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Domingo, Julho 25, 2021

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Reportagem: O que se passa nas urgências pediátricas de Torres Novas?

O que fazer quando a febre dos mais novos não baixa ou estes se magoam de forma inesperada? Confia-se no Sistema Nacional de Saúde e ruma-se à urgência pediátrica mais próxima. A questão é quando a solução se transforma num novo problema. O mediotejo.net acompanhou algumas famílias na unidade hospitalar de Torres Novas e deparou-se com um cenário de quatro horas de espera a tentar entreter uma criança doente – o que levou muitos pais a seguirem dali para serviços de saúde privados. A situação pode agravar-se numa data simbólica: o próximo Dia da Criança. A Comissão de Utentes de Saúde do Médio Tejo, reunida ontem de emergência, teme o encerramento desta unidade. A administração do Centro Hospitalar nega essa possibilidade mas reconhece problemas agravados, na última semana, devido a uma “afluência anormal às urgências”.

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Ter crianças é um “full-time” que muitas vezes exige horas extra de dedicação, sobretudo quando surgem as doenças típicas daquelas idades. Sai-se de casa à pressa na esperança de resolver o problema no local mais indicado, a urgência pediátrica. No entanto, o significado de “urgência” perde o sentido após horas intermináveis de espera em que os familiares tentam conciliar preocupação, paciência e soluções de entretenimento para os mini-utentes queixosos.

O mediotejo.net decidiu acompanhar as famílias que se depararam com uma mudança inesperada no programa de domingo e a passagem pela urgência pediátrica do Centro Hospitalar do Médio Tejo (CHMT). Um cenário que pode agravar-se se for confirmado o agravamento das condições de trabalho neste serviço no próximo Dia da Criança, 1 de junho, o que motivou a realização de uma reunião urgente da Comissão de Utentes de Saúde do Médio Tejo nesta terça-feira, dia 17 (ver caixa, no final do texto).

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Chegamos por volta do meio-dia e os poucos carros estacionados no parque em frente à entrada do serviço de urgência do hospital de Torres Novas, que integra o CHMT juntamente com as unidades de Abrantes e Tomar, prenunciam uma sala de espera calma devido à proximidade do almoço. Uma vez dentro da urgência pediátrica depressa tomamos consciência de que estávamos enganados.

A doença não escolhe horas e dois terços dos bancos azuis estão ocupados pelos familiares de cerca de 10 crianças. Umas rosadas pela febre nos colos dos pais a pedirem o mimo a que de direito, outras aparentemente saudáveis a brincar com o que encontram, duas mesas com tamanho pensado para elas, mas vazias de brinquedos.

Entre as chamadas para a triagem, ouvimos uma mãe que acompanha a filha adolescente dizer estar ali desde as 10h00. Pelo que percebemos é o caso mais antigo e refere que não têm chamado para consultas. O tempo vai passando, a queixa confirma-se e os relatos enchem a sala, tal como os novos casos que vão chegando. Em média, os presentes estão ali há cerca de uma hora, um cenário “aceitável” quando comparado com as histórias que se ouvem sobre os tempos de espera na urgência “dos adultos”.

Quando a média dobra e o número de chamadas se mantém nulo os mais pequenos começam a ficar impacientes. Um pai recorre à exibição de desenhos animados no telemóvel para entreter o filho de três anos, uma avó dá mimos à neta irrequieta com a mesma idade e uma mãe mostra os personagens da Disney pintados no corredor à bebé que tem no colo. Tudo serve para tentar aliviar a espera de miúdos e graúdos, sobretudo dos pequenos doentes que, de tempos a tempos, juntam o choro aos sintomas que os levaram ali num dia soalheiro, privando-os dos baloiços.

Nova hora volvida e três chamadas para consultas depois, o quadro de avisos que alerta para o risco de “infeções cruzadas” deixa de fazer sentido. As recomendações apenas servem aos pais das crianças cuja moleza evita a vontade de explorar o espaço. A mãe com a filha adolescente, visivelmente combalida, continua à espera e a fome começa a chegar, levando ao surgimento de pacotes de bolachas e iogurtes que alguns comem e outros recusam.

Quem não trouxe a “merenda” de casa tem por perto a máquina de snacks da entrada e as suas sugestões de bolachas digestivas, sandes, bolos e bebidas de lata. O mais próximo de uma refeição infantil são os sumos de palhinha, tipo néctar. Perante a oferta, uma mãe arrisca ir almoçar fora com o filho de seis anos, regressando cerca de uma depois e confirmando ter tomado a decisão acertada, uma vez que o nome do rapaz ainda não foi chamado nos altifalantes.

A mãe e a filha adolescente já abandonaram a sala, que se encontra mais vazia. Não porque outros doentes desta urgência tenham sido chamados para os dois únicos gabinetes em funcionamento (1 e 2), mas devido ao facto de alguns pais terem seguido o conselho da mãe que pegou na filha e deixou o “recado” de que iriam seguir para o hospital S. João Baptista da Santa Casa da Misericórdia, no Entroncamento.

Na meia hora que se seguiu foram chegando novos casos. Registámos mais de 20 diferentes enquanto ali estivemos, e chamaram duas crianças, levando uma mãe a desabafar que já tinha tido tempo de ir ao Entroncamento e regressar para ali caso a mandassem.

Contactada pelo mediotejo.net, a diretora do Serviço de Urgência do CHMT, Ana Rita Cardoso, disse existir uma “afluência anormal” às Urgências das três unidades do centro hospitalar, situação que originou um aumento do tempo de espera nos casos menos graves. “Tivemos uma média de 440 casos na Urgência, na última semana, valores inusitados quando comparados com o período homólogo de 2015, e mais do que seria expectável para o mês de maio. Em Torres Novas, na segunda-feira, chegámos a ter 120 utentes em espera, dos quais 21 eram doentes urgentes. Os outros, que muitas vezes poderiam ver o seu problema resolvido em centros de saúde, chegaram a ter de esperar 5 e 6 horas”, referiu. “São números anormais para este mês”, vincou.

Quando regressamos ao parque de estacionamento já passa das 16h00. Nesta altura, o alerta para as “infeções cruzadas” transformou-se num mero elemento decorativo da sala de espera devido ao aumento da cumplicidade entre crianças, que começam a partilhar brincadeiras e possíveis vírus. O nosso “programa de domingo” terminou por aqui, mas não para aqueles que lá ficaram e enchem os bancos azuis quase na totalidade.

Alguns desistirão da espera motivados pela urgência de ter a resposta médica para a situação dos filhos que foram procurar no hospital público que assegura a especialidade de Pediatria numa área geográfica superior a 2.700 km2. Para segundo plano é relegado o facto de recorrerem a uma unidade hospitalar sem esta especialidade ou a um médico privado, independentemente de terem pago os impostos que lhes garantem o direito ao Serviço Nacional de Saúde.

O cenário fala por si e é para ele que, por estes dias, se devem preparar os pais das mais de 47.000 crianças que, de acordo com os dados dos Censos de 2011, existem nos 15 concelhos da área de influência direta e indireta do CHMT. Só no ano passado foram atendidas no serviço de urgência 37.528 crianças.

Urgências pediátricas em risco? 

 

 

Por Mário Rui Fonseca

Manuel José Soares, porta-voz da Comissão de Utentes da Saúde do Médio Tejo (CUSMT) disse ao mediotejo.net que “existem fortes indícios de rutura do Serviço de Urgência Pediátrica”, instalada em Torres Novas, “devido à falta de médicos especialistas” e que hoje se reflete em “dificuldades de funcionamento”.

“Ironia das ironias, o serviço pode deixar de funcionar no dia 1 de junho, Dia Mundial da Criança, por falta de profissionais médicos”, alertou o dirigente, tendo observado que “a situação, a manter-se, pode colocar em causa o próprio internamento pediátrico em Torres Novas e ser transferido para Abrantes, como alguns setores defendem”, e que os dois serviços pediátricos mais próximos, em Leiria e Santarém, “não servem os interesses da população do Médio Tejo”.

O responsável da CUSMT defendeu a “manutenção e alargamento dos serviços de pediatria às três unidades (Abrantes, Tomar e Torres Novas) e disse ainda que a falta de médicos “é transversal à maioria dos serviços do CHMT”, tendo afirmado que os utentes que representa “apoiam e defendem todas as diligências que quem de direito venha a tomar no sentido de dotar o CHMT de mais profissionais médicos para as diversas especialidades”

Em comunicado, o conselho de administração do Centro Hospitalar do Médio Tejo afirma “estranhar” a indicação de risco de fecho da Pediatria, assegurando que “não está, nem nunca esteve, previsto o fecho” desse serviço. Ao mediotejo.net, o CHMT reafirma existirem 12 pediatras colocados nos três hospitais mas admite, contudo, existirem algumas dificuldades: “Apesar da abertura de vários concursos para a contratação de pediatras, o que realmente acontece é que alguns, decorrido algum tempo, acabam por sair, não se fixando no Médio Tejo.”

Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

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2 COMENTÁRIOS

  1. Engraçado, das imagens que se vêm da Assembleia da Republica, gabinetes de ministros e forma de vida dessa gente, não se vê a mesma falta de recursos com que se debatem hospitais, esquadras, escolas, etc… estranho não é ? Talvez não… talvez seja tudo normal. Toca mas é a celebrar o campeonato de futebol.

  2. A Urgência pediatria é uma palhaçada. das 19 as 21h nem chamam nenhuma criança para os gabinetes médicos pois os senhores doutores têm todos 2h de refeição e têm de comer todos ao mesmo tempo, coitados devem ter medo k alguem os coma.

    vergonha essa urgência pediatria… deixarem uma criança com 40º de febre sair

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