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Segunda-feira, Janeiro 24, 2022
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Reportagem | Os últimos dias na central a carvão do Pego – António Gomes Mor (c/vídeo)

O fim da produção de energia a carvão é um momento histórico para o país, mas vivido de forma ambivalente na região, pela importância social e económica da Central do Pego, nos últimos 30 anos. A 30 de novembro termina o ciclo do carvão em Portugal, mas para centenas de pessoas, que de forma direta ou indireta mantinham relação com a Central, acaba também o trabalho e um ciclo que haviam construído em conjunto. No horizonte há promessas de um futuro melhor, mas também pairam incertezas sobre esse amanhã que há de vir.

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O mediotejo.net acompanhou a fase final da produção de energia a carvão no Pego. Entrevistámos gestores, diretores e alguns dos trabalhadores mais antigos – um deles desde a construção das fundações. Falámos com antigos e atuais decisores políticos, analisámos a evolução da política energética e procurámos antever o que será esta Central no futuro. Uma Grande Reportagem que será publicada ao longo dos próximos dias, em diferentes capítulos.

A central a carvão do Pego, instalada no concelho de Abrantes, começou em 1993 a produzir energia elétrica com uma licença detida pela Tejo Energia, válida por 28 anos, terminando o Contrato de Aquisição de Energia (CAE) a 30 de novembro de 2021, não tendo o mesmo sido renovado pelo governo, que decidiu acabar com o carvão no âmbito da estratégia de descarbonização nacional. O Centro de Produção de Eletricidade do Pego, operado pela PEGOP, tem como atividade principal a produção de eletricidade, garantindo a segurança de abastecimento à rede elétrica em complemento com as energias renováveis.

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É constituído por duas Centrais de produção de eletricidade, uma que utiliza como matéria-prima o carvão, e é propriedade da Tejo Energia, e outra que utiliza como matéria-prima o gás natural, e é propriedade da Elecgas. O Centro de Produção de Eletricidade do Pego é o maior centro produtor nacional de energia, com uma potência instalada de 628 megawatts (MW) na central a carvão, e de 800 MW na central a gás, que prosseguirá em atividade. No total, trabalham ali cerca de 180 pessoas.

António Gomes Mor, vereador à época da Câmara de Abrantes, acompanhou a primeira reunião de trabalho para instalação da central a carvão no Pego, no dia 14 de junho de 1985. Foto: mediotejo.net

Entrevista a António Gomes Mor, 72 anos, vereador na Câmara Municipal de Abrantes à época, hoje presidente da Assembleia Municipal, foi o responsável por indicar o local para a instalação da Central a Carvão no Pego. O município era presidido por José Bioucas, que agarrou uma oportunidade que mais ninguém queria.

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mediotejo.net – Esteve desde a primeira hora a acompanhar todo este processo da instalação da Central Elétrica a partir do carvão, aqui no Pego, e teve um papel decisivo para a sua localização. Assiste ao início de um ciclo e, 28 anos depois, testemunha o fim deste mesmo ciclo… Como se desenrolou todo esse processo inicial?

António Mor – É um processo que se inicia em Abrantes depois de haver alguma controvérsia com a pretensão da instalação desta central na zona da Figueira da Foz. Da nossa parte, a situação começou curiosamente num dia da cidade, a 14 de junho de 1985, que, para quem veio conversar com o então presidente da Câmara, José Bioucas, e comigo, que era vereador, para eles 14 de junho era um dia normal. Para o concelho era o feriado municipal, mas para nós era um elemento de mais um dia de trabalho na defesa dos interesses deste nosso concelho. E quando digo deste nosso concelho tem a ver com todo o seu desenvolvimento económico e social.

Do que posso referir é que nós recebemos dois técnicos, que conhecendo o processo anterior, certamente com estudos que já tinham desenvolvido, – porque a importância da água para o processo era determinante – e era grande, porque estávamos habituados a falar de quantidades de água em metros cúbicos/hora, e de repente passou-se a falar de metros cúbicos/segundo – portanto o Tejo era de facto a grande fonte de viabilização de uma unidade deste tipo. E aí, quando chegaram, apresentando o que queriam e onde traziam já um “desenho” do que poderia ser o projeto, apontava algures para este sítio. E esse algures incorporava desde logo a necessidade de fazer um ramal ferroviário a partir da estação de Abrantes mas, curiosamente, não era para a linha da Beira Baixa mas sim vindo por sul que não propriamente no aproveitamento daquilo que era a infraestrutura existente. E aí veio ao de cima a nossa posição.

Para além da necessidade daquilo que em outros sítios eventualmente foi motivo para rejeitar, havendo a salvaguarda das questões ambientais – e devo dizer que é um processo que desde o princípio quer em termos de ambiente quer em termos de incidência social foi sempre tratada na primeiríssima linha, até aos dias de hoje –, quando nos falaram dessa possibilidade, eu, conhecendo o território com pormenor, até porque sou desta freguesia, que é um território genericamente de pequena propriedade, mas que neste sítio onde a central se veio a desenvolver isso não acontecia propriamente. Eu, sabendo que havia dois proprietários, quer em termos do que era a situação da família quer do que era a dimensão das suas propriedades, manifestei que provavelmente haveria aqui um sítio que servia a área exigida e ao mesmo tempo colocámos uma questão, a “grande pretensão” da Câmara Municipal de então, de fazer no plano rodoviário, fechar o concelho no “ovo”. E o “ovo” significava a ponte que se veio a fazer, que liga hoje as freguesias de Mouriscas com a freguesia de Alvega-Concavada, e a outra a ponte do Tramagal, que continua a ser um desejo, e uma necessidade para o normal e desejável desenvolvimento desta nossa região.

E a partir desse contacto começou a desenvolver-se o projeto, com o que foram os contactos com os proprietários, como todo o desenvolvimento também da nossa parte junto do Governo, processo que quase na totalidade foi o Eng. Bioucas que assumiu – e eu devo recordar que na altura tínhamos como secretário de Estado alguém que foi claramente conhecido por ser um homem defensor do ambiente – e posso dizer também que quando olhamos além aquela chaminé com aquela altura, teve a ver com as questões ambientais e com as exigências que da nossa parte foram colocadas relativamente à salvaguarda dos efeitos do que seria o lançar para a atmosfera o que daquela chaminé sai.

António Gomes Mor. Foto: mediotejo.net

Portanto o produto final é emitido a partir da torre?

Sim, porque as outras duas torres – que muitas pessoas dizem que é fumo – emitem vapor de água. Ou seja, são as torres de refrigeração, que não têm a ver com as questões ambientais (genericamente). Mas aquilo que é produto utilizado do carvão quase não se observa o que é expelido para a atmosfera, e é por isso que muitas vezes se confunde o que é o vapor de água com aquilo que efetivamente constitui a preocupação ambiental.

As torres de refrigeração servem a componente da central a carvão como a outra do ciclo combinado. Na tal posição do ambiente, não há muitos anos, imediatamente antes do arranque da central do ciclo combinado, foi aqui feito um significativo investimento que antecipou da saída da chaminé, a redução das emissões exigível o pelas autoridades europeias, e isso reflete bem, na minha perspetiva, que todo o envolvimento desta central teve sempre as duas componentes, a económica e social e a ambiental. Por um lado, aquilo que às empresas e à economia em geral interessava, que era podermos ter energia em Portugal sem a estar a comprar ao exterior, por outro lado a questão ambiental inerente, sempre acompanhado por parte do grupo empresarial aqui representado por atitudes e ações bem percetíveis de uma efetiva responsabilidade social.

Estávamos no início do mandato 1985-1989… e hoje está aqui o maior centro produtor de energia a nível nacional…

Todo um processo, devo dizer que quando o abordámos e quando se percebeu que havia condições para andar, por um lado na concretização do projeto, por outro lado naquilo que era necessário, é bom que se diga, se nos outros sítios onde se tentou, eu diria quase convulsão relativamente a essa atitude, aqui não houve. Não houve, porque quer da nossa parte (município) quer daqueles que eram os promotores do projeto, houve todo um envolvimento no esclarecimento o mais claro possível, que levou inclusive a que em determinado momento os autarcas da região visitassem a central de Sines para se perceber como tudo acontecia e desenvolvia. Todas as forças representadas na Câmara Municipal acompanharam o processo. E aí, ao contrário de outros sítios, conseguiu-se com um ponto ou outro de discórdia, porque as pessoas desconfiam sempre disto ou daquilo – e diria com as razões todas, veja-se o que está acontecer agora com as preocupações que não são poucas relativamente às alterações climáticas – mas houve consensualmente a aceitação desta obra. Mas houve também, primeiro com a EDP, depois com quem o projeto foi entregue, a Tejo Energia, com as empresas que depois a constituem, por um lado, o respeito por compromissos que assumiram, porque ao nível da EDP houve algumas obras, algumas infraestruturas que foram dadas como contrapartida, e depois já com a Tejo Energia e em termos operacionais, com a PEGOP, tudo aquilo que foi essa mesma continuidade da responsabilidade social da empresa, reconhecendo e estando presente em muitas situações das coisas que continuam a acontecer neste nosso concelho.

António Gomes Mor, vereador à época do início do processo (1985) recordou ao mediotejo.net todo o ciclo de produção e de instalação da central no Pego. Foto: mediotejo.net

Portanto, esta empresa teve aqui também um grande impacto social e de proximidade com a comunidade envolvente…

Teve e posso dizer que, logo no início, houve uma preocupação muito grande, neste caso dos primeiros promotores da EDP, que nos diziam que a grande preocupação era que no pico da obra iríamos ter aqui, e tivemos, mais de cinco mil pessoas a trabalhar. Cinco mil pessoas eram mais do que era a população da freguesia do Pego, onde as coisas se manifestariam. A verdade é que essas técnicas que acompanharam o processo ficaram de alguma maneira surpreendidas, por um lado, pela capacidade de aceitação que estas freguesias limítrofes tiveram relativamente às pessoas, que algumas delas por cá ficaram, e é bom ter isso presente, e sem que esse número de pessoas que aqui estivessem a trabalhar viessem a provocar alterações, quer aos costumes, quer à vivência do dia a dia. Agora, foi um período nessa altura, como depois, que motivou algumas situações que sob o ponto de vista económico, no concelho, nomeadamente a restauração, que se vieram a desenvolver a contento de toda a gente.

E são as questões ambientais acabam por determinar o fim deste ciclo…

Este fim de ciclo, quando a licença foi atribuída, de certo modo a data já estava… mas também aí me parece que pode haver aqui algum desfasamento – que era desejável que não houvesse – entre a dada fim anunciada e a data do início do aproveitamento, por um lado da obra em si, e ao mesmo tempo sem os estragos – chamemos-lhe assim – do que significa encerrar sem ter propriamente uma posição de imediata continuidade. É que os postos de trabalho que aqui estão, que foi algo que da nossa parte (município) foi intransigentemente defendido nas condições da instalação, de que prioritariamente devia ser a população desta nossa área a serem aqui colocados. Há um conjunto significativo de pessoas que já sabemos que receberam a nota de que terminou o seu contrato de trabalho, é uma preocupação. Quando há algum desfasamento entre o fim e o início é porque está em curso um processo do que a seguir vier a acontecer, e aí devo dizer que, do que vou sabendo, quem cá está teria um projeto de transição em que algumas dessas coisas seriam minimizadas. Esperemos bem que das entidades envolvidas, neste caso ao nível da empresa e ao nível do Governo, seja encontrada uma solução em que o problema quer económico, quer das pessoas – pois é importante perceber que o bem-estar das pessoas passa por terem ou não terem a sua vida normal. E há muita gente aqui a trabalhar que ainda está longe de dizer que a reforma está aí já à porta.

Falou de algumas reivindicações, entre elas o “ovo” e a ponte de Tramagal…não foi tudo cumprido?

A ponte do Tramagal não entrou neste projeto, mas esta que aqui está foi exatamente, por um lado toda a eletrificação da via, desde o Entroncamento, que acabou por significar na prática a eletrificação da linha da Beira-Baixa, mas que serviu a remodelação na zona aqui de Mouriscas para permitir a interseção do comboio à ponte. A ponte foi construída no âmbito desse projeto, não foi uma obra nossa, mas que foi depois entregue, a área da ponte rodoviária com responsabilidade local, a área do que é a passagem do comboio com aquilo que é o transporte do carvão da responsabilidade de quem está a explorar esta unidade. Mas essa obra foi uma consequência da instalação da central. A do Tramagal era exatamente a manifestação do nosso desejo que outros interesses que existem também no concelho não deixarão de ser apreciados para que ela se concretize.

Estamos a chegar ao fim do ciclo, a 30 de novembro encerra a produção de eletricidade a partir do carvão, 28 anos depois de ter iniciado aqui no Pego, qual é o sentimento que tem ao olhar para todo este percurso que acompanhou desde os primórdios e se acha que já devia estar preparada a continuidade desta central, mesmo com o fim anunciado do carvão?

Era desejável de que quando algo termina, mas há que continuar, isso estivesse perfeitamente definido. Mas é um processo complexo pois por um lado são as exigências climáticas que hoje estão absolutamente na ordem do dia, mas também a solução. A empresa que cá está, entre os próprios acionistas fica claro que não estão tanto de acordo relativamente ao passo seguinte, e, portanto, é algo efetivamente muito complexo, mas que em termos de cidadão, vejo com muita preocupação, face aos muitos milhões que aqui estão instalados em infraestrutura. Naquilo que nos pareceu como projeto viável, aproveitaria no essencial tudo o que já está instalado, enquanto que provavelmente daquilo que nos foi anunciado como proposto, noutro sítio terá que ser construído de raiz. Com as consequências quer patrimoniais quer em termos sociais, nomeadamente as muitas pessoas que têm aqui muitos anos de trabalho, e muitas pessoas com qualidade e competência técnica que não se podem desperdiçar. Quer esta nossa zona quer o país tem que saber cultivar e cuidar dos valores que cá temos. Muita gente diz que Portugal é Lisboa, o resto é paisagem… o Pego que é rico em tradições, mas gente que viva só em Lisboa, se se falar no Pego associam logo à Central do Pego. É o maior centro electroprodutor do país.

António Gomes Mor, vereador à época na Câmara de Abrantes, acompanhou a primeira reunião de trabalho para instalação da central a carvão no Pego, no dia 14 de junho de 1985. Foto: mediotejo.net

Qual é a sua expectativa relativamente ao futuro da central do Pego?

Vivendo os anos que vivi neste conjunto de preocupações, devo dizer-lhe que não obstante as dificuldades, sou daqueles que acredito que todos temos de trabalhar para um Portugal melhor, começando, naturalmente, neste nosso pequenino território. E a expectativa é que aquilo que está a ser promovido, primeiro é importante que todos tenham em consideração que aquele ponto que ali está de entrada/entrega de energia para a rede é uma riqueza absolutamente fundamental que não pode ser desperdiçada. E, portanto, todos os envolvidos neste processo – acredito que se chegará a bom termo –  todos terão como objetivo primeiro a sociedade, as pessoas e o país, e que fiquemos todos a ganhar com o que daqui vier a resultar.

Central Termoelétrica do Pego. Foto: mediotejo.net

Central Termoelétrica do Pego – O fecho da última central a carvão do país

A central termoelétrica da Tejo Energia é atualmente a única central a carvão em operação no país, em sequência do encerramento da central de Sines da EDP em janeiro, tendo o Governo decidido que a sua atividade deveria terminar até 30 de novembro de 2021, apesar do projeto de continuidade apresentado pela Tejo Energia ter sido entregue ao governo, a pedido deste e em devido tempo, tendo o mesmo sido rejeitado e o governo decidido lançar um concurso público.

O futuro da Central, que passará por uma reconversão para um ‘cluster’ de produção de energias verdes, vai ser decidido em janeiro de 2022, depois do adiamento dos prazos previstos no concurso público que o Governo lançou em setembro para concessionar aquele ponto de injeção na rede elétrica nacional.

Em causa, está a central da Tejo Energia, uma ‘joint-venture’ entre a TrustEnergy, com uma participação de 56,25%, e a Endesa Generación, com 43,75%. Esta é uma das centrais que se manteve com CAE, incentivo à produção que foi substituído pelos Custos de Manutenção do Equilíbrio Contratual (CMEC).

Os acionistas maioritários da Tejo Energia têm reiterado que o Governo levou a leilão um bem que lhes pertence por direito e entregaram uma providência cautelar no Tribunal de Leiria contestando o procedimento, bem como uma ação paralela em que é pedida uma indemnização de 290 milhões de euros ao Ministério do Ambiente.

A Tejo Energia é detida pela TrustEnergy (56%), um consórcio constituído pelos franceses da Engie e os japoneses da Marubeni, e pela espanhola Endesa (44%), empresas que exploram a central localizada em Pego, a 150 quilómetros de Lisboa, sendo o maior centro produtor nacional de energia, com uma potência instalada de 628 megawatts (MW) na central a carvão, e que irá cessar as operações até final de novembro, e de 800 MW na central a gás, que prosseguirá em atividade até 2035.

Fotos e multimédia – David Belém Pereira

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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