“Relógios de sol de Constância: Testemunhas do tempo que passa”, por António Matias Coelho

Relógio de sol da igreja matriz de Constância | Foto: blog Rio Azul, 1.09.2005

Medir o tempo é das competências que o Homem demorou mais tempo a conseguir… Há pelo menos 12.000 anos que anda inventando engenhos cada vez mais complexos para o fazer, desde a primitiva vara de Jacob até aos mais sofisticados relógios atómicos da atualidade.

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Entre essa infinidade de instrumentos contam-se os relógios de sol, verdadeiras maravilhas artísticas que tiveram a sua época e hoje são importantes sobretudo como testemunhos do tempo que os produziu.

O concelho de Constância tem a felicidade de possuir três desses relógios de sol, todos dos meados do século XVIII, mais um relógio analemático do século XXI, instalado no Centro Ciência Viva – Parque de Astronomia.

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Relógio de sol da Quinta de Santa Bárbara | Foto: CM Constância

O tempo, essa dimensão estranha

O tempo, afinal, o que é? Algo que existe e corre independentemente do homem ou uma criação cultural, que o homem usa para ritmar a sua vida e balizar os diversos ciclos, eternamente repetidos, que a natureza impõe à sua existência?

Santo Agostinho, que viveu no século V, refletindo sobre estas questões, dizia: «Que é então o Tempo? Se ninguém me pergunta, eu sei; se me perguntam, querendo que eu explique, não sei»

O tempo é, de facto, uma dimensão muito difícil de definir e, mais ainda, de apreender. Sabemos que as crianças e os jovens têm enorme dificuldade em dominar a dimensão temporal. Na escolaridade básica, até ao 9.º ano e mesmo depois, os professores de História sabem bem que os séculos e os milénios são realidades que os alunos nomeiam mas estão muito longe de dominar. O tempo, um pouco como o espaço, quando começa a exceder os limites da nossa realidade física imediata, torna-se uma dimensão estranha, grande demais para a pequenez das capacidades que temos.

No entanto, os homens sabem há muito, seja qual for o estádio de desenvolvimento em que se encontrem, que há dia e há noite, que, consoante as latitudes, há verão e há inverno, que os dias de verão têm luz do sol por períodos maiores do que os de inverno, que tem de passar um certo número de dias para que os ciclos se repitam, cadenciados, como se houvesse qualquer invisível comando que os governa. Os homens aprenderam, pela experiência primeiro e pela ciência depois, que uma mulher engravida e nove luas passadas, mais dia, menos dia, há de a criança nascer. Tudo isto é o tempo – essa estranha dimensão que, como Santo Agostinho, sabemos o que é mas não conseguimos explicar.

Por outro lado, o tempo não é o mesmo para toda a gente, nem foi sempre encarado da mesma forma ao longo da evolução das sociedades humanas. Um bosquímano do deserto do Calaári, na África meridional, e um transeunte de Wall Street, em Nova Iorque, não têm, evidentemente, a mesma noção de tempo. O camponês que sobrevivia da sua leira, a meio do século passado, numa aldeia do interior de Portugal, não tinha do tempo a mesma ideia que o seu bisneto agricultor que hoje produz para o mercado. Há pessoas para quem o tempo é dinheiro e que, por muito que vivam, nunca têm tempo para nada, e outras, coitadas, que não sabem que fazer ao tempo, chegando a morrer de tédio

Quantas vezes nos acontece correr imenso para apanhar o comboio, contando em desespero os segundos que nos restam, e depois, tendo ficado na estação, parece-nos uma eternidade a meia hora que falta para o próximo que há de vir… O tempo, afinal, nem sequer para a mesma pessoa significa sempre a mesma coisa…

Medir o tempo

De qualquer forma, o tempo existe e todos, seja onde ou quando for, sentimos necessidade de o medir, para nosso governo e para nos entendermos uns com os outros.

Por isso, ao longo dos últimos 120 séculos, os homens têm inventado e aperfeiçoado um sem-número de instrumentos, das mais variadas formas e dos mais diversos modos de funcionamento, para conseguir medir o tempo, perseguindo sempre o máximo de perfeição e de rigor.

Assim, desde a tosca vara de Jacob, um gnómon que os egípcios utilizavam para medir o tempo através das distâncias das sombras, até aos mais modernos relógios do nosso tempo, é imensa a variedade. Recordemos, sem ser exaustivos, as clepsidras (ou relógios de água), já usadas na Antiguidade, as ampulhetas (ou relógios de areia), documentados a partir dos finais da Idade Média, os quadrantes solares (ou relógios de sol, que aqui nos interessam particularmente), os relógios mecânicos – que podem ser de torre, de parede, despertadores, de bolso ou de pulso – e, nas últimas décadas, os relógios de quartzo, os relógios digitais e os relógios atómicos[1].

Houve épocas em que as horas e as meias eram dadas a toda a gente pelos relógios públicos, colocados nas torres de igrejas ou de outras construções[2]. A vulgarização dos relógios individuais, primeiro de bolso e depois de pulso, veio retirar a esses relógios de torre o monopólio da contagem do tempo e eles foram sendo abandonados. Atualmente, os meios de comunicação em direto, como a rádio, a televisão e a internet e aparelhos como computadores, smartphones e tablets, dão as horas exatas, com minutos e segundos, a cada instante que passa – o que também leva, muitas vezes, a aumentar a correria e o stresse em que temos de nos mover.

Neste mundo acelerado e de medições rigorosas, em tudo e também no tempo, que espaço resta aos velhos relógios de sol? Quem é que ainda os olha? E por que é que os há de olhar? Que será que ainda nos podem proporcionar?

Relógio de sol da igreja matriz de Santa Margarida da Coutada | Foto: CM Constância

Os relógios de sol de Constância

Os três relógios de sol existentes no concelho de Constância[3] são todos da mesma época, separados apenas por três anos e, com muita probabilidade, são obra do mesmo autor, o escultor e arquiteto italiano João António de Pádua[4].

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O primeiro deles é o que se encontra no alpendre do solar da Quinta de Santa Bárbara. É seguramente trabalho do italiano, visto que os Jesuítas, a quem então pertencia a quinta, lhe pagaram, em 1744, diversos trabalhos que nela realizou, nomeadamente o lindíssimo retábulo da capela, o nicho de Santa Bárbara e o relógio de sol[5].

O segundo, datado de 1746, é, muito provavelmente, também obra de João António de Pádua que, como tudo parece indicar, trabalhou de seguida na atual igreja matriz de Constância[6], em cujo cunhal o relógio se encontra implantado.

Do ano seguinte, 1747, é o da igreja matriz de Santa Margarida da Coutada. A proximidade das datas e a semelhança das formas permitem pensar que tenha sido o escultor italiano a conceber também este terceiro relógio de sol.

A partir de 2004 passou a existir, no Centro Ciência Viva de Constância – Parque de Astronomia, um relógio analemático. Trata-se de um relógio desenhado no chão, cujo sistema de funcionamento se baseia na medição do comprimento da sombra de um objeto posicionado sobre ele. A particularidade mais interessante deste relógio, utilizado para demonstrações e explicações científicas, é que o ponteiro é a sombra do próprio observador que assim se torna parte integrante do objeto com que procura medir o tempo.

Relógio de sol analemático do Centro Ciência Viva de Constância | Foto: CM Constância

Um património a valorizar

No tempo em que vivemos, em que as horas andam sempre nos nossos pulsos, os velhos relógios de sol passam cada vez mais despercebidos, esquecidos nas paredes altas dos cunhais das nossas igrejas ou de outras construções da época em que eles eram úteis e todos procuravam olhá-los para se entenderem com as horas.

Felizmente são de pedra, o que os protege dos efeitos destruidores do tempo – do tempo que já não medem… Paradoxalmente, o maior inimigo dos relógios de sol não é o tempo, que por eles passa, cadenciado, e os deixa ficar como estão, mas o homem, ou melhor, o desleixo, a insensibilidade e mesmo a ignorância de quem não os preserva, os aprecia e os valoriza.

É pobre uma sociedade que, crendo-se desenvolvida, entende dar-se ao luxo de desprezar os testemunhos das fases por que passou. É rica uma comunidade que sabe dar passos seguros no caminho do progresso, assentes no conhecimento, nos valores e no património próprios do percurso que fez até chegar onde está.

Os relógios de sol do concelho de Constância são peças essenciais desse património, são sinais vivos da nossa memória, do que fomos e soubemos noutro tempo e que devemos preservar e valorizar, projetando-os, com a dignidade que merecem, no tempo que há de vir[7].

________

[1] Sobre o conceito de tempo e a multiplicidade de instrumentos que o homem foi inventando para o medir, veja-se o excelente texto do Dr. Jorge Custódio «Introdução ao Núcleo Museológico do Tempo, Projecto Museológico e Concepção de Tempo», in Torre das Cabaças. Núcleo Museológico do Tempo, Câmara Municipal de Santarém, Santarém, 1999, pp. 101/115.

[2] Temos em Constância um excelente exemplo de um relógio de torre público, que foi alvo de beneficiação no início deste século, tal como a torre municipal em que se encontra instalado. Infelizmente está há já uns anos avariado, não podendo, por isso, dar horas ao povo. Veja-se, a propósito dele, o texto do autor «O relógio de um ponteiro só», publicado no Boletim Informativo da Câmara Municipal de Constância, n.º 75, maio / junho 2002, pp. 15/17.

[3] Sobre cada um dos três relógios de sol do século XVIII existentes no concelho de Constância, veja-se o livro do autor Histórias do Património do Concelho de Constância, Câmara Municipal de Constância, Constância, 1999, pp. 11, 18-19 (nota 2) e 103.

[4] João António Bellini de Pádua trabalhou em Portugal durante um quarto de século, entre 1725 e 1749, tendo deixado obra de relevo em diversos lugares do país, como Évora, Lisboa, Santarém e Constância.

[5] DUARTE, António, «Um retábulo de Santa Bárbara por António de Pádua», in Novas Obras de Arte Quinhentista do Tempo de Camões, Associação para a Reconstrução e Instalação da Casa-Memória de Camões em Constância, [s.l.], 1986, pp. 61/65.

[6] Relativamente ao trabalho que, com toda a probabilidade, João António de Pádua realizou ou dirigiu na atual igreja matriz de Constância, veja-se o artigo do autor «A Torre de Santa Bárbara», publicado no Boletim Informativo da Câmara Municipal de Constância, n.º 59, set.º / out.º 1999, pp. 14/15.

[7] Este texto, no qual foram agora introduzidas ligeiras alterações, foi originalmente publicado no Boletim Informativo da Câmara Municipal de Constância, n.º 88, julho / agosto 2004, pp. 16-17.

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