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Reportagem | Porta-a-porta, o ganha-pão de Marta Fernandes (c/áudio e vídeo)

São 04h20 da manhã. Enquanto a maioria ainda dorme, Marta Fernandes já está fardada e pronta para começar mais um dia de trabalho. Com a carrinha carregada de carcaças, merendas ou papo secos, broas de milho e tantas outras variedades de pão, parte de Vila de Rei com destino à porta de cada um dos seus clientes. São cerca de 200 os quilómetros que faz por dia, num percurso que já sabe de cor e que faz com gosto pelo contacto direto com as pessoas – um contacto que a pandemia veio restringir ao mínimo indispensável mas que não dispensa dois dedos de conversa naquela que é, para alguns, a única visita do dia.

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“A Chainça faço de madrugada, a Barca do Pego, Alferrarede, São Miguel do Rio Torto. Depois vou fazer os supermercados, vou a Ponte de Sor, entretanto faço mais duas terras porta-a-porta, depois faço a zona do Tramagal e continuo a fazer o porta-a-porta”. É esta a rotina de Marta Fernandes todos os dias nos últimos quatro anos, para exercer a atividade que é o seu ganha-pão. Entrou há cinco para uma padaria na sua terra natal, em Vila de Rei, e logo percebeu que a parte da distribuição era aquela que mais lhe chamava a atenção. “Adoro o que faço”, confessa. “Apesar da chuva e de tudo, adoro este trabalho. Andar livre, não estar fechada entre quatro paredes, correr muitos sítios, falar com pessoas, é bom”.

Entre a distribuição porta-a-porta e as entregas em lojas e supermercados, sobretudo no concelho de Abrantes, são cerca de 200 quilómetros que percorre por dia, de segunda a sábado, num percurso com muitas paragens: “para aí umas 150/200”, que já sabe de cor.

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Marta Fernandes, 31 anos, faz distribuição de pão porta a porta, percorrendo cerca de 200 quilómetros por dia. Fotografia: Ana Rita Cristóvão/mediotejo.net

Ao longo do caminho o tempo para grandes conversas é pouco, pois quanto mais minutos demorar numa porta, logo o próximo cliente estranha o atraso. A conversa com o mediotejo.net acontece por volta das 13h00, hora em que Marta Fernandes termina mais um dia de trabalho.

“Começo às 04h20 da manhã aqui na padaria para preparar [o pão] para as lojas, são muitos sacos… vai já tudo preparado porque agora temos de evitar o contacto com as pessoas, para nos tentarmos precaver, a nós e aos nossos clientes”, conta-nos.

A jovem de 31 anos revela-nos que a chegada da pandemia, há já cerca de um ano, veio mudar “muita coisa” no seu trabalho, nomeadamente em termos de logística. “Eu começava a fazer a venda porta-a-porta com o cliente presente, durante o dia, não deixava tanto nas portas”. Agora, “para não haver tanto contacto, passamos só uma vez por semana em muitos sítios, para fazermos as contas”. Nos restantes dias os clientes apenas vão à porta ou ao portão recolher o pão fresco que ali está à sua espera, já sem sinais de Marta no horizonte.

Com um aumento da procura da entrega do pão porta-a-porta desde o primeiro confinamento, em março do ano passado – clientes que ganhou e que ainda hoje “continuam a querer o pão”, também devido ao recolhimento domiciliário e ao evitar as filas para entrar nos supermercados – a profissional diz-nos que não tem notado medo por parte das pessoas, não só por “já saberem como é que funciona” o momento da entrega, mas também resultado da “confiança e amizade que existe entre nós”. Inclusive, revela-nos que muitas vezes é a própria que atenta os clientes porque “ainda continua a haver pessoas que não trazem máscara”. Alerta nomeadamente “para as distâncias, mesmo por causa do pão, para não se chegarem tanto à carrinha, para tentar encontrarmos formas de evitar [contacto], para continuarmos a trabalhar e ser seguro”.

Para manter a segurança há rotinas que se enraizaram no dia a dia de Marta Fernandes, desde o uso constante de máscara no rosto – que confessa ser “aflitivo”, aproveitando “todos os bocadinhos sozinha, dentro da carrinha”, para a baixar até ao nariz – até às luvas e ainda a “um spray para desinfetar o próprio dinheiro”, sem nunca se esquecer de, “constantemente, desinfetar a carrinha”.

Não obstante a relação de confiança que criou com os clientes, acaba por concluir que medo todos acabam por ter. “Existe esse medo geral, também eu própria sinto no contacto com as pessoas (…) também tenho família em casa e também tento proteger os meus, a mim e a todos os meus clientes”, refere. A pandemia veio trazer mais exigência a um trabalho que já exigia muito de si. “Temos de pensar quase em cada ato que estamos a ter.”

A distribuidora de pão confessa-nos que a maior dificuldade tem sido a parte psicológica. “Nós vamo-nos habituando às máscaras, às desinfeções, mas essa parte de realmente estarmos fechados, afeta muito o psicológico das pessoas, e  no meu caso também. O confinamento das pessoas, como não podem sair, têm de estar mais isoladas, estão mais stressadas, não têm tanta paciência. Acho que seja mesmo essa, a parte psicológica, o mais difícil, porque o trabalho… eu gosto do trabalho que faço”.

Um trabalho onde o sorriso e o “bom dia” do cliente à porta tem sido no último ano trocado pelo silêncio das ruas vazias. Marta admite a estranheza da situação e a falta de contacto com as pessoas: “É complicado, em termos psicológicos, porque estava habituada a isso e sente-se a falta do contacto com as pessoas, sem haver este medo.”

Algumas dessas pessoas, além de clientes, já são consideradas família. “Já ando nesta volta há quatro anos quase, já é família porque lidamos todos os dias com as mesmas pessoas. Preocupamo-nos. Eles preocupam-se connosco, e há sempre uns miminhos, há sempre uma conversa”, expressa.

E para muito dos seus ‘familiares’, a passagem da padeira à porta é a única visita do dia. “Mesmo elas dizem que só praticamente veem as pessoas da fruta, ou o peixeiro ou o padeiro, não lidam com mais ninguém.”

Com os abraços trocados por um levantar de mão à distância, as longas risadas despreocupadas a dar lugar a dois dedos de conversa rápida e com a escolha do pão demorada a ser substituída por um avio despachado que já vem pensado na memória, Marta prepara-se para um novo dia de trabalho, partindo de Vila de Rei no escuro da madrugada, com o objetivo de deixar o pão e palavras de esperança às pessoas. Esperança “de que isto um dia volte à normalidade e que a gente possa contactar sem medo e sem receio de estar a fazer algum mal a alguém.”

Abrantina mas orgulhosa da sua costela maçaense, rumou a Lisboa com o objetivo de se formar em Jornalismo. Foi aí que descobriu a rádio e a magia de contar histórias ao ouvido. Acredita que com mais compreensão, abraços e chocolate o mundo seria um lugar mais feliz.

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