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REPORTAGEM/Constância | 2ª Força Nacional Destacada de partida para o Afeganistão

A 2ª Força Nacional Destacada – Quick Reaction Force – tem estado a ser aprontada na Brigada Mecanizada desde o passado mês de junho e parte no final de outubro para o Afeganistão, onde vai passar seis meses a garantir a segurança do Aeroporto Internacional Hamid Karzai. Fomos conhecer melhor esta força militar através do seu Comandante, o Major Ricardo Estrela, e conversámos com alguns dos 148 militares que a integram durante um dos últimos treinos no Campo Militar de Santa Margarida, no concelho de Constância.

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A 2ª Força Nacional Destacada – Quick Reaction Force, que integra a Resolute Support Mission (2FND/QRF/RSM) da NATO, encontra-se, neste momento, numa das etapas finais antes da partida para o Afeganistão. O aprontamento começou a ser feito desde o passado mês de junho na Brigada Mecanizada, no Campo Militar de Santa Margarida, após o final do exercício ORION, e a força militar encontra-se, agora, a ser avaliada pela Inspeção Geral do Exército durante o CREVAL (Combat Readiness Evaluation).

O KABUL182 decorre no aeródromo de Ponte de Sor e no último dia, a 19 de outubro, o Major Ricardo Estrela recebe o Estandarte Nacional às 16h00, das mãos do novo Chefe do Estado-Maior do Exército. Fomos conhecer esta força militar e alguns dos seus elementos antes do KABUL182, começando pelo seu Comandante, para quem receber o símbolo máximo da Pátria Portuguesa é marcante. Confessa, no entanto, que não ainda não teve muito tempo para pensar sobre o que irá sentir quando assumir publicamente o comando.

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Major Ricardo Estrela na Sala de Honra das Missões. Foto: mediotejo.net

Destaca, porém, que será “um orgulho enorme”, também por se tratar de algo novo na sua carreira militar. O mesmo não se passa quando falamos de missões. A atual é a quarta e junta-se à lista que tem início em 2009 e integra duas passagens por Timor-Leste, em missões de cooperação associadas ao treino de militares timorenses, intercaladas por outras duas pelo Kosovo em que foi Comandante de companhia inserida num batalhão português e, na mais recente, em 2015, oficial de logística.

A NATO chegou ao Afeganistão, mandatada pela ONU, seis anos mais cedo que a primeira missão do Major Ricardo Estrela. Até 1 de janeiro de 2015, partir para aquele teatro de operações implicava riscos diferentes uma vez que estava associada à redução e controlo de focos de resistência. Nessa data, a Resolute Support Mission (RSM) sucedeu à International Security Assistance Force (ISAF) que envolveu mais de 12.000 militares, dos quais cerca de 3.000 eram de nacionalidade portuguesa.

Treino do pelotão Quick Reaction Force. Foto: mediotejo.net

O cenário mudou e os 146 elementos da primeira Força Nacional Destacada, aprontada em Vila Real, e os 148 desta segunda não vão desempenhar uma missão de combate, mas sim de auxílio às entidades afegãs, apoiando na criação de condições para que estas assegurem a segurança e estabilidade daquele país. O risco existe sempre, confirma-nos o Major com 39 anos, nascido em Santarém e que continua a morar nesse concelho, em Vaqueiros (União de Freguesias de Casével e Vaqueiros).

Decidiu seguir o exemplo dos militares da família, a maioria ex-combatentes da Guerra do Ultramar, e conhecidos pertencentes ao Quadro do Comando do exército e iniciou a carreira na Academia Militar, ingressando no quadro como Alferes. Esteve cinco anos na Escola Prática de Infantaria, atual Escola das Armas em Mafra, a promoção a capitão surgiu em 2010 e chegou entretanto ao extinto 2º Batalhão de Infantaria Mecanizado, no Campo Militar de Santa Margarida.

Lema do Batalhão de Infantaria Mecanizado. Foto: mediotejo.net

Em 2016 foi colocado no atual Batalhão de Infantaria Mecanizado, do qual será agora projetada a companhia composta por 148 elementos – cinco dos quais mulheres – distribuídos por oficiais, sargentos e praças. Não contabilizados nestes números estão os 14 elementos do National Support Element, outra força militar que será projetada pela Brigada Mecanizada e presta apoio logístico a todos os militares portugueses no teatro de operações.

A 2ª FND integra um Comando e três pelotões com número variável de efetivos. Cada um desempenhará funções diferentes no Aeroporto Internacional Hamid Karzai, nomeadamente a área militar, e uma vez em Cabul, a companhia será integrada num batalhão comandado por um Tenente-Coronel de nacionalidade turca. Lá, os 47 militares do pelotão Quick Reaction Force passam a estar preparados para responder a qualquer ameaça que surja no interior da base aérea, como uma tentativa de incursão.

Treino do pelotão Quick Reaction Force. Foto: mediotejo.net

Por sua vez, os 38 do pelotão Mobile divide-se em diversas secções que vão assegurar a segurança dos camiões que realizam diariamente a transfega de combustível (uma secção), a observação do perímetro exterior à base através de torres de vigilância (duas secções) e a segurança dos trabalhadores em caso de ser necessário efetuar alguma reparação (uma secção) no interior da base.

O pelotão Flight Line Security é o maior, com 53 militares, e compete-lhes garantir a segurança da parte militar do aeroporto, também através de torres de vigia, como a dos passageiros que embarcam e desembarcam nesta área. Em Portugal, o embarque da 2ª FND é feito de forma faseada. Um primeiro grupo de 55 militares embarca no dia 30 de outubro, um segundo com 50 elementos a 6 de novembro e os restantes do terceiro, 43, a 13 de novembro.

A partida da 2ª FND está marcada para 30 de outubro. Foto: mediotejo.net

Vão lá estar todos durante seis meses, com a possibilidade de fazerem uma pausa a meio, mas isso não aligeira o momento da despedida. Para o Major Ricardo Estrela “é sempre difícil deixar para trás a família”, mas relembra que há uns anos atrás era mais complicado. Hoje em dia, a tecnologia aproxima-os dos que por cá ficam enquanto eles estão fora, ainda que “a saudade de casa existe sempre”. Sobretudo quando, pelo meio, estão datas com maior força emocional, como o Natal.

A 2ª FND vai passá-lo com militares de quase quatro dezenas de nacionalidades e a língua inglesa, da qual tiveram formação durante o aprontamento, será uma ajuda preciosa. Esta juntou-se a outras, como as de condutores, diversas ligadas a socorrismo e a com a Força Aérea para entenderem alguns procedimentos que irão encontrar no aeroporto. O treino militar é, obviamente, outra parte integrante do aprontamento e foi num desses treinos que falámos com dois militares que partem em breve para a capital afegã.

1º Sargento Mário Fazenda no Quartel da Pucariça. Foto: mediotejo.net

Saímos da Sala de Honra das Missões, no Batalhão de Infantaria Mecanizado, e seguimos acompanhados pelo Major Ricardo Estrela até ao Quartel da Pucariça. Nesta infraestrutura do Campo Militar de Santa Margarida fomos recebidos pelo 1º Sargento Mário Fazenda, natural de Castelo Branco, Sargento do pelotão Quick Reaction Force. Este pelotão é constituído por três secções e foi na primeira que nos cruzámos com o 1º Cabo Gomes, natural do Porto e atualmente a residir em Torres Novas.

Aos 24 anos, seis anos e meio após a chegada ao Campo Militar de Santa Margarida, prepara-se para partir na sua primeira missão. Usa a farda militar encarando-a como “um orgulho” e “um futuro”, a mesma que dá seguimento à tradição da família, que já vem do avô e do pai. A esposa também já foi militar e participou em missões e, no seu caso, é com o sotaque nortenho que nos diz encarar esta nova experiência “de forma positiva”.

1º Cabo Gomes no Quartel da Pucariça. Foto: mediotejo.net

Deixar para trás a filha de dois anos custa, mas é um mal necessário pois está a “investir no futuro, tanto para mim, como para ela” pois, acrescenta, “é esta a minha missão, tentar lutar por uma vida melhor para ela”. Foi até à Alemanha tirar o curso de condutores, mas na formação de inglês que sentiu maior dificuldade durante o aprontamento. Neste momento diz estar pronto a partir, “com desejo de missão cumprida” para “ajudar os meus e as outras pessoas”.

Na terceira secção encontramos o Soldado Grou, nascido há 26 anos em Lisboa e “criado em Santarém”. A farda militar já fazia parte dos guarda-vestidos lá de casa, nomeadamente no do irmão mais velho que pertence à Marinha. O “bichinho”, como diz, surgiu e integrar a 2ª FND também representa a sua primeira missão que é encarada como “uma sensação diferente do que estamos habituados” e que faz perceber que “estamos a treinar para uma coisa séria”.

Soldado Grou no Quartel da Pucariça. Foto: mediotejo.net

Tornou-se militar em 2013, chegou ao Campo Militar de Santa Margarida no ano seguinte e revela que a preparação para esta missão foi “mais crítica ao princípio pois estava fora da minha operacionalidade” – a unidade de que fazia parte antes, também na Brigada Mecanizada, estava ligada aos serviços. Ser militar é “uma forma de estar, de ser, uma educação boa” e este tipo de missão é positivo “para o nosso país pois servimos para contribuir para o nosso mundo”.

Posição partilhada antes pelo seu Comandante, que encara estas missões como “uma honra” por “contribuir para algo, se conseguirmos criar melhores condições para que aquela população possa viver condignamente”.

Quanto à realização de novas missões, o Major Ricardo Estrela diz que “a porta está sempre aberta”. No entanto, antes das próximas está aquela em que é responsável pela 2ª FND até ao momento em que regressar a casa, pousar o saco e sentir que “finalmente estamos junto dos nossos entes queridos e que valeu a pena estarmos fora”.

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Sónia Leitão
Nasceu em Vila Nova da Barquinha, fez os primeiros trabalhos jornalísticos antes de poder votar e nunca perdeu o gosto de escrever sobre a atualidade. Regressou ao Médio Tejo após uma década de vida em Lisboa. Gosta de ler, de conversas estimulantes (daquelas que duram noite dentro), de saborear paisagens e silêncios e do sorriso da filha quando acorda. Não gosta de palavras ocas, saltos altos e atestados de burrice.

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