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Reportagem | Número de ingleses a viver na região disparou antes do Brexit: “Esta é a nossa nova casa, agora”

Tomar, Ferreira do Zêzere, Vila de Rei, Sertã… há cada vez mais britânicos a viver na região e, nos últimos meses, rara era a semana em que não chegava mais uma família, de armas e bagagens. Fomos conhecer alguns destes ingleses “in love” com o Médio Tejo, onde, com o Brexit a impulsionar a mudança, decidiram fazer um “fresh restart”.

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O número de britânicos em Portugal duplicou nos últimos quatro anos: passaram de 17.230 para 34.340 residentes. São a maior comunidade estrangeira residente em Tomar, Ferreira do Zêzere, Sertã, Vila de Rei e Mação, segundo os dados mais recentes do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, mas que ainda não reflectem os dados de 2019, como explica o investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, Pedro Góis.

Os números, diz, serão muito superiores. “Há um atraso de oito meses entre a chegada [de novos cidadãos britânicos] e a definição do processo. Portanto, todos os que em janeiro do ano passado pediram ao SEF para se regularizarem podem não estar nestas estatísticas, e os de dezembro não estão seguramente”, disse esta semana ao jornal Público. Apontando no mapa os principais pontos de concentração destes britânicos recém-chegados a Portugal, a mão do investigador dirigi-se, além de para o Algarve, para a região Centro, “onde a terra é muito barata para eles”.

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Fomos conversar com algumas destas famílias nas suas novas casas portuguesas. Aqui, dizem, voltaram a encontrar os valores humanos que viram evaporar de Inglaterra. Aqui vivem um dia de cada vez, saboreando o tempo de outra forma. Trocaram a agitação da capital londrina pela serenidade da paisagem bucólica portuguesa, as filas de trânsito intermináveis pelo acordar com o chilrear dos passarinhos e hoje sentem que conquistaram mais qualidade de vida, além do que mais ambicionavam: manter os mesmos direitos de um cidadão da União Europeia. Alguns admitem mesmo pedir a cidadania portuguesa. Daqui é que já não saem.

Belinda Raitt, Cardal (entre Tomar e Ferreira do Zêzere)
“Quero ficar aqui para sempre”

Belinda Raitt não quer mais sair da sua nova terra, o Cardal. Foto: Luís Ribeiro

O rosto sereno de Belinda Raitt, uma psicóloga e coach de desenvolvimento pessoal britânica, desvenda o seu estado de espírito atual. Foi acompanhada por uma chávena de chá no Café Santa Iria, em Tomar, que nos contou a sua inspiradora história de vida: começar tudo de novo, depois dos 45, sozinha, num país diferente.

A viver em Portugal desde agosto de 2018, está pronta para uma nova fase da sua vida, com a abertura do “RelaxScape”, um alojamento local com base no IKIGAI, uma filosofia japonesa de felicidade e bem-estar, cujas obras terminaram recentemente.

A história de Belinda conta-se por períodos temporais. Andou na Universidade na Escócia e depois tirou o curso de Psicologia em Londres onde ficou a trabalhar, mudando-se para Kent. “Há dez anos, abri o meu próprio negócio como coach, ajudando as pessoas a impulsionar os seus negócios. No fundo, a terem uma vida melhor”, explicou.

O início da mudança deu-se com o divórcio, após 20 anos de casamento, quando reparou que, mesmo depois de sozinha, continuava a fazer as mesmas coisas como se estivesse casada, mantendo as mesmas rotinas.

“Um dia questionei-me: mas porque é que continuo nesta vida? Eu agora posso mudar, não preciso de ficar no Reino Unido”, recorda. Sem filhos por opção, decidiu que estava na hora de fazer tudo aquilo que desejava no seu íntimo, mas que ainda não tinha feito porque o marido não concordava: mudar-se para um sítio longe do Reino Unido, tranquilo e onde estivesse rodeada por pessoas amigáveis e simpáticas. “Sou uma mulher de campo”, atesta a rir.

E como é que Belinda veio viver para esta região, mais concretamente para a aldeia de Cardal, no limite entre os concelhos de Tomar e Ferreira do Zêzere? De Portugal só conhecia Cascais e pouco mais. “Quando comecei o meu negócio de coach comecei a aperceber-me que as pessoas me chegavam muito stressadas, sem direção nas suas vidas e com muitas confusões mentais, a precisar de relaxar”, recorda. Foi então que teve a ideia de criar o RelaxScape, onde as pessoas conseguissem essa reconexão com o Eu interior, no meio da natureza. Portugal pareceu-lhe a melhor opção para implementar este projeto.

“Comecei a ter muito interesse pelos princípios do IKIGAI, uma filosofia de vida japonesa onde aprendemos como nos sentir melhor a cada dia, através das pequenas coisas, como apreciar a natureza, ser gentil para os outros, diminuir o ritmo… e foi por isso que criei o RelaxScape”, explica.

Antes de vir para Tomar, Portugal, ainda viu opções em França, mas não encontrou nada que a seduzisse. Depois viu na internet algumas casas em Portugal que lhe despertaram a atenção, nomeadamente em Ansião. Decidiu apanhar um avião e ver com os próprios olhos. Já não vinha a Portugal há 25 anos. Não gostou da casa de Ansião mas decidiu ficar mais uma semana para fazer nova prospeção ao terreno. Foi assim que chegou a Tomar e se apaixonou pelas ruas, pelas portas, pelo rio, pelo castelo e pelo campo.

“Disse: é aqui.” Para trás, deixou mais de 30 casas vistas. Não queria uma casa na cidade mas também não queria estar isolada, longe de tudo e todos, na floresta. O que encontrou no Cardal, entre dois concelhos do Médio tejo, pareceu-lhe perfeito. “Vim de Inglaterra para Portugal no meu carro, com os meus dois gatos e com tudo o que consegui trazer”, recorda a rir.

Belinda sintetiza numa frase o seu estado de espírito: “Ainda não parei de sorrir desde que cheguei aqui. Estou muito grata por tudo”

Foi assim que vendeu a casa e outros bens e deixou a família e amigos. Atualmente, por motivos de trabalho, ainda vai uma semana por vez a Londres, para estar presencialmente com os seus clientes. Mas quer que eles passem a vir ao “RelaxeScape” em Portugal.

A integração na comunidade foi boa. Belinda diz que os vizinhos – já conhece quase toda a gente no Cardal – são muito simpáticos e a acolheram muito bem. “Tinha que o fazer em 2019 por causa do Brexit, apesar de toda a gente me desencorajar, porque ninguém sabe o que vai acontecer… Mas pensei que se não fosse agora nunca mais o faria”, refere.

“No dia em que ouvi falar sobre o Brexit no radio, chorei. De forma espontânea. Não sei bem o que vai acontecer. Não consigo compreender porque obviamente trabalhamos melhor se estivermos juntos e unidos”, considera. Mas foi o Brexit que fez com tivesse a coragem de tomar uma decisão que vinha adiando. “Já andava a ponderar há muito tempo e o Brexit impulsou-me a fazê-lo mais depressa”, reconhece.

Ainda a aprender a falar a língua portuguesa – anda com um CD no carro para treinar – considera que esta é uma barreira que vai ultrapassar. “Os meus vizinhos não falam inglês e entendemo-nos muito bem.”

Em relação a Tomar, a primeira impressão foi a de que era uma cidade com uma grande vibração emocional e uma luz muito própria. “Numa das semanas que vim havia a festa Templária, música nas ruas, muita vida”, recorda.

Belinda Raitt, na sua casa no Cardal. Foto: Luís Ribeiro

Também já conheceu muitos ingleses que moram na região. Em relação às diferenças culturais está a ser muito gratificante descobrir tudo. “As pessoas são muito atenciosas e parecem muito mais felizes do que as pessoas do Reino Unido. Não sei se é do sol ou da comida, mas parecem”, diz.

“As pessoas são muito atenciosas e parecem muito mais felizes do que as pessoas do Reino Unido. Não sei se é do sol ou da comida, mas parecem”

No Cardal, a propriedade de Belinda fica mesmo perto da estrada principal e tem um grande quintal onde se destaca um grande olival e uma horta com várias culturas. A paisagem estende-se até ao horizonte. Vegetariana, prefere cultivar o que come e é isso que também quer promover a quem fica no seu alojamento local, proporcionando aos ingleses que aqui venham um estilo de vida diferente do que conhecem. “Sozinha, apanhei 1.500 quilos de azeitonas em novembro”, recorda a rir.

Belinda sintetiza numa frase o seu estado de espírito: “Ainda não parei de sorrir desde que cheguei aqui. Estou muito grata por tudo. Quero ficar aqui para sempre. Esta é a minha casa agora.”

Mindi Pettefar e Ahmad Garnavipour, Maxial, Tomar
“O Brexit foi o empurrão que precisávamos para vir para Portugal”

Mindi Pettefar e Ahmad Garnavipour, vivem agora em Maxial, Tomar: Foto: Luís Ribeiro

Chovia quando chegámos à pequena localidade de Maxial, na freguesia de Madalena-Beselga, a poucos quilómetros de Tomar. Não foi fácil encontrarmos a casa de Mindi Pettefar e Ahmad Garnavipour, um simpático casal de britânicos que decidiu trocar Inglaterra por Portugal. Ligámos e vieram esperar-nos na estrada. Assim que viram o carro acenaram-nos como se fossemos velhos amigos.

Entramos na casa térrea de habitação, com um bonito jardim no exterior, e somos brindados com a calorosa receção de Shadow e Preya, os dois cães da família. Na apresentação, ali na sala em dois grandes sofás, Mindi, que se prepara para dar dali a pouco uma aula de inglês on-line – é assim que consegue para já algum rendimento – começa por dizer que o mais difícil são mesmo as saudades dos filhos, que permanecem no Reino Unido.

Questionámos então quem eram as duas jovens que estavam por ali, em sua casa. “São jovens de vários países europeus que estão a frequentar o programa ‘Work Away Volunteer’ e trocam alojamento por tarefas domésticas ou no jardim. Trabalham cerca de 5 horas por dia e damos-lhe alojamento e comida”, revelam.

A britânica, hoje com 50 anos, nasceu no sul de Inglaterra, em Salisbury, perto de Stonehenge. Estudou Direito mas trabalhou como professora de ensino primário e chegou a gerir uma mercearia. Nas voltas que a vida dá, decidiu mudar de vida e o Brexit acabou por ser empurrão final para tomar a decisão que há muito povoava a sua mente.

“Estava infeliz com o tipo de vida que levava, dormir e trabalhar, dormir e trabalhar. E o dinheiro nunca chegava para fazer outras coisas. Tinha apenas um pequeno jardim e sempre sonhei em ter um sítio grande, para ter plantas, árvores de fruto e animais. Então, quando o Brexit surgiu, acabei por tomar a decisão, porque Inglaterra tornou-se um país feio demais para viver, com muitas divisões na sociedade e onde se sente um racismo declarado e xenofobia. Já não era o tipo de sociedade onde queria viver”, conta Mindi.

Foi assim que chegou a Portugal, em setembro de 2017, mais concretamente a Tomar, cidade templária onde nunca tinha estado antes. Ela, o namorado e os cães. “Cheguei aqui porque estava a ver casas online e, não sei como, fui parar a um site que apresentava imóveis em Portugal. Vi que as casas eram grandes, com jardins e espaço para árvores de fruto, e que os preços eram muito atrativos. Foi assim que comecei a fazer planos. O Brexit foi o empurrão que precisávamos”, recorda.

“Não concordamos com o Brexit porque estar na Europa é estar em unidade com outros países e sentir que mais de 50% do Reino Unido desejava sair da Europa… fez-nos querer a nós sair”

“Gostei da maneira de ser e de viver dos portugueses. Não queria viver numa grande cidade mas também não queríamos ficar isolados. Começamos por ver casas em Coimbra e numa das visitas, com uma agência imobiliária, disseram-nos que devíamos ver Tomar. Viemos e ficámos encantados”, disse.

O marido acena que sim. “Ficamos logo apaixonados. É tão calmo e autêntico. E a história por detrás desta cidade é fascinante. Vimos Coimbra, Castelo Branco e Figueiró dos Vinhos, mas quando chegámos a Tomar não tivemos quaisquer dúvidas que era aqui que queríamos ficar”, conta Ahmad.

Ahmad Garnavipour, que trabalhava como segurança e depois como funcionário num supermercado, concordou de imediato com a decisão da companheira. “Pensávamos vir em 2018 mas decidimos antecipar porque tornou-se insuportável enfrentar o dia-a-dia. O ambiente tornou-se pesado. Não concordamos com o Brexit porque estar na Europa é estar em unidade com outros países e sentir que mais de 50% no Reino Unido desejavam sair da Europa… fez-nos querer a nós sair.”

Ahmad Garnavipour, ma sua nova casa, em Tomar. Foto: Luís Ribeiro

“O nosso maior desafio foi mesmo pensar em como iríamos mudar de país e subsistir financeiramente em Portugal. Ao contrário de muitos ingleses que aqui moram, não temos pensões. Então decidimos converter a Adega que existia na casa num alojamento local”, explica Mindi. As obras estão praticamente concluídas e será daqui que vão tirar algum rendimento, além das aulas de inglês que Mindi dá online.

O alojamento pretende receber hóspedes de todas as nacionalidades, que aqui podem ver “o Portugal real”. Compraram galinhas e esperam ter ovos em breve. “Queremos plantar os nossos próprios legumes, ter árvores de fruto e integrar-nos na comunidade. Os vizinhos são maravilhosos, mesmo sem falar inglês, entendemo-nos”, atestam.

A mudança definitiva para o nosso país aconteceu em setembro de 2017. “Vendemos tudo. Metemos os nossos poucos pertences numa pequena caravana e conduzimos até aqui”, referem a sorrir. O principal motivo foi mesmo vir ao encontro de um estilo de vida mais calmo.

Vegetarianos, a gastronomia portuguesa é ainda um desafio porque não há muitos restaurantes onde possam comer. A língua também não é fácil, reconhecem, mas querem aprender. Até lá, recorrem ao tradutor do Google para perceber muita informação ou esclarecer dúvidas com os amigos.

“Há um verdadeiro espírito de comunidade. Aqui as pessoas cuidam umas das outras. Muitas vezes, chegamos a casa e temos um saco de vegetais à porta, deixado por alguém”

Mindi refere que foi fácil a adaptação aos hábitos culturais dos portugueses e que até se identifica mais com Portugal do que com Inglaterra. “Há um verdadeiro espírito de comunidade. Aqui as pessoas cuidam umas das outras. Muitas vezes, chegamos a casa e temos um saco de vegetais à porta, deixado por alguém”, atesta.

O casal também aprecia muito a herança histórica da cidade templária, tendo ficado deslumbrado com o Convento de Cristo e com a beleza da barragem do Castelo de Bode.

Mindi e Ahmad estão satisfeitos com a decisão de terem vindo para cá. “Estamos muito tranquilos, muito felizes e muito pobres”, dizem a rir.

Em relação ao Brexit, Mindi confessa sentir alguma apreensão e que especialmente a sua mãe, de 79 anos, está muito preocupada. Também receia pelos filhos, que continuam no Reino Unido. No entanto, confia que nas suas vidas após o Brexit acontecer não haverá grandes alterações, até porque existem boas relações entre Portugal e Inglaterra.

“Não queremos sair daqui. Já temos bons amigos, portugueses e ingleses, e sentimos que esta é a nossa verdadeira casa”, confirmam, num olhar cúmplice.

Cá fora, depois da conversa terminar, mostram-nos o jardim e os animais, cães, gatos e galinhas. Gostavam ainda de ter cabras, para ajudar o fertilizar os solos. Mesmo com chuva, ali sente-se o calor de quem não se importou de recomeçar do zero uma vida nova.

“Não podíamos estar mais felizes, apesar das saudades da família. É assim que queremos viver. É aqui que nos sentimos bem.”

Paul e Susan Verdeyen, Pai Cabeça, Tomar
“Aqui encontramos os valores humanos que desapareceram de Inglaterra”

Paul Verdeyen com a sua burra Lola, em Tomar. Foto: Luís Ribeiro

Lola. Assim se chama a pequena burra que encontramos no exterior da casa de Paul e Susan Verdeyen. É a última que existe na pequena aldeia de Pai Cabeça, na freguesia de Serra-Junceira, em Tomar. Por ali também têm dois cabritos, patos e muitas galinhas. Todos têm nome.

O casal de britânicos recebe-nos como se fossemos velhos amigos e leva-nos para o jardim, onde conversamos à beira da piscina.

É ali que está a nascer o seu projeto de Alojamento Local que irá acolher hóspedes de todo o mundo, nomeadamente na altura em que acontecem iniciativas culturais na região, como a Feira do Cavalo na Golegã, a Festa dos Tabuleiros ou a Festa Templária de Tomar.

Susan Verdeyen conta que se mudaram para Portugal no início de dezembro de 2016. Viviam em Herefordshire, no centro de Inglaterra. O marido geria um negócio e ela era responsável por um Departamento de Agricultura e já falavam em vir para Portugal, mas tinham que tomar conta dos pais de Susan. Quando estes faleceram decidiram que estava na hora de fazer o que desejavam.

A escolha de Portugal foi fácil porque, de todos os países que visitou, foi o que gostou mais. “Não consigo explicar em palavras. Há qualquer coisa de especial neste país. Apaixonámo-nos por ele. As pessoas são maravilhosas, o modo de vida é tranquilo. Sinto-me aqui muito bem”, diz.

A britânica, de 59 anos, conta que sente que a Inglaterra é um país muito conturbado e está sobrecarregado de gente. “Mesmo antes do Brexit, sentia-se muita angústia e as pessoas zangadas. Queríamos ter mais qualidade de vida. Detesto o clima em Inglaterra, sempre detestei. Adoro assistir ao pôr do sol. E para falar a verdade, o nosso dinheiro rende mais em Portugal do que em Inglaterra. Não conseguíamos comprar uma propriedade como esta em Inglaterra. Aqui conseguimos ter uma vida melhor”, diz.

Para o casal foi fácil tomar a decisão de largar tudo e mudar de ares. Coisas são coisas. “Queríamos recomeçar de novo. A fresh restart. Trouxemos apenas o essencial.”

Paul, de 67 anos, refere que aqui encontraram valores. Valores de vida que em Inglaterra, na sua opinião, já se tornam difíceis de encontrar. “Aqui temos mais qualidade de vida. Aqui há um espírito de comunidade, e isso é importante. E isto ajuda (aponta para o sol). E temos vizinhos maravilhosos, todos já de idade”, atesta.

Quando Paul conheceu Susan, há 15 anos – estão casados há cinco e não têm filhos em comum – disse-lhe logo que gostava de viver em Portugal. E ela, que nunca tinha cá estado, disse que não se importava. Estiveram em férias no Algarve e ele pediu-lhe para que dali a duas semanas, no final das mesmas, ela lhe respondesse se conseguia viver cá.

Ao fim de dois dias, a resposta foi sim. Mas sentiram que o Algarve não era o local. Alugaram um carro e fizeram-se à estrada para o norte. Foram ver casas em Pombal, mas não encontraram nenhuma adequada aos seus planos e, como também não podiam ainda mudar, foram-se mantendo atentos ao que viam na internet.

Quando os pais de Susan morreram, voltaram aos planos. “Marcámos uma estadia em Arganil e o Paul disse-me para irmos até Tomar visitar uma agência imobiliária com quem já tínhamos contactos. No dia em que fomos a essa agência, enquanto andávamos reparámos que no chão havia uma cruz templária e achamos aquilo maravilhoso. Era aqui que queríamos ficar”, conta Paul.

Susan e Paul Verdeyen, na casa que recuperaram em Tomar
Foto: Luís Ribeiro

“Não sabíamos nada de Tomar e depois, quando vimos esta casa, dissemos: Uau…”, recorda Susan. Foi assim que encontraram o refúgio onde hoje vivem. Ainda viram outras casas, mas a primeira foi a que ficou no seu coração. O grande jardim e a vista contribuíram para a decisão.

“Não sabíamos nada de Tomar e depois, quando vimos esta casa, dissemos: Uau…”

Os dois tiveram sempre uma vida muito ativa e aqui continuam a mexer-se muito. “Uma vida calma não nos estimula. Temos sempre muito que fazer. Temos esta idade, mas, por dentro, sentimos que somos muito jovens”, conta Paul.

O casal de britânicos mostra-nos a sua grande horta, onde se destaca a estufa, um método que Susan domina. Não são vegetarianos porque comem peixe, mas fazem questão de cultivar os seus próprios vegetais. “Tudo o que produzimos é em modo biológico, sem aditivos, e vamos vender ao mercado”, explica Susan. Também produzem o seu próprio azeite.

Paul e Susan já se sentem integrados na comunidade portuguesa. Rotina é palavra que não existe. Recebem muitos amigos em casa e vão as muitas festas populares, em Olalhas e Ferreira do Zêzere, por exemplo. Não têm um estilo eremita.

Para já, o rendimento que auferem provêm da reforma de Paul mas também confessam que não precisam de muitos bens materiais. “Reciclamos muito, eu costuro e reaproveitamos muita mobília antiga que a casa tinha. Não temos muitas necessidades materiais. Apenas queremos ter uma boa vida e sentir que estamos integrados na comunidade”, refere Susan.

A única critica que fazem é em relação à falta de divulgação dos eventos culturais. Muitas vezes só sabem o que vai acontecer pouco tempo antes do acontecimento e, desse modo, não os podem divulgar no twitter. “Há tantos eventos que acontecem em Tomar que penso que se devia apostar numa divulgação anual desses eventos até para podermos divulgar e apelar os nossos amigos a vir”, refere Susan.

Deixamos o Brexit para o fim da entrevista. “Agora vai aborrecer-me”, brinca Paul.

No dia em que o Brexit foi anunciado já tinha decidido comprar a casa em Portugal e contactou os advogados e a agência imobiliária a avisar que ia manter a sua ideia. “O Brexit é uma ideia simplesmente estúpida e doida. Devemos fazer parte da Europa”, afirma, convictamente.

O casal não está preocupado com o seu futuro e confia no Governo Português, ainda mais quando existe uma forte ligação entre Portugal e Inglaterra. “Não queremos sair daqui. Este país tem os valores de vida que desapareceram de Inglaterra. É aqui que nos sentimos bem e é aqui queremos ficar para sempre. Um dia vamos morrer aqui e vão lançar as nossas cinzas neste jardim.”

Phillipe e Louise Morris, em Melriça – Vila de Rei há 8 meses
“Enough is Enough”

Phil e Louise Morris, em Vila de Rei. Foto: Luís Ribeiro

Foi quando um amigo muito querido e chegado faleceu, aos 49 anos, que Phillipe (Phil) e Louise sentiram, no seu íntimo, que tinham que mudar de vida.

Em Melriça, Vila de Rei, com a serra a emoldurar a paisagem, recebe-nos este casal de Cambridge. Phil comprou esta casa há 12 anos mas só aqui vivem de pedra e cal há alguns meses. “Basicamente decidimos vir, em parte por causa do Brexit e em outra por causa de questões de saúde”, conta o britânico, que trabalhava como químico industrial numa grande multinacional.

Louise dirigia um Departamento de Educação numa Universidade. A conversa decorre no jardim e temos como companhia os cães da família, que também pedem para ficar nas fotos. Louise tenta controlá-los, afagando-lhe o pelo.

“Em Cambridge, trabalhava, trabalhava, trabalhava. Passava a minha vida a viajar em trabalho pelo mundo e decidimos que estava na hora de parar com aquilo. ‘Enough is Enough’”, reforça Phil, de 55 anos.

“Temos esta casa há 12 anos. Já vínhamos cá duas vezes por ano em férias, e cada vez tínhamos menos vontade de voltar ao Reino Unido. Um dia, decidimos não voltar mesmo”, conta Phil, que comprou a casa em Melriça depois de pesquisar muitos imóveis na internet.

Não queria ir para o Algarve, queria algo mais tranquilo, e sentiu que tinha que continuar a subir no território, para norte, até encontrar o que realmente desejava.

Não obstante ter um bom emprego em Inglaterra, despediu-se, recebeu o que tinha direito e investiu na compra da casa. “Foi uma questão de fé encontrar esta casa aqui em Vila de Rei. Eu andava à procura de um lugar relaxante e esta propriedade estava sempre a aparecer no ecrã do computador, mesmo em diferentes websites. Acho que já tinha que ser minha”, recorda.

“Foi uma questão de fé encontrar esta casa aqui em Vila de Rei. Eu andava à procura de um lugar relaxante e esta propriedade estava sempre a aparecer no ecrã do computador, mesmo em diferentes websites. Acho que já tinha que ser minha”

Na altura em que comprou a casa em Portugal, Phil ainda nem sequer conhecia Louise. A decisão foi, por isso, exclusivamente da responsabilidade dele mas ela, que casou com Phil há 5 anos, também andava à procura de mais qualidade de vida, e concordou com tudo. Ambos são filhos únicos e não têm filhos em comum. Phil tem um filho de um casamento anterior.

“Vim ver com os meus olhos e apaixonei-me, não só pela casa como por toda a área de Vila de Rei. A serra, os rios… é tudo muito bonito e tranquilo. Depois de comprar a casa aprendi muito sobre a história de Vila de Rei. Parece um lugar mágico, quase que envolvido numa bolha”, conta o britânico.

Louise ainda tem uma casa no Reino Unido, que está alugada e lhe dá algum rendimento, e Phil ainda trabalha, online, para uma das empresas no Reino Unido, estando a tentar encontrar projetos em Portugal para aplicar os seus conhecimentos como consultor.

“Ainda somos muito novos. Não queremos estar aqui só a relaxar. Aos poucos estamos a voltar ao trabalho e temos aqui muito que fazer na terra e com os animais. Temos cabras e galinhas”, diz, animado.

Têm o sonho ainda de construir no terreno da propriedade alguns pavilhões para agricultura e poder obter rendimento com isso.

Quando chegou, há 12 anos, era apenas Phil e o seu sonho. E como foi a adaptação a Vila de Rei? “Já temos mais amigos portugueses do que ingleses. A comunidade de Vila de Rei é muito afável, ajudam-nos em tudo o que precisamos. Viver aqui é sentirmo-nos em casa”, conta.

Phil diz que um dos motivos que o levou a deixar o Reino Unido definitivamente foi por sentir que já não existiam valores morais entre as pessoas. “Das primeiras coisas que me impressionaram aqui foi um dia, quando fui a uma festa popular, e vi um avô com um neto sentado nos seus joelhos. Era 1h da madrugada e todas as pessoas ainda se divertiam aquela hora… O Reino Unido transformou-se em algo muito feio, que já não me servia. Aqui há outra qualidade de vida.”

Louise Morris, com o seu setter irlandês, em Vila de Rei. Foto: Luís Ribeiro

Mais observadora do que faladora, Louise conta que ainda se está a adaptar à gastronomia do nosso país mas já não estranha dizer bom dia a todos os vizinhos com quem se cruza de carro ou a pé, na rua. “Um dia, numa aula de ginástica, alguém que nunca tinha visto pessoalmente cumprimentou-me pelo nome como se me conhecesse há anos! São todos tão acolhedores.”

Em relação à saída do Reino Unido da União Europeia, diz não se sentir preocupada. “Todas as pessoas me questionam: e agora? Mas a minha resposta é: ‘o que tiver que ser, será.’ Esta é a vida que queremos e escolhemos. Vamos continuar a viver em vez de nos preocuparmos com o que pode ou não acontecer”, diz Louise. “Não estou a ver o Governo português a expulsar-nos daqui, pelo contrário”, atalha Phil, que considera todo este processo uma “trapalhada”, mas diz que viriam viver para Portugal, com ou sem Brexit.

“Viajei por toda a Europa em trabalho e realmente não compreendo em que é que nos beneficiará esta saída. Vejo que há pessoas mais velhas que queriam que isto voltasse aos tempos de antigamente, mas o que sinto é que os mais jovens podem sofrer com essa decisão”, refere.

“Das primeiras coisas que me impressionaram aqui foi um dia, quando fui a uma festa popular, e vi um avô com um neto sentado nos seus joelhos. Era 1h da madrugada e todas as pessoas ainda se divertiam aquela hora… O Reino Unido transformou-se em algo muito feio, que já não me servia. Aqui há outra qualidade de vida.”

O casal não sente saudades do bulício da grande cidade e sente-se bem na calmaria do campo. Costumam ir a muitas festas populares nas redondezas. Gostam do clima, de sentir que há 4 estações do ano. Gostam, sobretudo, de não se sentirem escravos do relógio.

“No Reino Unido, é difícil encontrar a qualidade de vida que temos aqui. E mais importante são mesmo os valores morais que vemos existirem na comunidade”, sublinham. Voltar para o Reino Unido está fora de questão. É aqui que querem ficar para o resto da vida.

Natural de Tomar, apaixonada por viagens e palavras.

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