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Reportagem | Como a busca por um cão perdido acabou na missão de recuperar a casa de Anabela

O que Susana Estriga tem conseguido erguer num pequeno terreno de pastores, gerindo a boa vontade de dezenas de pessoas, está próximo de um milagre

Há uma azáfama feliz em torno da casa rasteira caiada de branco, com barras de um azul que parece querer imitar o céu desta primavera antecipada. Maria do Rosário Aparício, a matriarca de uma família de pastores do Tramagal, no concelho de Abrantes, está à soleira da porta a ver embevecida os homens que andam de um lado para o outro a carregar entulho, a cortar madeiras ou a estender novos mosaicos no chão da cozinha. Por vezes parece não acreditar ainda no que está a acontecer.

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Um dos pedreiros ajeita o boné e abre um sorriso quando vê um vulto familiar aproximar-se: “Ó senhora professora, já vieram trazer as janelas!”

A professora (de educação física) é Susana Estriga, transformada nestes dias em responsável de obra. E o que tem conseguido erguer neste pequeno terreno debruçado sobre o Tejo, gerindo a boa vontade de dezenas de pessoas, está próximo de um milagre.

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Maria do Rosário Aparício, a avó de Anabela, com Susana Estriga, à porta da casa em obras. Créditos: mediotejo.net

Quando chegou ao final da estrada de terra batida que conduz ao conjunto de barracões onde vive esta família de seis pessoas, andava à procura de uma cadela perdida. Susana dedica grande parte da sua vida à causa animal, e é raro o dia em que não tenha cães na sua carrinha Berlingo, ora para irem ao veterinário, ora para serem entregues a instituições ou a novos donos que os acolham. Encontrou a cadela que procurava mas também outros três cães, desta família de pastores: a Bolinhas, o Snoopy e o Benfica. Estão todos muito bem tratados mas viviam, tal como os seus donos, em instalações muito degradadas.

Susana perguntou se podia ajudar a fazer umas casotas melhores para os cães, e disseram-lhe logo que sim. Foi voltando, uma e outra vez, ora com redes novas, ora com madeiras para os portões. Conseguiu uma grande casota oferecida pelo Bricomarché, construiu outras com placas aproveitadas das obras de uma bomba de gasolina local. 

Em todas essas visitas tinha sempre a companhia do elemento mais novo daquela família: a Anabela, com 5 anos.

Susana Estriga com Anabela, junto às novas instalações de dois dos cães dos pastores. Créditos: mediotejo.net

“Fui notando que a casa deles tinha más condições e num dos dias despedi-me dela a dizer que voltaria depois com ração para os cães e perguntei: ‘E tu, do que é que precisas?” E ela respondeu: ‘Uma afiadeira.’ Fiquei de coração partido.”

Numa outra ocasião, a menina queixou-se que o avô tinha muito, muito frio… E Susana quis saber se tinham algum aquecimento em casa. Foi quando a convidaram a entrar e ela viu as péssimas condições em que a minúscula casa se encontrava, com muita humidade, infiltrações no tecto e um chão de cimento e terra. 

Em tempos, explicou a Dona Rosário, acendiam uma braseira. Mas com a menina a dormir na casa tinham medo, já se ouviu falar de muita gente a morrer de noite por causa disso… “Uma salamandra é que era bom”, suspirou a senhora. 

Susana saiu dali determinada a arranjar uma salamandra para aquela família. E nesse dia colocou um apelo no Facebook. “A resposta foi espantosa”, conta. “Tive logo amigos a contribuirem com dinheiro e a quererem ajudar com mais coisas.” No dia seguinte, um amigo das provas de atletismo contactou-a de Espanha – Susana Estriga é campeã nacional e tem vários títulos europeus e mundiais em velocidade, barreiras, pentatlo e heptatlo –, dizendo que oferecia ele a salamandra. Susana ficou radiante e foi logo com um empreiteiro amigo a casa da família, para ver o que seria preciso fazer para instalá-la. Foi então que ele lhe explicou que seria impossível colocar uma salamandra ali… havia vigas de madeira muito velhas a suportar o telhado e com a degradação em que tudo estava haveria um grande risco de incêndio. “Olhámos à volta e começámos a fazer contas de cabeça… o que seria preciso para colocar a casa com os mínimos aceitáveis?”

E foi assim que, de repente, já se estava a renovar paredes e chão, a criar divisões com pladur para fazer quartos e garantir mais privacidade para todos, a colocar água canalizada e tubagens na cozinha e a construir uma casa de banho toda nova. 

As obras já estão perto do fim nesta pequena casa, no Tramagal. Créditos: mediotejo.net

Agora chegaram as janelas. E outras literalmente estão a ser abertas, na parte lateral da casa, mas também dando novos horizontes a esta família. A mãe de Anabela, Elisabete, chega a meio da tarde do campo, pedindo desculpa por estar suja. Esteve também ela com as ovelhas e os borregos, todo o dia, e quando acaba o pastoreio vem a correr para ajudar nas obras como sabe e pode. Além de terem todos as “mãos na massa”, também têm contribuído para comprar materiais. “Já me deram 240 euros, e querem pagar-me uma quantia todos os meses”, conta Susana. “São pessoas humildes mas muito trabalhadoras e acho que nunca pensaram que fosse possível dar uma volta destas à casa deles.”

Sem a ajuda arregimentada pela professora, não teria mesmo sido possível. A cada frase menciona quem deu determinado apoio, como muitos dos seus ex-alunos da escola Octávio Duarte Ferreira (“foram o motor desta iniciativa”, diz), entre as dezenas de amigos do Tramagal, dos tempos de faculdade e do mundo do atletismo, que lhe vão fazendo chegar dinheiro e bens necessários, como camas e armários. Refere também os donativos de empresas como a Abrancongelados, o Bricomarché e a GlenLab, e apoio de outras, como a MRW, que tem transportado gratuitamente materiais oferecidos em Lisboa ou em Tomar, e que assim chegam rapidamente ao Tramagal.

“Nestas alturas é que vemos que temos mesmo amigos”, comenta, emocionada. 

A cozinha já tem canalização e um chão de mosaico, para ser mais fácil de lavar. Créditos: mediotejo.net

Contudo, e apesar de o empreiteiro estar a oferecer a mão de obra e a “desenrascar” muitas coisas, apesar de estarem a usar muitos materiais oferecidos – fazendo com que até o minúsculo chão da casa de banho seja feito de mosaicos diferentes (a família diz que está fenomenal) –, e apesar de não se terem abalançado a recuperar tudo o que seria necessário… ainda faltam cerca de 800 euros para dar a conta final como liquidada.

É Susana Estriga que está a avançar o dinheiro, por amor a uma criança que conheceu há poucas semanas. Quando a Anabela for para a escola, em setembro, já terá até uma secretária para ensaiar os seus primeiros “a, e, i, o, u”.

Hoje olha fascinada para o novo quarto que ganha forma, a cómoda cor-de-rosa que lhe ofereceram, as molduras à espera de uma fotografia com um sorriso rasgado, como nunca teve. A história ainda não acabou e ela já transborda felicidade. E isso, como sabemos, não tem preço. 

Se quiser ajudar a financiar as obras da casa de Anabela, pode fazer uma transferência para a conta de Susana Estriga, com o IBAN PT50 0035 00030 00174 26700 71

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Sou diretora do jornal mediotejo.net e da revista Ponto, e diretora editorial da Médio Tejo Edições / Origami Livros. Sou jornalista profissional desde 1995 e tenho a felicidade de ter corrido mundo a fazer o que mais gosto, testemunhando momentos cruciais da história mundial. Fui grande-repórter da revista Visão e algumas da reportagens que escrevi foram premiadas a nível nacional e internacional. Mas a maior recompensa desta profissão será sempre a promessa contida em cada texto: a possibilidade de questionar, inquietar, surpreender, emocionar e, quem sabe, fazer a diferença. Cresci no Tramagal, terra onde aprendi as primeiras letras e os valores da fraternidade e da liberdade. Mantenho-me apaixonada pelo processo de descoberta, investigação e escrita de uma boa história. Gosto de plantar árvores e flores, sou mãe a dobrar e escrevi quatro livros.

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2 COMENTÁRIOS

  1. Patrícia Fonseca, não tens lembrança disso, mas andei contigo ao colo! Tu desconheces, mas eu conheço, a maior parte dessa estória está muito mal contada. Só tenho pena da criança! Com o terreno que têem podia estar mais tratado e a dar rendimento. Na casa que está em frente vive um rapaz (homem) com problemas psiquiátricos….mas ninguém se preocupou com isso! Podia dizer-te mais coisas, mas não por aqui.

  2. Sim vive um rapaz que praticamente faz vida na casa que está a ser recuperada e é la que tem tomado banho, mas por não existir uma boa orientação não se deve ajudar a criança e tentar que eles ganhem consciência de como utilizar os rendimentos? Que se deve ajudar então?

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