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Quinta-feira, Janeiro 20, 2022
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Reportagem | Em terra de carvoeiros, no Pego já não há carvão

No dia em que a Central fechou de vez, fomos ouvir trabalhadores e residentes numa aldeia onde já se sente o peso da paragem da produção. As opiniões dividem-se entre a defesa do ambiente e do emprego, mas prevalece em comum a incredulidade pela forma como o governo colocou um pronto final numa história que muitos ajudaram a escrever nos últimos 30 anos.

Quando caminhamos pela aldeia do Pego, entre as típicas casas baixas e o silêncio das ruas desertas, percebemos que algo mudou. A alta chaminé, que desponta qual minarete entre o casario, e de onde saiu fumo nos últimos 28 anos, emudeceu. Também já não saem nuvens de vapor de água das duas gigantes torres de arrefecimento. A Central a carvão da Termoelétrica do Pego, em Abrantes, tinha licença para operar até hoje, dia 30 de novembro de 2021, e fechou mesmo. Na aldeia as opiniões dividem-se entre a defesa do ambiente e do emprego.

“Todos sabíamos que esta data ia chegar, mas parece-me que o Governo quer ser o bom aluno da Europa. Porque aqui fecha-se, noutros países estão a abrir. Nomeadamente um dos acionistas daqui está a abrir em Espanha”, critica Augusto, um dos trabalhadores que aceitou falar ao nosso jornal no último dia de trabalho. No futuro, diz, o desemprego. “Não me foram dadas outras opções”, garante. Por isso, faz contas de cabeça e idealiza um novo caminho na área da informática.

“Todos sabíamos que esta data ia chegar, mas parece-me que o Governo quer ser o bom aluno da Europa. Porque aqui fecha-se, noutros países estão a abrir. Nomeadamente um dos acionistas daqui está a abrir em Espanha”

Natural de Nisa mas a viver no Entroncamento, trabalhou quase 27 anos na Central do Pego, na área do Planeamento e Programação. Para Augusto esta decisão de Portugal ser um dos primeiros países do mundo a não ter em funcionamento centrais a carvão é um tiro no pé. “Estamos a pôr-nos a jeito para a Bielorrússia, Marrocos ou o Saara Ocidental fecharem a torneira para comprarmos a energia ao preço que a conseguirem vender. Ou no pior dos cenários, querermos comprar e não haver, porque não somos autossuficientes em nada… só no turismo”, critica.

Sendo certo que Portugal marca pontos nas energias renováveis, de facto ainda não é autossuficiente. No primeiro trimestre de 2021, a geração de origem renovável representou 79,5% do total de eletricidade produzida em Portugal Continental, face a 20,5% de energia elétrica obtida a partir de fontes fósseis, de acordo com dados da Associação de Energias Renováveis.

Como trabalhador, Augusto exclui de culpas a PEGOP, o operador do Centro de Produção de Eletricidade do Pego, no fecho deste capítulo na história energética do país e da situação precária de 150 trabalhadores da Central Termoelétrica. Lembra que há dois meses iniciaram-se as negociações para rescisões de contratos. “Não tem culpa desta situação porque não detém o negócio”. No entanto, vinca não compreender o alcance da decisão do governo.

“O dia ia chegar, mas podia não ter um impacto tão grave! Deveria haver um trabalho prévio, um planeamento”, consubstanciando-se agora em alternativas energéticas ao carvão, opina, em vez dessa decisão ter ficado adiada para o próximo ano.

“O dia ia chegar, mas podia não ter um impacto tão grave! Deveria haver um trabalho prévio, um planeamento”

Aldeia do Pego, (Abrantes) com a Central Termoelétrica do Pego em pano de fundo. Créditos: mediotejo.net

A Central Termoelétrica do Pego chegou a representar 10% da produção nacional. No dia 19 de novembro produziu eletricidade pela última vez por esgotamento das reservas de carvão, que antecipou o fim da produção de energia, mas apenas esta terça-feira cessou o Contrato de Aquisição de Energia (CAE).

O Governo só em setembro lançou um concurso público para a reconversão da Central a carvão do Pego para um “cluster” de energias verdes, entendendo que seria a forma mais correta de atribuir a exploração deste ponto de injeção na rede elétrica nacional, em vez de permitir a continuação da Tejo Energia, que detinha a concessão desde 1993 e apresentou um projeto próprio para fazer a transição da produção. A Central fica agora a laborar apenas a gás.

Agostinho é chefe de mecânica e manutenção na Central Termoelétrica do Pego há quase 29 anos. É um dos trabalhadores que vai ficar, e “a fazer a mesma coisa”, garante. “Não há grandes alterações.” E se Agostinho tem nome de santo confessa-se mais como São Tomé: “Ver para crer!”. Na verdade desconhece o futuro no que toca ao procedimento ou ao processo laboral. “Nem o pessoal que vai, nem o pessoal que fica sabe o que será”, diz.

Acredita que o futuro passa pela reconversão da Central num projeto de produção de energia limpa “mas não tão rapidamente… vai levar tempo. A data do concurso público termina a 17 de janeiro. Dia 30 há eleições… os governantes comprometem-se agora, mas ficam no governo até que dia?”, interroga. Ou seja, os trabalhadores temem que surjam novas decisões com a mudança de governo, como sucedeu com outros projetos nacionais, como o Túnel do Marão.

“A data do concurso público termina a 17 de janeiro. Dia 30 há eleições… os governantes comprometem-se agora, mas ficam no governo até que dia?”

Além disso, mesmo que surja um projeto em linha com as metas climáticas do país, aponta para “muitos meses… senão anos!” até à sua implementação. À partida, diz, fica mais um ano. “Não acredito que haja um coisa nova até ao momento da minha saída. É preciso reconverter muita coisa. Trabalhar no terreno é muito diferente da teoria. E quando a esmola é demais o pobre desconfia…”

Acácio Machado, proprietário do café ‘O Cantinho’, no Pego. Créditos: mediotejo.net

Portugal passou esta terça-feira a ser um dos primeiros países do mundo a não ter em funcionamento centrais nucleares ou a carvão, apesar de não ter ainda autonomia garantida recorrendo apenas a fontes renováveis – tendo por isso de comprar a outros países, como Espanha, França ou Alemanha, que não se comprometeram com o abandono destas fontes de produção antes de 2030.

Aliás, na semana em que se queimou o último carvão na Central do Pego, Espanha reativou centrais a carvão da Endesa e da EDP que já tinham encerrado, porque receberam um pedido “urgente” do governo espanhol para voltarem a produzir energia, perante a escalada dos preços da eletricidade e o risco de haver falhas de fornecimento no Inverno. Em 2020 tinha sido determinado o fecho de 7 das 15 centrais a carvão do país, tendo como meta terminar a produção em definitivo entre 2026 e 2030.

“Para melhorar o ambiente os políticos deveriam perceber mais do que percebem. Não tomam as medidas corretas. Ganham bem e não precisam, nem reparam em quem trabalha e fica no desemprego”, critica Acácio Machado, proprietário do café “O Cantinho”, na aldeia. 

“Para melhorar o ambiente os políticos deveriam perceber mais do que percebem. Não tomam as medidas corretas. Ganham bem e não precisam, nem reparam em quem trabalha e fica no desemprego”

Emigrado na Suíça durante anos, e tendo nascido no nordeste transmontano, confessa não ter acompanhado a instalação da Central. Sendo agora residente no Pego, vê o fim da produção a carvão como uma medida positiva para o ambiente, embora defenda que deveria continuar por mais algum tempo. Pelo menos, “até que os restantes países da União Europeia também fechassem. A não ser que a do Pego seja a única poluidora”.

O dono do café não entende “como os espanhóis e outros países da União Europeia continuam a produzir energia a carvão”. Em Portugal, lamenta, “dão-se ao luxo de dizer que são os primeiros… Bom, seremos também os primeiros no desemprego”.

Aldeia do Pego, (Abrantes) com a Central Termoelétrica do Pego em pano de fundo. Créditos: mediotejo.net

A propósito da poluição recorde-se que, em 2009, a Central do Pego inaugurou um investimento de 170 milhões de euros em equipamentos de redução de emissões poluentes. Nessa época, Paulo Almirante, administrador-delegado, disse à Agência Lusa que o investimento efetuado permitia que a unidade tivesse uma produção de dióxido de enxofre “cinquenta e oito por cento inferior ao imposto pela União Europeia para o ano de 2015”, o que se poderia traduzir como uma “redução de 400 mil toneladas por ano”. Foi público e publicado que nos últimos anos a Central conseguiu reduzir poluentes como o referido dióxido de enxofre e óxidos de azoto, mas manteve o CO2.

A Central do Pego “foi uma fonte de poluição durante 20 anos”, sublinha Ana Serrano. A enfermeira pegacha associa à poluição o aumento de doenças oncológicas na aldeia de há 10 anos a esta parte. Reconhece que “para quem fica desempregado é mau”, contudo o encerramento da Central a carvão vai trazer “melhor qualidade de vida”, diz. Recorda o “muito pó e as águas das primeiras chuvas, com enxofre. Notava-se muito!”, assegura.

“Para quem fica desempregado é mau, mas o encerramento da Central a carvão vai trazer melhor qualidade de vida”

Central termoelétrica do Pego. Foto: mediotejo.net

José Rodrigues partilha a mesma opinião. Natural do Pego, e já no inverno da vida, lembra-se bem da época da instalação da Central. “Apareceu muita gente para trabalhar. Abriram restaurantes, comércio, algumas lojas que entretanto fecharam”, diz. Longe vão os tempos áureos do dinamismo social que aquele gigante de produção de energia trouxe para a economia local da pequena aldeia do Pego.

E se a decisão tem o lado negativo do desemprego, o lado positivo, ou seja, a causa ambiental, é vencedora, na sua opinião. “Nota-se muito os problemas causados pela poluição. O pó em cima dos telhados, nos carros. Acho mal o encerramento só por causa do emprego, mas há outros locais para trabalhar. O que importa é a qualidade de vida que voltará agora” que o carvão deixou de ser queimado.

“Nota-se muito os problemas causados pela poluição. O pó em cima dos telhados, nos carros. Acho mal o encerramento só por causa do emprego, mas há outros locais para trabalhar”

Maria Hermínia tem 85 anos e ainda se lembra dos tempos que carvão era sinónimo de carvoeiros e carvoarias, sem tecnologias que o transformassem em eletricidade. Conta que “o Pego mudou muito” com a vinda da Central. “As pessoas não paravam.” Na época da abertura “vieram muitos de fora para trabalhar na Central”. Atualmente, “poucas pessoas do Pego ainda trabalham” ali, nomeadamente em lugares de topo, refere.

Recorda o desenvolvimento económico e social da aldeia, com a abertura de novos espaços comerciais, desde restaurantes a alojamentos que ofereciam dormida aos trabalhadores deslocados das suas residências, dos equipamentos desportivos com que a comunidade pegacha foi beneficiada. A Central “dava muito movimento à terra”, reconhece, “mas foi tudo acabando”, lamenta, enquanto termina uma reconfortante chávena de café.

“A Central dava muito movimento à terra, mas foi tudo acabando”

Maria Hermínia tem 85 anos é natural do Pego. Viu a Central a ser construída e agora vê-a fechar. Créditos: mediotejo.net

Numa rua mais acima encontramos a ‘Tasquinha do Cachucho’, um espaço pequeno que durante anos se habituou a servir almoços a alguns trabalhadores da Central. José Manuel Amaro admite que o encerramento “vai prejudicar o negócio”, embora conte com uma clientela pegacha fiel.

Apesar da pequena sala de refeições, “sempre vêm uns trabalhadores almoçar”. Pelo menos à segunda-feira para as couves com feijão, às quartas para o cozido à portuguesa, os dias mais fortes. “A nível da Central, o negócio teve um decréscimo na ordem dos 70 por cento. Já se nota”, refere.

“Nos últimos meses o negócio no restaurante teve um decréscimo na ordem dos 70 por cento. Já se nota”

José Manuel Amaro ainda trabalhou na Central no final dos anos 1980, aquando das primeiras terraplanagens. Depois mudou de vida ao perceber que a vida da sua terra também tinha mudado. Com a Central “chegou muita gente para trabalhar e muita gente para consumir, o que deu movimento e dinamismo à aldeia”.

Opina que o encerramento da Central a carvão “é mau para as casas comerciais”, e não só. “É mau para os trabalhadores que vão para o desemprego, mas tem o lado bom: diminui a poluição”.

Já quanto à diminuição de clientes, afirma não ser um efeito do final deste capitulo energético, mas um processo gradual de perda. “Nos últimos anos sentiu-se um decréscimo muito acentuado na dinamização do negócio. Depois com a pandemia piorou.”

José Manuel Amaro chegou a trabalhar na Central no final dos anos 1980, aquando das primeiras terraplanagens. Créditos: mediotejo.net

Para José, o “impacto negativo” não atinge apenas a aldeia do Pego mas também Concavada e a região. “Quando havia uma paragem, chegavam 400 ou 500 trabalhadores. Dava alma a isto. O impacto passa por todos, atingindo mais uns que outros”, conclui.

Também José manifesta dificuldades em compreender a decisão governamental. “Espanha reabriu duas centrais a carvão, nós fechamos. Não percebo!”

“Espanha reabriu duas centrais a carvão, nós fechamos. Não percebo!”

Na aldeia alguns ainda sonham vir a fazer parte da nova e prometida Central, que produzirá energia a partir de fontes renováveis, mas também há desconfiança em relação às medidas hoje anunciadas pelo Governo, em Abrantes. Quem contava com a Central para ter um salário não consegue ainda alegrar-se com as promessas de uma “Transição Justa”.

No Pego hoje colocou-se um ponto final (ou de exclamação) numa história que muitos ajudaram a escrever nos últimos 30 anos, e para a qual desejavam um desfecho diferente.

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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