarde. Outras ainda são apoiadas pela família. Caso da minha sogra, que reside comigo e tem 95 anos”, explica Rosário Cavalheiro, notando que há muita população a rondar os 80 e os 95 anos.

Já Rita passou de Auxiliar de ação direta a Encarregada Geral, cargo que ocupa desde setembro de 2020, mas que devido à pandemia de covid-19, tem exigido que esteja a organizar as duas equipas com a diretora do centro, tratando ainda da parte do economato.

É também presidente da mesa de Assembleia da Casa do Benfica de Vila de Rei, cuja direção é composta unicamente por mulheres.

Vive muito voltada para o Centro de Acolhimento, e é em Cardigos, terra da mãe, que passa muito tempo, onde tem família e amigos. Lá há mais juventude. Há serviços, comércio. “É diferente”, comenta.

“Eu vou daqui todos os dias a Cardigos para comprar o jornal para o meu marido”, diz Rosário, admitindo que devido à proximidade, é naquela freguesia do concelho de Mação que muita gente da freguesia se desenrasca, a par de Sertã.

São João do Peso não tem comércio além dos dois cafés, o São João e o Cantinho. A presidente de junta vai tendo algumas coisas de mercearia para urgências disponível na antiga Casa do Povo, que está aberta à segunda-feira, das 10h00 ao 12h00, sendo que nos restantes dias quem precisar só precisa contactar.

Durante a semana vão passando alguns padeiros, da Portela, de Cardigos, das Fontes. Já o peixeiro passa às sextas-feiras.

Foto: mediotejo.net

Ali, apesar de tudo, Rosário Cavalheiro entende que uma mercearia não iria sobreviver. “As pessoas vão à Sertã, onde há grandes superfícies, e abastecem-se. Só quem não tem possibilidade de transporte ou carro próprio é que usa a mercearia para emergência. Quem abrisse um negócio desses ia acabar a ter mais prejuízo do que lucro”, afirma, referindo que as pessoas estão habituadas a ter stock do que precisam, e quem venha de férias já sabe que tem de fazer as compras para se manter ali.

Mesmo com os constrangimentos todos que já conhece pela experiência da progenitora, Rita entende que chegou a altura de dar continuidade ao trabalho que a mãe tem desenvolvido nos últimos anos, mantendo proximidade e apoio às pessoas e tentar cumprir com o que ainda não foi feito. Pelo caminho, continuar a conseguir angariar mais residentes e recenseados. Trazer esperança no futuro para a sua terra.

Sublinha que o lar, o Centro de Acolhimento, é importante para manter alguma dinâmica. Já para não falar que, no seu caso em específico, se não existisse esta IPSS, Rita já não estaria na terra natal, porque teria de procurar oportunidade de emprego noutro lugar.

Em jeito de balanço, Rosário diz que deixa um legado complicado à filha, que caso seja eleita, terá pela frente muitos desafios, mas que poderá contar consigo para entrar no ritmo. Reconhece ser difícil fazer obra com um orçamento de cerca de 20 mil euros por ano, com um funcionário a tempo inteiro.

“Serve para fazer manutenção, limpeza. Para podermos fazer obra na casa ao lado da junta, amealhámos durante um tempo e não fizemos outras coisas para a terminar”, casa que foi doada e que a junta transformou em salão multiusos.

Acontece que a atual presidente de junta não poupa críticas ao desinvestimento na freguesia por parte da autarquia de Vila de Rei, que “fez tudo em todo o lado” mas que esquece frequentemente São João do Peso.

Reconhece que seja a freguesia com menos população, com menos eleitores, e não põe de parte a ideia de que isso seja razão para essa falta.

Foto: mediotejo.net

“A competência da Câmara é fazer as obras maiores. Não temos capacidade orçamental para fazer muito mais. Podemos é depois ajudar a manter”, alerta Rosário Cavalheiro.

Diz que as obras com maior substância que ficam no seu histórico foram a ampliação do cemitério com mais de 40 sepulturas e a construção de valetas, e que aqui teve de ser a junta a intervir e desenvolver. Só no cemitério foram menos 9 mil euros do bolso da junta.

Chegou a pedir remodelação da iluminação pública na zona do largo e junto ao parque, mas foi considerado “inexequível” por falta de verba.

Mas muito mais ficou por fazer, e Rita confirma que incluiu estas e outras propostas no seu programa eleitoral. Não tem medo de reivindicar mais e melhor para a freguesia.

“O meu programa vai ao encontro da nossa população, que é envelhecida”, diz, mas também pretende a valorização e potencialização do património local.

Defende a requalificação da praia fluvial do Pego das Cancelas, porque é a praia que tem tido menos investimento no concelho.

Pretende ainda promover a descentralização das atividades do Centro de Acolhimento, promovendo passeios pedestres numa rota que poderá ser desenvolvida no futuro, bem como outras atividades lúdicas e de lazer que abarquem pessoas do concelho, de fora ou dos arredores.

Entende que deveria existir transporte ou um polo descentralizado da Universidade Sénior, para que as pessoas da freguesia possam participar mais ativamente neste projeto.

A casa onde nasceu José Cardoso Pires. Foto: mediotejo.net

Outro lamento é não se aproveitar o conterrâneo José Cardoso Pires, escritor, romancista, dramaturgo, jornalista, cronista e ensaísta, considerado um dos grandes vultos da ficção portuguesa da segunda metade do século XX, para dinamizar uma casa-memória ou algo além de uma pequena rota criada pela Universidade Sénior, alusiva a esta figura da cultura portuguesa.

Uma outra proposta passa por dinamizar um alojamento local numa moradia que é propriedade da junta de freguesia, que já foi extensão de saúde, e inicialmente era para ser um centro de dia.

A moradia que chegou a ser uma extensão de saúde, e que teve nos planos ser um centro de dia. Uma das ideias da junta de freguesia era tentar dar uso ao edifício enquanto alojamento local. Foto: mediotejo.net

Fica ainda a faltar o parque de caravanismo, para dar outro ênfase à localidade e permitir apoio aos visitantes que é costume frequentarem o Pego das Cancelas e até lá acampam.

“Isto é uma estância turística”, diz Rosário Cavalheiro, presidente da junta, em jeito de brincadeira, mas dando a entender que existe potencial nesta freguesia que se coaduna com a estratégia municipal de turismo do concelho e da região.

Por fim, a pergunta difícil. Se a população continuar a diminuir, ou se eventualmente surgir essa indicação… Poderá chegar um dia a fusão da freguesia com a freguesia de Fundada?

Já foi intenção em tempos, mas a população de São João do Peso não aceitou. Rosário diz que não é impossível, bastando alguém lembrar-se de o propor.

Vizinhança nova vai chegando de “armas e bagagens” para junto de quem resiste, quem por ali passa férias e quem ousa investir

São João do Peso chegou a ter 603 habitantes, registados em 1930. Foi desde esse ano, que detém o recorde de população residente, que se iniciou a perda progressiva. Nos últimos 20 anos, oscila entre os 200 e os 130 habitantes.

1930

1940

1950

1960

1970

1981

1991

2001

2011

2021

603

592

546

415

343

294

220

174

204

132

+2.6%

−1.8%

-7.8%

−24.0%

−17.3%

−14.3%

-25.2%

−20.9%

+17.2%

−35.3%

 

Recuando há 100 anos atrás… Como imaginar uma freguesia que hoje conta com 132 habitantes, mas que antes chegou a rondar entre os 500 e os 600?

Em São João do Peso ainda há quem consiga contar minimamente a história, e foi por isso que, no Centro de Acolhimento, conhecemos a Dona São. Uma jovial idosa com 103 anos, feitos a 25 de abril. Mulher de liberdade e garra, nascida no tempo de grandes guerras e batalhas.

Encarnação Dias Lopes, a centenária que é a habitante mais velha da freguesia. Foto: mediotejo.net

Encarnação Dias Lopes (Dona São), viúva, viveu sozinha na Portela dos Colos até 2020, quando depois de já estar sinalizada e a ser acompanhada, foram buscá-la para o lar porque precisava de auxílio com a medicação, higiene e alimentação.

Recorda com saudade os sete anos que passou em serviço num hospital em Lisboa, na sua mocidade. “Ajudava na sala de operações, com os enfermeiros e médicos”, lembra, emocionada, referindo que era muito bem tratada lá.

Quando veio de Lisboa, casou. A vida trouxe-a de volta a São João do Peso. E daí dedicou-se sempre “à fazenda”, semeando e plantando para depois colher para si e principalmente para vender. “Eram alturas em que se passava muitas necessidades… Antes havia muita gente, e muitas crianças. Mas passavam muitas necessidades. Hoje já não é assim, felizmente”, admite a centenária.

Tem um enteado, o Zé, que a vem visitar com frequência, tem sobrinhos e sobrinhas, e uma nora e duas netas da parte do filho, que faleceu, e que residem na Escócia.

Ao longo da entrevista, mantém a lucidez, mas tem já alguns problemas de audição que dificultam manter grandes conversas. A verdade é que o cansaço e a disposição também já só pedem sossego e paz.

“Já não presto para nada, mas quando era mais nova… Ai, se eu me apanhasse com a vossa idade…!”, diz, rindo para as suas “netas emprestadas”, as auxiliares do Centro de Acolhimento, onde, apesar de tudo, gosta de estar.

“Sempre é melhor estarmos na nossa casinha… Aqui não é nada meu”, lamenta, mostrando-se desgostosa por já ter perdido alguma da autonomia que tinha.

Dona São com as auxiliares do Centro de Acolhimento. Foto: mediotejo.net

Aos 103 anos não espera muito mais da vida, mas sabe ser grata pelo que tem de bom. “Sou muito pobrezinha, mas tenho muita gente. E muitos amigos. Há gente boa”, termina, despedindo-se ao mesmo tempo que pergunta quando voltamos. Lá tiramos a fotografia, mas a Dona São, meio envergonhada, diz-nos que “as velhas não aparecem no jornal, só as novas”.

Ficou a promessa de uma visita, talvez na altura das eleições, e se chegar aos 104 anos, participaremos na festa. Agora o combinado é mostrarem, naqueles objetos que são os telemóveis, a fotografia da mais velha resistente da freguesia.

Depois da visita ao lar, voltamos à sede de freguesia. Depois de falarmos com a mais antiga habitante, hora de conhecer os novos conterrâneos.

Acompanhados de Rosário Cavalheiro, no 16 A, conhecemos os novos vizinhos da frente da junta de freguesia. Uma família com dois jovens, mudaram-se de Abrantes para São João do Peso, depois de passarem algum tempo numa casa alugada no Milreu até concluírem a compra da nova moradia.

Foto: mediotejo.net

Pedro Pereira, 52 anos, natural de Lisboa, é professor de Línguas (Português e Inglês) no Agrupamento de Escolas da Sertã. Em 2016 mudou-se com a família para Abrantes, depois de muitos anos na Lourinhã, tendo dado aulas em Atouguia da Baleia. Ficou efetivo na escola da Sertã em 2017.

A esposa Lúcia, de 54 anos, cuida dos filhos, e exerce a tempo inteiro o cuidar da casa. Foi Lúcia quem pesquisou e contactou imobiliárias no sentido de encontrar a moradia com espaço exterior que há muito ansiavam. Natural de África do Sul, aos 17 anos mudou-se para Massamá, acabando por conhecer o marido e depois casar-se.

Marta, hoje com 24 anos, já tirou licenciatura e mestrado em Ciência Política e Relações Internacionais, na Universidade Nova de Lisboa, estando agora a pensar inscrever-se no doutoramento em Relações Internacionais, especializando-se no Médio Oriente.

Vê com bons olhos esta mudança, pois esta casa será o seu “refúgio”, permitindo-lhe a paz e tranquilidade para poder desenvolver a sua tese e os seus estudos, além de proporcionar-lhe espaço adequado para a sua horta biológica de onde já se extraem tomates e abóboras, mas onde quer implementar o seu jardim, onde não poderão faltar rosas e lírios.

Foto: mediotejo.net

O irmão mais novo, João, tem 20 anos. Fez o 9º ano em Abrantes, mas o ensino secundário concluiu no Entroncamento, na Escola Gustave Eiffel, onde fez o curso profissional de Cozinha e Pastelaria. O futuro, já decidiu, passará por especializar-se no que mais gosta: padaria e pastelaria. Quem sabe nascerá uma padaria em São João do Peso? Quem sabe. Dos dois irmãos, João é mais dado às novas tecnologias.

Os jovens garantem ter ali as condições necessárias para manterem as suas amizades e a sua vivência, porque foram até surpreendidos com a velocidade e qualidade da ligação à internet. “Para mim é uma grande felicidade… e também para o meu irmão!”, diz Marta, brincando com João, e acrescentando que a qualidade da internet chega a ser melhor do que a que tinham em Abrantes, onde reportaram diversos problemas e nunca tinham grande solução, porque outros vizinhos do prédio se queixavam do mesmo com outras operadoras.

Já os pais garantem que São João do Peso foi a escolha ideal. Dos 100 km diários que Pedro fazia entre Abrantes e Sertã passou a fazer 30. “Gosto imenso desta zona, gosto particularmente de Vila de Rei, e foi isso que nos levou a procurar uma casa no concelho. Fico muito mais perto da escola. Era um desgaste muito grande para mim, e financeiramente era um dispêndio porque as revisões do carro se faziam mais próximas, além do gasto em combustível”, admite. Por outro lado, ganham “saúde e qualidade de vida”.

“Vila de Rei oferece-nos qualidade de vida, porque permite-nos ter um ambiente mais calmo que Abrantes. Os serviços são muito mais próximos e o atendimento é mais personalizado, somos tratados de forma muito mais aprazível porque o serviço é direcionado para nós”, acrescenta, notando que não precisa estar em filas para tratar de diversas questões, sendo tudo mais célere.

Reconhecem ainda que as pessoas são mais afáveis e disponíveis, e diz ter ficado com a impressão de que a aldeia está muito bem organizada. “A primeira sensação que tive, quando visitámos a primeira vez, é que era um presépiozinho de Natal. As ruas e as casas todas muito organizadas. E algo que me atraiu muito foi verificar que não havia muitas casas degradadas”, diz.

Foto: mediotejo.net

Quanto ao facto de terem de procurar sedes de concelho para ter comércio e grandes superfícies, a família encara isso como “um passeio”. E como Pedro trabalha na Sertã, já tem essa disponibilidade para se aviar do que precisa para o lar, nos mais diversos setores.

Por outro lado, a família Pereira é fã de comércio local e tradicional, e por isso encontrou na vila da Sertã produtores e lojas dentro do seu gosto.

Também as encomendas por transportadora são uma opção, tendo já recebido “sem problemas” e sentindo que foram “muito bem servidos”.

“Ajudamo-nos, inclusive. A senhora presidente recebeu uma encomenda nossa que não cabia na ranhura da caixa do correio, e no outro dia fui eu que recebi e ajudei a senhora presidente”, ilustra, mostrando que já há à vontade com os novos residentes e que já todos sabem que é professor. Já teve inclusivamente um episódio caricato, com uma avó de um aluno seu, que veio à sua porta interceder pelo neto, pelo seu sucesso na disciplina.

A casa, que adquiriram recentemente, está em remodelação, e a família já iniciou mudanças e limpezas. Agora, o objetivo é ter tudo pronto neste início de setembro, altura em que contam já ter mudado de “armas e bagagens”, com os seus três cães, para aquele que é o pequeno paraíso da família.

À porta da casa da família Pereira, encontramos mais dois novos residentes. Compraram a chamada Casa dos Brasileiros, vendida pela Câmara de Vila de Rei em hasta pública e para onde chegou a ser aprovada instalação de uma quinta pedagógica e alojamento local, num investimento de meio milhão de euros, projeto que acabou por cair por terra.

Rosário Cavalheiro com outros novos residentes, Ricardo Borges e Rosa Delgado, que estão a requalificar uma casa à entrada da aldeia. Foto: mediotejo.net

A casa, na entrada da sede de freguesia, estilo senhorial, estava a deteriorar-se, e agora já se encontra a ser reabilitada.

Os novos donos são Ricardo Borges e Rosa Delgado. Ele é advogado e proprietário de uma empresa de turismo e de transportes de mercadorias; ela é professora de 1º ciclo.

Ricardo já sonha mudar-se definitivamente para São João do Peso, e já queria ter lá passado o seu aniversário. “Quero ver se passo cá o Natal!”, exclama.

Já está integrado neste meio rural, ainda para mais sendo amante das lides da caça, sendo que os pais de Rosa são naturais de Chaveirinha, na freguesia de Cardigos, concelho de Mação, ali perto da fronteira com São João do Peso.

Anda desejoso de apanhar um javali e cozinhá-lo para um convívio com a população, mas mais desejoso ainda com a festa anual. “Então para o ano temos festa? Eu patrocino isso. E ainda ofereço uma viagem aos idosos do Centro de Acolhimento, se quiserem”, ficou só por definir a data e o local, mas à partida será o Santuário de Fátima o destino.

O ponto de encontro ao final da tarde, para refrescar e pôr a conversa em dia, é o café São João, no largo da Igreja.

Foto: mediotejo.net

Desde 2020 está nas mãos de novos proprietários. Rosa Rodrigues, que é natural de Vila de Rei, e o companheiro Nuno Marques, decidiram investir numa altura em que a pandemia lhes tirou o tapete, sem certezas quanto ao emprego que tinham em Lisboa, onde trabalhavam numa empresa de catering que servia grandes eventos e conferências.

Agora, além de explorarem o café, e sendo o balanço positivo no que toca a clientela, também exploram um snack-bar/restaurante ao estilo americano, o Fifty-Fifty, com alojamento local em Vila de Rei, no centro histórico, junto à Igreja da Misericórdia. Entretanto, está também a apoiar na gestão de um alojamento local em São João do Peso, na aldeia de Algar.

“Tenho o alojamento cheio, tem sido muito bom. O regresso de muitos emigrantes, pessoas de muitos concelhos aqui à volta passam em São João do Peso, vêm às praias fluviais, ao Pego das Cancelas, ao pé da Portela dos Colos, e a Cardigos, já em Mação”, conta.

Nuno está de serviço na aldeia, e Rosa na vila. Tem companhia durante a tarde, mas é certo que agora tem sempre clientes no café ao longo do dia. “Antes tinha horas mortas. As pessoas vinham beber café de manhã, passavam ao almoço, depois vinham ao final do dia ou à noite. Agora não… agora está sempre alguém por aqui, e tenho clientes que vêm de toda a região, desde Marmeleiro (Sertã), Cardigos (Mação), Vila de Rei, Proença-a-Nova…”, afiança, enumerando, para depois apontar para quem ocupa as mesas neste final de tarde em que visitamos o café.

Nuno Marques, o gerente do Café São João, que veio trazer nova dinâmica à sede de freguesia. Costuma promover atividades como exibição de filmes e jogos de futebol, karaoke e petiscos, além de vender comida em take away. Foto: mediotejo.net

Chegámos em hora de ponta, e pudemos conviver com os recém-chegados, que vêm a pensar no fim de semana, quem descansa após um dia de trabalho, e quem passa para tomar um café e seguir viagem. Há quem venha lanchar ou petiscar algo tipicamente português.

“O Nuno faz uns petiscos à maneira”, atira um dos clientes, enquanto nos convida a sentar e a petiscar também.

São João do Peso oferece hospitalidade, bem receber, boa disposição e simpatia, com direito a petisco e refresco no café e convívio salutar na esplanada ou num dos bancos de jardim, seja para comentar a atualidade, trocar algumas impressões ou simplesmente estar entre amigos.

Em São João do Peso, dizem, são “poucos mas bons” e, apesar de ser uma freguesia pequenina, é grande pelas pessoas que dela fazem parte. Assim costuma dizer a presidente de junta.

Foto: mediotejo.net

O futuro é sempre uma incerteza, mas vive-se cada dia com a esperança de um amanhã melhor. A única certeza é que quem passar por São João do Peso, venha de onde vier, será sempre bem recebido. Enquanto houver gente, quem por ali passar pode ficar descansado. Estando em apuros ou precisando de indicações. Ou se pretender aproveitar a terra em passagem durante as férias. Seja no banco do jardim, num convívio, numa conversa entre vizinhos, para ver a bola no café ou para beber a bica da manhã. Há sempre uma mão que se estende, um sorriso que se esboça e, à mesa, cabe sempre mais um.

Valha-lhes São João Baptista, e que vá ouvindo as preces desta gente, para que, por cada porta que se feche, se abra sempre uma janela.

 

Espreite aqui alguns dos rostos e recantos da freguesia mais pequena de Portugal continental:

 

Formada em Jornalismo, faz da vida uma compilação de pequenos prazeres, onde não falta a escrita, a leitura, a fotografia, a música. Viciada no verbo Ir, nada supera o gozo de partir à descoberta das terras, das gentes, dos trilhos e da natureza... também por isto continua a crer no jornalismo de proximidade. Já esteve mais longe de forrar as paredes de casa com estantes de livros. Não troca a paz da consciência tranquila e a gargalhada dos seus por nada deste mundo.

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1 COMENTÁRIO

  1. Recordo com saudade S.João do pesso na minha mocidade não falhava aos domingos uma ida ao peso.Gostei do vosso artigo,ele espelha a realidade de uma freguesia despovoada,pobre presidente como pode ela fazer obra com tão miseravél orcamento,nestas condicões só aceita ser presidente por amor a camisola. Sr. presidente da Camara ,de lá um ajudinha a dedicada e lutadora presidente…

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