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Quarta-feira, Dezembro 1, 2021

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Reportagem | Pé a pé se trava a luta contra a Diabetes, que tem valores recorde na região

Na região do Médio Tejo, o número de mortes por Diabetes é superior à média nacional e o risco de morrer por esta doença é um dos que mais se agravou nas últimas décadas. Um estudo aponta Concavada, em Abrantes, com o valor mais preocupante. Esta localidade é mesmo uma das cinco na zona de Lisboa e Vale do Tejo identificadas para a implementação “urgente” de programas de prevenção e controlo da doença. Ao mediotejo.net, a diretora executiva do Agrupamento de Centros de Saúde do Médio Tejo, Diana Leiria, confirma que a taxa de diabéticos na União de Freguesias de Alvega e Concavada é acima da média, embora a prevalência da doença seja alta – e continue a crescer – em toda a região. O nosso jornal esteve na Unidade de Saúde Familiar D. Francisco de Almeida, em Abrantes, para acompanhar as consultas de cuidados ao pé diabético, onde se dirigem todos os doentes sinalizados no concelho.

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João Maria António chega sorridente ao gabinete da enfermeira Elisabete Conde. Há muito que sabe ser diabético e desloca-se da Abrançalha de Cima até à Unidade de Saúde Familiar (USF) D. Francisco de Almeida, no centro histórico de Abrantes, para as consultas de rotina, incluindo a de cuidados ao pé diabético.

“As análises estão mais ou menos na mesma”, diz a enfermeira. Por isso “os cuidados com a alimentação têm de continuar. E as caminhadas, tem feito?”, pergunta. “Poucas”, responde João de 75 anos. “Vou até à horta.”

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João é doente de baixo risco. Os valores das análises revelam que ainda consegue controlar a doença com a alimentação, não necessitando de fármacos. Tratado, portanto, no primeiro de três níveis de cuidados.

A diabetes Tipo 2 é a mais comum em Portugal, representado cerca de 90% dos casos. Ocorre quando o organismo produz insulina mas esta não é utilizada de forma adequada pelas células do corpo. A doença está associada a uma redução da esperança média de vida, elevada morbilidade devido às complicações cardiovasculares e redução da qualidade de vida.

Consulta de enfermagem familiar na USF D. Francisco de Almeida, Abrantes. Créditos: mediotejo.net

Na USF D. Francisco de Almeida a primeira paragem é no enfermeiro de família, uma consulta de enfermagem para avaliação dos sinais vitais e a avaliação do pé diabético. Na consulta é verificada a tensão arterial, o peso, o índice de massa corporal e questiona-se o doente sobre alguns hábitos, como o tabaco ou o álcool.

“O excesso de peso poderá condicionar a doença do pé”, explica a enfermeira Elisabete, que aproveita para verificar se as vacinas estão em dia e para interrogar o doente se tem abusado nos dióspiros, um dos cinco frutos com alto teor de açúcar, em conjunto com a uva, a banana, o melão e o figo. A resposta é afirmativa.

A preocupação dos profissionais de saúde passa também pelas doenças associadas, que no caso de João Maria António, são a hipertensão, cataratas e insuficiência cardíaca, entre outras comorbilidades.

Na consulta, a enfermeira também procede à avaliação de risco de úlcera diabética. Esta avaliação tem por referência três níveis: baixo (o doente é avaliado uma vez por ano), médio (quando se verifica ausência de insuficiência venosa sendo o doente avaliado de seis em seis meses) e alto (com antecedentes de ulcera isquémica ou amputações, sendo o doente avaliado de três em três meses).

Em conformidade com o resultado da avaliação são igualmente tidos em conta três níveis de cuidados: nível um, acompanhado pelo médico de família, enfermeiro e consulta de cuidados ao pé diabético; no nível dois o acompanhamento é hospitalar, com médico (intensivista, cirurgião, ortopedista), enfermeiro ou outro profissional de saúde. No nível três há também acompanhamento hospitalar, mas já com apoio de cirurgia vascular, explica a enfermeira Elisabete.

Consulta de enfermagem familiar na USF D. Francisco de Almeida, Abrantes. Créditos: mediotejo.net

A área de abrangência da USF D. Francisco de Almeida é Abrantes, Abrançalha e Rio de Moinhos, sendo que a consulta de cuidados ao pé diabético destina-se a todos os utentes do concelho referenciados pelo médico de família.

Nessa avaliação de risco de ulcera diabética a enfermeira avalia os fatores de risco, verifica se o calçado é adequado, se o utente usa meias – aos diabéticos recomenda-se sempre o uso de meias para evitar que o pé transpire –, se tem calosidades, úlceras ou unhas espessas.

Com o doppler venoso a enfermeira verifica que, em João, a circulação ainda se faz bem. “Ouve-se o batimento cardíaco, se não se ouvisse era um sinal de alerta”, explica. Outros equipamentos se seguem, como um improvável diapasão, para verificar o vibrar. “Se não sentir a vibração no pé é sinal de alarme”, diz.

Consulta de enfermagem familiar na USF D. Francisco de Almeida, Abrantes. Créditos: mediotejo.net

Em frente ao computador a enfermeira Elisabete Conde procura o programa informático que lhe permite preencher um formulário e, automaticamente, determinar o grau. Conclui que João Maria pode ser tratado ao nível um.

Segue-se a consulta de medicina geral e familiar. A médica Susana Silva é responsável pela convocação para a consulta do pé diabético com a enfermeira Maria dos Anjos Machado. Mas antes, a médica ajusta a medicação do utente, no caso, com comorbilidades associadas.

Importa “controlar todos todos os outros fatores e estarmos atentos a multifatores para conseguirmos tratar o doente”, diz. “A consulta de diabetes é das mais completas da USF”, considera, acrescentando que “o conhecimento holístico do utente é fundamental”.

No caso do utente iniciar uma terapêutica nova como a insulina, desde a primeira administração “tem de vir à consulta quase todas as semanas”, para ajustar. “Se for ajuste de medicação, será de três em três semanas”, detalha.

João Maria António na consulta com o médico de família na USF D. Francisco de Almeida. Créditos: mediotejo.net

João Maria António “sempre teve médico de família, mas não é assim com todos os doentes”, nota a médica. Daí a importância dos diabéticos serem observados “no mínimo de seis em seis meses”, defende. Desta vez João “tem os triglicéridos (colesterol) altos, pelo que terá de ter uma consulta antes dos seis meses”, refere a médica, marcando a próxima consulta para janeiro de 2022.

E sintomas? “Sinto calor nos pés à noite”, diz João. Um indicador que revela falha na circulação correta do sangue nas artérias. A mulher de João também é diabética. “Sempre que há casais tentamos marcar a consulta para o mesmo dia”, referem.

Através do sistema, a médica sabe se os utentes cumprem ou não a terapêutica. Ou pelo menos, sabe se os medicamentos foram ou não levantados na farmácia. “Por vezes os utentes não cumprem”, admite, muitos por carência económica.

A doença da diabetes “estima-se que continue a aumentar nos próximos anos”. Susana Silva nota ser “a grande pandemia, em termos de doença, que consome grande parte dos recursos” dos sistemas de saúde públicos. Muito por causa do “estilo de vida da população, mais sedentária, com problemas de obesidade, hipertensão, etc.”, mas também por fatores hereditários.

“Se um familiar é diabético, o utente vê aumentado o risco de desenvolver diabetes”, explica a médica, acrescentando que a consulta tem um papel também de prevenção, quer de “problemas cardíacos, renais a nível do olho”, realizando-se rastreios anuais no Hospital de Tomar. Na USF D. Francisco de Almeida, Susana Silva acompanha 1700 utentes, sendo que 200 são diabéticos.

Consulta de cuidados ao pé diabético na USF D. Francisco de Almeida, Abrantes. Créditos: mediotejo.net

Por fim a consulta de cuidados ao pé diabético, com a enfermeira Maria dos Anjos Machado, que também verifica a qualidade dos sapatos. “De preferência devem ter atacadores, para poder ajustar ao longo do dia”, pois “os sapatos apertados são prejudiciais”, explica.

A consulta, que neste momento acontece uma vez por semana, demora entre 20 a 25 minutos.

Consulta de cuidados ao pé diabético na USF D. Francisco de Almeida, Abrantes. Créditos: mediotejo.net

“Agora só recebe diabéticos embora devesse receber outros utentes que também precisam da consulta de cuidados ao pé, mas a falta de recursos não permite”, dá conta a enfermeira. A lista de espera é de cerca de um mês. “Se for urgente, é avaliado”, refere a enfermeira.

Nas unhas, que muitas vezes apresentam onicomicose, “é cortar, limar, desinfetar”. A enfermeira observa se há alteração na cor do pé, se a sensibilidade continua presente ou se diminuiu de uma consulta para outra.

Consulta de cuidados ao pé diabético na USF D. Francisco de Almeida, Abrantes. Créditos: mediotejo.net

Também verifica o grau de risco para úlcera diabética e explica o que o utente tem de fazer em casa, dando continuidade aos cuidados. Importa, diz a João, “limar as unhas, nunca cortar muito rente para não fazer ferida no pé, e depois tem de hidratar o pé”. No caso da presença de fungos, o médico de família prescreve a medicação.

Após os tratamentos, João Maria despede-se com o mesmo sorriso que chegou, já habituado às rotinas, como forma de prevenir complicações, sempre na esperança que a glicemia tenha tendência a baixar.

USF. D. Francisco de Almeida, em Abrantes. Créditos: mediotejo.net

Concavada, terra de diabéticos com prevalência superior na região de Lisboa e Vale do Tejo

A Concavada está sinalizada como uma das freguesias da região de Lisboa e Vale do Tejo com maior prevalência da Diabetes Tipo 2 e que, em associação com a taxa de obesidade, hipertensão e outras doenças associadas, precisará de uma atenção redobrada das autoridades de saúde.

Uma investigação sobre a distribuição da Diabetes Mellitus Tipo 2 na região de Lisboa e Vale do Tejo permitiu identificar um cluster de condições agravantes em cinco freguesias: além de Concavada, Amora e Arrentela, no concelho do Seixal; Póvoa de Santarém, em Santarém; e Samouco, no concelho de Alcochete.

Também o Entroncamento e Santa Margarida da Coutada, em Constância, apresentam valores muito elevados neste estudo de Ana Maria Pereira, realizado no âmbito do mestrado em Gestão do Território, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

A Diabetes Mellitus Tipo 2 é uma doença crónica que afeta sobretudo a população adulta. A sua prevalência tem aumentado rapidamente. Em 2018, morreram 4.305 pessoas com diabetes Tipo 2, significando que a doença mata 11 pessoas por dia, no nosso país.

Segundo os dados mais recentes publicados pelo Instituto Nacional de Estatística, a região do Médio Tejo tem uma percentagem de mortes por Diabetes de 4%, um valor superior à média nacional, que se situa nos 3,4%. A região é também uma das que mais agravou o risco de morte por Diabetes nas últimas décadas, de acordo com um estudo publicado na revista Acta Médica.

A região do Médio Tejo é uma das que apresenta um maior risco de morte por Diabetes. Fonte: Revista Acta Médica

No que toca ao estudo que aponta Concavada como um dos casos mais preocupantes, a diretora executiva do Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) do Médio Tejo, Diana Leiria, disse desconhecê-lo e advertiu que Concavada integra a União de Freguesias de Alvega e Concavada. “O nosso sistema de informação permite desagregar dados de acordo com as divisões administrativas, ou seja, por concelho e por freguesia. Assim, não é possível desagregar os dados dos utentes da Concavada relativamente aos dos utentes de Alvega”.

No entanto, explicou Diana Leiria, “da análise dos dados disponíveis” referentes a abril do ano passado, verifica-se que “a taxa de diabéticos entre os utentes inscritos nas unidades funcionais do concelho de Abrantes com residência na União de Freguesias de Alvega e Concavada é de 12%. Esta percentagem é mais elevada do que a percentagem de utentes com diagnóstico de Diabetes no ACES Médio Tejo, a qual ascende aos 9%”.

Mas porque tem esta população valores mais elevados de Diabetes? Não há uma, mas muitas causas, explica Diana Leiria, designadamente “fatores genéticos, mas também o envelhecimento da população e os estilos de vida, tais como a alimentação desregrada ou a ausência de exercício físico”.

Diana Leiria, diretora executiva do ACES Médio Tejo. Foto: mediotejo.net

Em Portugal, dados dos Observatório Nacional da Diabetes revelam que mais de um milhão de pessoas têm a doença (13.6% da população entre os 20 e os 79 anos). Destas, cerca de um terço está por diagnosticar e dois milhões possuem risco elevado de a vir a desenvolver, sendo a taxa de incidência anual superior a 600 novos casos por cada 100 mil habitantes.

Segundo o estudo de Ana Marta Pereira, nas áreas rurais há uma maior prevalência da diabetes do que nas áreas urbanas, o que é reforçado por outras investigações na área da Saúde, publicadas na última década. A tendência de valores mais elevados nas áreas rurais verifica-se ainda relativamente a doenças relacionadas com a diabetes, como a obesidade ou a hipertensão.

No pólo de Alvega da UCSP de Abrantes há um valor mais elevado de inscritos mas Diana Leiria assegura que, “nesta extensão, tal como em todas as unidades funcionais do ACES, cumprimos o Programa Nacional de Diabetes Mellitus, bem como todas as normas e orientações clínicas da DGS”. Assim, existe naquele polo consulta médica e de enfermagem de vigilância e acompanhamento de diabetes e os utentes dispõe ainda de cuidados ao pé diabético. É igualmente realizado o rastreio da retinopatia diabética.

“As situações de grande descompensação com indicação para cuidados hospitalares são referenciadas para a respetiva consulta no hospital de referência ou naquele que o utente preferir, dentro do SNS”, assegurou.

Sendo uma doença que pode ser prevenida através da adoção de estilos de vida saudáveis, a International Diabetes Federation (IDF) sugere que todos os países devem desenvolver estratégias de baixo custo (através dos recursos disponíveis) para a identificação e prevenção do risco de desenvolver diabetes.

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Sobre o que está a ser implementado no terreno, a diretora executiva do ACES Médio Tejo explica que, além da oferta dos cuidados específicos já referidos, promovem-se “várias ações de prevenção ao longo do ano, quer em relação à doença propriamente dita (comemoração do Dia da Diabetes, rastreios em vários eventos públicos, etc.), quer em relação aos estilos de vida saudáveis: alimentação, exercício físico, cessação tabágica”.

No entanto, admite que a redução da doença não é uma realidade. “O envelhecimento da população e os critérios de diagnóstico, que têm sofrido alteração ao longo dos anos, terão certamente contribuído para este aumento generalizado de doentes diagnosticados com diabetes de Tipo 2”.

Inverter a marcha da doença não será fácil, mas as grandes mudanças, como em tudo na vida, têm de começar pela informação e pela vontade de cada um. Um passo simples para combater esta doença é andar a pé. 

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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