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Domingo, Setembro 19, 2021

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Tomar | Como vive a aldeia de Cem Soldos sem “Bons Sons”

"Vem viver a aldeia". Este é o mote do festival Bons Sons desde 2006 e, por estes dias de agosto, a aldeia de Cem Soldos, em Tomar, ganhava uma nova vida com milhares de "festivaleiros" amantes da música portuguesa. Isso mudou em 2020, com a pandemia de covid-19, e o silêncio impera nas ruas novamente este ano.

Entre os dias 12 e 15 de agosto, as ruas de Cem Soldos, aldeia pertencente à união de freguesias de Madalena e Beselga, em Tomar, costumavam encher-se gente, vinda dos mais diversos locais de Portugal e também do estrangeiro. Mas a pandemia de covid-19 veio mais uma vez estragar a festa, e este festival que vai somando distinções foi novamente adiado por mais um ano. A 11ª edição chegará em agosto de 2022, esperam os habitantes, que adotaram há muito o festival como seu.

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Chegado a Cem Soldos, o mediotejo.net não se deparou portanto com a habitual azáfama de um festival como o Bons Sons. O largo principal do evento não estava repleto com uma multidão alegre e em convívio, mas sim com carros estacionados. Olhando em volta, não se viam magotes de gente mas sim quatro ou cinco pessoas sentadas a refrescarem-se com uma cerveja no café e um ou dois transeuntes, em passo apressado, face ao tórrido calor que se fazia sentir.

FOTOGALERIA | CEM SOLDOS: A MESMA ALDEIA COM E SEM BONS SONS

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Embora se continue a “viver a aldeia” ao estilo daqueles que cá estão no resto do ano”, não é a mesma coisa. E Miguel Atalaia, o diretor artístico do festival, não esconde a saudade de ver os contributos de fora e a enchente que acontecia todos os anos.

“Apesar de tudo, sendo uma aldeia com pessoas e que se manteve ativa em algumas dinâmicas comunitárias que seriam sempre importantes manter independentemente da existência do festival Bons Sons – e que se mantiveram –, julgo que estamos com boas perspetivas para continuar a fazer o festival, assim que seja possível”, diz ao nosso jornal.

Mas nem tudo o que advém de um novo adiamento é mau e, para lá do vírus, há outras razões mais positivas a justificá-lo. É também em 2021 que serão previsivelmente realizadas as ansiadas obras de requalificação do largo (Largo do Rossio) e do centro da aldeia de Cem Soldos, ou seja a área principal do Bons Sons, que visa melhorar a qualidade de vida das pessoas que habitam e que visitam a aldeia. Serão melhoras as infraestruturas, o saneamento básico e drenagem de águas, a pavimentação de vias e áreas de lazer, a iluminação/eletricidade, o mobiliário urbano, a circulação das pessoas e dos automóveis e a organização do estacionamento, tal como a organização deu a conhecer num comunicado em abril.

Miguel Atalaia, também presidente da direção do Sport Club Operário de Cem Soldos (SCOCS), explicou que o projeto de requalificação do largo já é antigo, e que nasceu no seio da associação, quando se começou a pensar em alterar um pouco o perfil que a aldeia estava a ter e a ocupação que o largo tinha, que “basicamente era e é ainda um parque de estacionamento – e não faz sentido que assim o seja numa aldeia tão cultural e comunitária como Cem Soldos”.

Cem Soldos largo do rossio
O Largo do Rossio, que durante o ano serve como parque de estacionamento, vai sofrer uma requalificação para o “devolver às pessoas”. Foto: mediotejo.net

Assim, este projeto decorrente de muitas etapas ao longo de vários anos e ultimamente trabalhado junto da Câmara Municipal de Tomar (responsável pela obra) implica uma renovação grande. Mantendo em traços gerais aquilo que é a génese do centro de Cem Soldos – um triângulo no centro da aldeia – pretende-se no fundo transformar esse centro num local de estar, “que seja devolvido às pessoas, algo que acontece com o Bons Sons e que tem de acontecer ao longo do ano, a ideia do projeto é essa”, esclarece Miguel Atalaia, adiantando que é importante que a obra seja feita entretanto de modo a que em 2022 o largo também traga “esse outro olhar sobre a mesma aldeia, mas que seja uma aldeia renovada para acolher as pessoas que sempre nos procuraram”.

Em 2020 a situação foi bem mais preocupante para a organização, uma vez que esta foi apanhada desprevenida. Já havia contratos fechados e fornecedores estabelecidos o que, face à não entrada de receita, acarretou a necessidade de pedir apoio à Câmara Municipal de Tomar, o qual foi “felizmente” atendido, o que se revelou “absolutamente fundamental para manter alguma estabilidade e saúde financeira”, conforme explica Miguel Atalaia.

Nessa fase atribulada do ano de 2020, o SCOCS viu-se obrigado a encerrar toda a sua atividade, mantendo unicamente as refeições sociais, sendo que todos os ATL’s ou eventos foram suspensos, algo que necessariamente teve um grande impacto, uma vez que se perdeu repentinamente a capacidade de gerar receita mas onde se mantiveram uma série de despesas e contratos que tinham de ser cumpridos.

É também o impacto socioeconómico e mediático do Bons Sons na região que preocupa Miguel Atalaia, relembrando que em 2019 este estava avaliado em 3,5 milhões de euros: “Isso de alguma forma sente-se, a região vai regenerando e tentando arranjar outras  formas, mas o Bons Sons pelo impacto mediático que já tinha e tem, foi de facto uma perda significativa para o território, e isso sente-se nos negócios, nas lojas, naquilo que está mais perto de nós e aquilo que está também mais longe porque a abrangência territorial ainda é grande.”

Assim o confirma Lídia Nobre, dizendo que se nota sempre um crescimento muito maior na sua “Lojinha da Aldeia” com o festival, o que acarreta também um esforço muito grande uma vez que, diz, “os visitantes são sempre muito mais do que nós imaginamos”. Conforme nos conta, com o Bons Sons a aldeia ganhava sempre uma dinâmica muito diferente que fazia já parte da vivência da localidade: “Há muito convívio, muita partilha, é uma alegria que toma conta das pessoas, mesmo para a população daqui”.

Quadro exposto na “Lojinha da Aldeia”. Foto: mediotejo.net

Mónica Dias, outra comerciante de um minimercado, refere que o festival faz muita diferença, não só em Cem Soldos mas também em Tomar, onde ajuda muito a restauração. Em relação ao negócio, Mónica Dias afirma que tem os seus clientes habituais e que o festival “é um extra que vem”, um extra significativo.

Voltando ao que lhe toca mais diretamente, Miguel Atalaia confessa que também não se pode escamotear aquele que é o risco associado à organização do festival Bons Sons por uma associação como o Sport Club Operário de Cem Soldos (SCOCS), um risco considerado muito grande uma vez que 80% do festival é feito com receitas próprias.

A não existência do festival também retira esse risco, conforme explicou Miguel Atalaia, “mas a verdade é que assim deixamos também de ter esta nossa missão e o impacto significativo que queremos ter (e temos anualmente) no território, e portanto desejamos muito voltar a assumir esse risco, fazer, e que corra bem, com energia”.

A dupla de amigas, Isabel Morgado e Luísa Miguel, entre goles de uma imperial fresquinha numa esplanada, garantem que já estavam habituadas e que a dinâmica e movimento do festival faz muita falta. O senhor Parracho, de passagem com passo apressado e apercebendo-se do tema de conversa lança um “é pena”, enquanto segue viagem.

Foto: mediotejo.net

Para 2022, as coisas já estão a ser pensadas, sendo que o fundamental é trabalhar a raiz do Bons Sons, que é como quem diz, trabalhar com quem faz o festival acontecer. A ideia é formar e capacitar os cerca de 400 voluntários da aldeia que ajudam na concretização do evento e outros que se queiram juntar acerca de uma série de áreas que têm como foco a realização do Bons Sons, até porque com a renovação do largo vão ser necessárias várias alterações, diz Miguel Atalaia.

O atual diretor artístico espera que em 2022 muitos possam voltar a “viver a aldeia”, em comunhão. Tantos os que vêm de fora como os que lá moram todo o ano. E como explicar o que é esse espírito tão especial de Cem Soldos, a quem nunca o viveu? “É tomarmos para nós uma aldeia inteira, um sítio gigantesco (tendo em conta que normalmente o nosso sítio são as nossas casas, os nossos quartos, os nossos sofás), e acolhermos qualquer pessoa, e esse acolher de qualquer pessoa dá-nos um sentido muito próprio. E digo isto, claro, pelas responsabilidades que tenho assumido, mas também pelo que sinto em qualquer pessoa da aldeia e que lhe brilha os olhos quando acolhe pessoas de todas as partes do país e até do estrangeiro e é verdadeiramente impactante, criarmos um espaço-comum para acolher qualquer pessoa que queira viver a aldeia. Temos a sorte de acolher um público incrível que vem com um espírito brutal, muitos nem vêm à procura de um cartaz em específico ou de uma banda, mas vêm simplesmente para estar a viver um espírito de comunhão, amizade e cumplicidade muito grande e isso é muito importante para a aldeia e para as pessoas que aqui estão.”

Licenciado em Ciências da Comunicação pela Universidade da Beira Interior. Natural de Praia do Ribatejo, Vila Nova da Barquinha, mas com raízes e ligações beirãs, adora a escrita e o jornalismo. Ávido leitor, não dispensa no entanto um bom filme e um bom serão na companhia dos amigos.

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