Reportagem | Novas regras e alguma ansiedade “num dia feliz” de regresso à escola em Sardoal

Arranque do ano lectivo 2020/2021 na escola de Sardoal. Créditos: mediotejo.net

A Escola E.B. 2,3/S Drª Maria Judite Serrão Andrade, em Sardoal, abriu portas na quinta-feira para voltar a receber os alunos do 1.º ao 12.º ano, jovens estudantes que regressaram assim ao ensino presencial, interrompido em março devido à pandemia de covid-19. O mediotejo.net esteve no local para perceber as novas regras implementadas e as inquietações da comunidade escolar.

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No novo ano letivo, que começou esta quinta-feira em Sardoal, professores, alunos e funcionários experimentam uma escola diferente, em relação aos anos anteriores, não só pelas obras no edifício escolar mas essencialmente pelo conjunto de regras e normas de funcionamento implementadas para ajudar a manter o ensino presencial, de preferência, o resto do ano.

Pais e encarregados de educação acompanharam os seus educandos mas ficam do lado de fora, ao portão, dando ânimo e a torcer para que tudo corra pelo melhor. Carregam caixas em formatos retangulares onde os materiais escolares vão ser guardados. A ideia é individualizar espaços e materiais para que os miúdos percebam a importância de evitar partilhas. Ninguém entra sem máscara, nem mesmo os alunos do primeiro ciclo, e sem desinfetar as mãos no dispositivo que se encontra junto à portaria.

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O uso de máscaras é obrigatório para todos os estudantes a partir do 5º ano de escolaridade, o distanciamento físico é conseguido nos diferentes espaços da escola, muito graças às turmas médias em número de alunos. Ações de higienização são frequentes e estão definidos circuitos de circulação, com pegadas coloridas a marcar o chão.

Arranque do ano lectivo 2020/2021 na escola de Sardoal. Créditos: mediotejo.net

“Hoje é um dia feliz!”, começou por afirmar ao mediotejo.net a diretora do Agrupamento de Escolas de Sardoal. “Porque a escola sem meninos não faz sentido e apesar de todos os medos e anseios que temos, estamos felizes por haver o regresso às atividades letivas”, disse Ana Paula Sardinha.

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As principais regras foram definidas pelo Ministério da Educação e pela Direção-Geral da Saúde (DGS), mas na organização e funcionamento das escolas a direção foi mais além.

Horários faseados, intervalos mais curtos e intercalados, ou turmas organizadas com salas destinadas a cada uma para evitar o contacto entre diferentes grupos foram algumas das soluções implementadas na escola de Sardoal.

“Adotámos uma série de regras no Agrupamento” que a diretora, em reuniões com todos os encarregados de educação, foi explicando durante esta semana no sentido de tranquilizar e sensibilizar para o atípico novo ano letivo.

“Temos turnos – para o 2º, 3º ciclo e ensino secundário -, alunos que vêm só no turno da manhã e outros só no turno da tarde” no sentido de reduzir o número de alunos em contexto escolar, indica. De acordo com Ana Paula Sardinha, após solicitação da escola “foi atendido pela autarquia, transportes escolares adaptados a estes turnos” para que os alunos tenham transporte para regressar a casa mal terminem o turno.

Arranque do ano lectivo 2020/2021 na escola de Sardoal. Créditos: mediotejo.net

Neste primeiro dia de apresentação, cerca das 09h00, pais e alunos alinhavam-se à entrada do estabelecimento escolar. A aglomeração de alguns pais obrigou a uma chamada de atenção por parte da Guarda Nacional Republicana que pediu que dispersassem após deixarem os filhos na escola. Situação que amanhã “já não irá ocorrer”, garantiu a diretora, justificando a atitude com a “ansiedade natural dos encarregados de educação” pela situação de pandemia e pelo regresso seis meses depois da escola ter encerrado.

Quanto a horários são vários, “com entradas diferentes dentro do 1º ciclo e também diferentes no 2º e 3º ciclo. Igualmente horários diferentes na hora de almoço garantindo que os grupos não se misturam. Temos por exemplo, os alunos do 1º ciclo recebidos por uma única assistente operacional, num espaço próprio para não se misturem com os outros grupos. Garantimos uma sala fixa, um lugar fixo por aluno, traçamos todos os circuitos. Em todas as salas há álcool gel, um tapete à entrada de cada sala para fazer a desinfeção e temos todos os planos de limpeza assegurados”, garante.

Para o cumprimento destas regras ao Agrupamento de Escolas de Sardoal foram assegurados mais assistentes operacionais.

Ana Paula Sardinha garante igualmente que “as distâncias dentro das salas estão asseguradas. Não os dois metros previstos”, admite, “mas um metro e meio a um metro. Porque não temos turmas muito grandes. A nossa maior turma, de secundário, tem 24 alunos e aí também conseguimos manter a distância” de prevenção devido à covid-19. As restantes turmas contam em média com 20 alunos.

A escola optou por intervalos “desfasados, apesar dos turnos. Achamos impensável que estando 6 horas na escola, não tivessem 5 ou 10 minutos de intervalo. Têm um espaço próprio onde devem permanecer no intervalo”, refere. No sentido de evitar concentrações de alunos nas casas-de-banho durante os mesmos, a prática passa por solicitar aos docentes que “os vão deixando ir, durante as aulas”.

Arranque do ano lectivo 2020/2021 na escola de Sardoal. Créditos: mediotejo.net

Em dias de chuva, numa escola em obras e sem muitos espaços cobertos, a solução não passa por colocar os alunos no pavilhão polivalente, “nesses dias os alunos podem fazer o seu lanche dentro da própria sala”, explica Ana Paula Sardinha.

Apesar da implementação das orientações das autoridades de saúde e da organização preparada pela escola, o ano letivo é encarado com “algum receio” pela diretora. “Vamos entrar numa época complicada e facilmente os sintomas da covid-19 se confundem com os sintomas de uma gripe ou de uma constipação. Com certeza que em algumas situações iremos ativar o plano de contingência porque não somos especialistas e não conseguimos fazer a distinção de sintomas”.

No entanto, Ana Paula Sardinha considera a escola “o lugar mais seguro” para os alunos permanecerem. Isto devido “às variáveis que não conseguimos controlar” ou seja, quando saem do recinto escolar. “Se as regras não foram mantidas pela família e tudo o que está pedido pela DGS é um trabalho inglório”.

Do lado dos pais e encarregados de educação, todos com quem o mediotejo.net falou consideram que a escola está preparada para reabrir com segurança. Alguns admitem estar mais apreensivos com a mobilidade dos alunos fora do espaço escolar.

É o caso de António Lourenço, residente em Mouriscas, com duas filhas na escola de Sardoal; uma no primeiro ano e outra no quinto.

Manifesta-se “apreensivo” designadamente que “daqui a um mês esteja tudo fechado outra vez”. Reconhece que “dentro da escola está tudo preparado, mas fora da escola é diferente e os alunos juntam-se todos na rua” para confraternizar, tal como diz constatar na sua aldeia com os estudantes da Escola Profissional de Desenvolvimento Rural de Abrantes.

António até considera que a escola exagera no zelo. “Há pouco espaço para brincar, intervalos curtos, espaços curtos, sabendo que na rua se vão juntar. Se andassem mais à vontade as coisas corriam melhor”, opina. Perante tal cenário este pai até preferia que permanecesse o ensino à distância, em casa, à semelhança do terceiro período do ano letivo passado.

Até porque conciliar os horários das duas filhas é outra dor de cabeça, com a mais pequena a ter de esperar uma hora de manhã antes de iniciar as aulas para a família evitar duas viagens de Mouriscas até ao Sardoal.

A mais velha, Carolina, chega à escola com a mãe, à hora de almoço vai a casa de transporte público e depois à tarde, com a pequena a terminar as aulas às 17h00, regressam ambas novamente com a mãe. Como fazem a gestão de tempos? “Temos de pedir à entidade patronal”, explica António. Por sorte “percebem a situação”, afirma.

Carolina manifesta-se “mais ou menos nervosa” com a situação da pandemia, mas tem as regras todas definidas na cabeça, sabe o que deve fazer e vê o regresso à escola como algo positivo porque sentia falta dos amigos e de brincar como antigamente.

Arranque do ano lectivo 2020/2021 na escola de Sardoal. Créditos: mediotejo.net

Por seu lado, Ana Paula Sardinha refere o apelo da direção aos diretores de turma no sentido de “sensibilizarem” os alunos, sublinhando que as famílias têm o papel importante de explicar aos filhos que os cuidados a ter dentro da escola devem ser mantidos depois do toque de saída. “As regras não devem só começar dentro do portão”, vinca.

Quanto à concentração de pais no espaço exterior da escola acrescenta que os encarregados de educação “têm sido muito colaborantes connosco” mas após seis meses fora da escola “alguns dos alunos têm estado numa bolha e os pais estão receosos com a situação”, justifica.

Ao contrário do que aconteceu em março, quando todas as escolas foram encerradas para conter a propagação do novo coronavírus, o ensino presencial passa agora a regra e o encerramento uma medida de último recurso, tomada apenas em situações de “elevado risco”, segundo a DGS.

Para Ana Paula Sardinha o ensino presencial é, sem dúvida, a melhor solução. A diretora espera que não seja necessário regressar ao ensino à distância, “significa que as condições de saúde estão a agravar. Para um professor não há nada que substitua a interação professor/aluno; os olhos nos olhos, o carinho, a conversa… por muito que se estimule e se façam aulas através de videoconferência não é a mesma coisa, até porque muda a metodologia de ensino. Não há nada que substitua as aulas presenciais” defende embora os planos para o ensino à distância, estejam neste momento, acautelados.

Cláudia Serra, de Alcaravela, manifesta-se “tranquila” com o regresso da filha à escola. Considera que “está tudo preparado” para receber os alunos em segurança. No entanto, teme que “volte tudo atrás” e define a escola em casa que vivenciou no ultimo período do ano letivo passado como “um caos”. “As crianças têm a figura do professor, em casa foi muito complicado de gerir”, disse.

Além da filha pequena, que mostra entusiasmo por voltar à escola para continuar a frequentar o 1º ciclo, Cláudia tem um filho no 10º ano e “será mais difícil para ele do que para os pequenos cumprir as regras. Têm apenas a sala e o pátio no intervalo… é jovem e precisa de conviver depois de todos estes meses em casa”, nota.

Arranque do ano lectivo 2020/2021 na escola de Sardoal. Créditos: mediotejo.net

Rita Silva é de Abrantes. É o trabalho no concelho de Sardoal que a fez optar por colocar Matilde na Escola Drª Maria Judite Serrão Andrade. Este é o primeiro ano escolar da filha, por isso não tem as habituais queixas parentais sobre a recente experiência do ensino à distância. Matilde revela-se “contente” e “tranquila” apesar do cenário pandémico. Já a mãe Rita admite algum nervosismo. “É complicado!”, desabafa. No entanto, considera que “a escola vai conseguir ter as medidas necessárias para proteger as crianças”.

O calendário escolar no ano letivo 2020/2021 apresenta-se diferente, com mais dias de aulas e menos dias de férias, uma alteração que, segundo o ministro da Educação, serve, sobretudo, para dar mais tempo aos alunos e professores para recuperar e consolidar aprendizagens do ano passado.

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