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Segunda-feira, Janeiro 24, 2022
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Reportagem | Os últimos dias na Central a carvão do Pego – João Furtado (c/vídeo)

O fim da produção de energia a carvão é um momento histórico para o país, mas vivido de forma ambivalente na região, pela importância social e económica da Central do Pego, nos últimos 30 anos. A 30 de novembro termina o ciclo do carvão em Portugal, mas para centenas de pessoas, que de forma direta ou indireta mantinham relação com a Central, acaba também o trabalho e um ciclo que haviam construído em conjunto. No horizonte há promessas de um futuro melhor, mas também pairam incertezas sobre esse amanhã que há de vir.

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O mediotejo.net acompanhou a fase final da produção de energia a carvão no Pego. Entrevistámos gestores, diretores e alguns dos trabalhadores mais antigos – um deles desde a construção das fundações. Falámos com antigos e atuais decisores políticos, analisámos a evolução da política energética e procurámos antever o que será esta Central no futuro. Uma Grande Reportagem que será publicada ao longo dos próximos dias, em diferentes capítulos.

A central a carvão do Pego, instalada no concelho de Abrantes, começou em 1993 a produzir energia elétrica com uma licença detida pela Tejo Energia, válida por 28 anos, terminando o Contrato de Aquisição de Energia (CAE) a 30 de novembro de 2021, não tendo o mesmo sido renovado pelo governo, que decidiu acabar com o carvão no âmbito da estratégia de descarbonização nacional. O Centro de Produção de Eletricidade do Pego, operado pela PEGOP, tem como atividade principal a produção de eletricidade, garantindo a segurança de abastecimento à rede elétrica em complemento com as energias renováveis.

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É constituído por duas Centrais de produção de eletricidade, uma que utiliza como matéria-prima o carvão, e é propriedade da Tejo Energia, e outra que utiliza como matéria-prima o gás natural, e é propriedade da Elecgas. O Centro de Produção de Eletricidade do Pego é o maior centro produtor nacional de energia, com uma potência instalada de 628 megawatts (MW) na central a carvão, e de 800 MW na central a gás, que prosseguirá em atividade. No total, trabalham ali cerca de 180 pessoas.

João Furtado chefiou a equipa que fechou o ciclo a carvão no Pego e em Portugal. Foto: mediotejo.net

Entrevista a João Furtado, 63 anos, engenheiro, um dos trabalhadores mais antigos e chefe de equipa de operação da sala de comando da Central Termoelétrica do Pego.

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mediotejo.net – É um dos trabalhadores mais antigos da Central, assistiu ao início e está a chegar ao fim de um ciclo… como tem sido este processo?

João Furtado – Eu comecei na EDP, uma empresa pública, em várias centrais, e depois fui convidado para este projeto. Estou aqui desde início, sou dos funcionários mais antigos. Assistimos à construção e agora estamos a assistir ao fim de um ciclo. Penso que é só um fim de um ciclo, vamos ver o que se passa para o futuro, mas isso não depende de nós.

É chefe de equipa na sala de comando da Central do Pego, onde se decide se há produção de eletricidade ou não…
É a partir daqui que se controla todo o processo, tudo é controlado à distância, tudo é monitorizado à distância, pontualmente temos que ir à instalação, mas fundamentalmente faz-se tudo a partir daqui.

Portanto tudo feito automaticamente, desde que haja carvão e desde que a equipa receba instruções para produzir eletricidade.
Nós recebemos as instruções do exterior para aquilo que temos de fazer, o plano de cargas, e cumprimos, em função daquilo que nos pedem, tudo feito a partir daqui da sala de comando.

E esteve sempre ligado na sua vida profissional à energia?
Sempre. A partir do momento em que entrei na primeira Central disse: “Não quero sair mais”. E portanto fui passando por diversas centrais da EDP (como empresa pública), esta central começou por ser da EDP, depois foi vendida a um grupo privado, que me convidou a ficar.

João Furtado, 63 anos, engenheiro, e chefe de equipa de operação da sala de comando da Central Termoelétrica do Pego. Foto: mediotejo.net

Passou por muitas centrais a carvão, esta é a única que resiste. Porque ficou nesta?
Só existiam duas centrais a carvão, as outras eram a fuel. São centrais que já não fazem sentido, por questões de poluição e sobretudo por questões de consumo. Sines arrancou a carvão e depois foi esta. Em Sines nunca estive, não era um projeto que me aliciasse, esta sim, fui convidado e vim para cá, eu não era sequer aqui da zona, e agora já sou, e vou ficar, independentemente do futuro da central.

Ao longo deste processo todo, são 28 anos a produzir eletricidade a partir da PEGOP, que momentos mais o marcaram?
Isto é um trabalho aliciante pois nunca sabemos o que vai acontecer nos minutos seguintes. Portanto podemos ter aqui um turno perfeitamente descansado, sem grandes problemas, ou podemos ter uma atividade fora do normal. E para quem gosta desta variabilidade de atividade, gosta disto. Por outro lado, em termos técnicos, é uma unidade industrial que tem tudo. Tudo o que possa ser possível fazer, aqui existe, em termos de controle, em termos de máquinas, de energia elétrica, de combustão, aqui há de tudo um pouco e satisfaz-me profissionalmente.
Muita atividade pode ser a nível de operação, normalmente a máquina tem um processo equilibrado, auto equilibra-se com processos automáticos, mas quando alguma coisa falha, temos de ser nós a corrigir o processo, e normalmente é uma atividade muito rápida. Ou seja, um processo pode-se desequilibrar em segundos e podemos ter que resolver em segundos, se não resolvermos podemos ter que sair de produção, ou seja, ter uma falha de produção, o que é uma situação grave, e depois temos de reentrar outra vez, o que é já um processo complexo.

João Furtado, engenheiro, uma vida dedicada ao setor da energia, grande parte dela na central do Pego. Foto: mediotejo.net

Esta é a última Central a carvão no país, como é ver este fim de ciclo?
No futuro não sabemos o que nos espera, pode ser mesmo um fim de ciclo ou um ciclo intermédio, porque estas unidades estão a ser reconvertidas na Europa para biomassa, há essa possibilidade, e portanto também estamos a estudar essa hipótese. O fim de ciclo do carvão, esse é garantido, mas é também um fim de ciclo do ponto de vista comercial, quando viemos para cá já sabíamos que isto acabava dia 30 de novembro, não é nada de novo, havia um contrato de longa duração que acabava nessa altura. Novo agora é não continuarmos com carvão ou noutra fase qualquer, mas o fim de ciclo desta unidade, em termos comerciais, era 30 de novembro, sempre foi.

Com o dia 30 de novembro cada vez mais próximo, qual é o sentimento generalizado, como chefe de equipa desde a primeira hora, e como é estar a assistir a um momento histórico e marcante da sua vida profissional e pessoal?
Nós continuamos a trabalhar para o futuro. Portanto neste momento temos uma Central que é preciso que esteja a produzir e disponível até dia 30, portanto não há alterações. Mas por outro lado estamos a pensar que isto é um instalação complexa, como é que isto pára, como é que isto fica condicionado para eventualmente numa decisão futura, voltar a produzir, não é fácil parar isto desta forma, portanto neste momento estamos a fazer este processo de estudo, esse sim é novo, que nós estamos mais habituados a colocar centrais em serviço do que a tirar centrais de serviço.

Este ciclo foi gratificante a nível pessoal e profissional?
De facto foi uma opção, eu estava numa empresa pública, e vir para uma empresa privada, e vir para Abrantes, que eu mal conhecia, e trazer a família, foi uma opção difícil, mas foi uma boa opção. Abrantes é uma cidade agradável, é para ficar, aí não é fim de ciclo. Eu sou de Lisboa, podia voltar para Lisboa, mas isso não vai acontecer, independentemente do que acontecer aqui, e portanto foi uma opção que acho que foi positiva.
Quanto ao futuro da Central, estou preparado para ajudar com os meus conhecimentos, se nos permitirem ajudar. De facto, este é um processo em que não se arranja estas pessoas no mercado de trabalho, pessoas para operar… não se arranjam no mercado de trabalho, não saem das universidades. Saem, mas depois precisam de dois, três anos para começar a perceber esta linguagem, portanto isto são profissionais altamente qualificados para este trabalho, para este tipo de indústria, e, como tal, demoram muito tempo a fazer. Qualquer projeto que possa existir aqui, se for semelhante, como a biomassa, tem de ter estes profissionais.

João Furtado chefiou a equipa que fechou o ciclo a carvão no Pego e em Portugal. Foto: mediotejo.net

Pode-lhe caber a si ser o último a carregar no botão?
Sim, espero que possa acontecer, mas também é triste. Agora ainda não penso nisso mas na altura será um bocadinho triste, porque nós assistimos ao primeiro paralelo, era a primeira ligação à rede, isto para ser ligado a primeira vez, tem 3 ou 4 anos de verificações, além da construção. Primeiro constrói-se, depois temos uma fase que é o comissionamento, que é verificar se está tudo certo, depois faz-se o primeiro paralelo (primeira ligação à rede), é sempre um acontecimento histórico numa central, com champanhe etc.. O contrário não é tão histórico.

Sala de comando da central termoelétrica do Pego. Foto: mediotejo.net

*João Furtado acabaria mesmo por pertencer à equipa que procedeu à ultima saída de produção dos grupos a carvão. “Foi um momento triste, como previa, foi o fim de um processo que durou 28 anos, com muito trabalho e dedicação”, relatou ao mediotejo.net.

João Furtado chefiou a equipa que fechou o ciclo a carvão no Pego e em Portugal. Foto: mediotejo.net

Central Termoelétrica do Pego – O fecho da última central a carvão do país

A central termoelétrica da Tejo Energia é atualmente a única central a carvão em operação no país, em sequência do encerramento da central de Sines da EDP em janeiro, tendo o Governo decidido que a sua atividade deveria terminar até 30 de novembro de 2021, apesar do projeto de continuidade apresentado pela Tejo Energia ter sido entregue ao governo, a pedido deste e em devido tempo, tendo o mesmo sido rejeitado e o governo decidido lançar um concurso público.

O futuro da Central, que passará por uma reconversão para um ‘cluster’ de produção de energias verdes, vai ser decidido em janeiro de 2022, depois do adiamento dos prazos previstos no concurso público que o Governo lançou em setembro para concessionar aquele ponto de injeção na rede elétrica nacional.

Em causa, está a central da Tejo Energia, uma ‘joint-venture’ entre a TrustEnergy, com uma participação de 56,25%, e a Endesa Generación, com 43,75%. Esta é uma das centrais que se manteve com CAE, incentivo à produção que foi substituído pelos Custos de Manutenção do Equilíbrio Contratual (CMEC).

Os acionistas maioritários da Tejo Energia têm reiterado que o Governo levou a leilão um bem que lhes pertence por direito e entregaram uma providência cautelar no Tribunal de Leiria contestando o procedimento, bem como uma ação paralela em que é pedida uma indemnização de 290 milhões de euros ao Ministério do Ambiente.

A Tejo Energia é detida pela TrustEnergy (56%), um consórcio constituído pelos franceses da Engie e os japoneses da Marubeni, e pela espanhola Endesa (44%), empresas que exploram a central localizada em Pego, a 150 quilómetros de Lisboa, sendo o maior centro produtor nacional de energia, com uma potência instalada de 628 megawatts (MW) na central a carvão, e que irá cessar as operações até final de novembro, e de 800 MW na central a gás, que prosseguirá em atividade até 2035.

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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