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Quarta-feira, Dezembro 1, 2021

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“Regressar ao passado”, por Vasco Damas

Diz o povo na sua infinita sabedoria que não se deve voltar aonde já se foi feliz. Mais complexo se torna quando este regresso ocorre com quase quatro décadas de intervalo. O sentimento é agridoce. Voltar como pai onde fui feliz como filho. Mas o tempero do sentimento não está relacionado com o estatuto. Está antes ligado às memórias mais bonitas e aos afetos do passado que infelizmente não se podem repetir no presente.

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Colocando as coisas em perspetiva, há quase 40 anos o fenómeno da globalização ainda não tinha sido desenhado e este era um admirável mundo novo onde convivíamos com culturas e nacionalidades que, com uma ou outra exceção, apenas era possível conviver por estas latitudes.

Nesses tempos a vida vivia-se de forma mastigada, com foco nas relações, nas conversas, na amizade e na socialização, porque ainda se ignorava a cultura do instantâneo e do consumo descartável que nos foram trazidos pelas selfies e pelas redes sociais. Na altura, mais importante do que mostrar que se tinha estado era de facto desfrutar enquanto se estava.

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Voltar com as minhas filhas ao local onde fui feliz há mais de 30 anos deixa-me, de facto, nostálgico, não devido à evolução que o mundo sofreu e, por causa disso, ter noção de que elas não podem viver aquilo que eu vivi da mesma forma, nem com a mesma intensidade, até porque a vida delas terá naturalmente de ser vivida por elas, mas por não poderem desfrutar da presença do avô, que iria adorar a companhia das suas netas e que, infeliz e cruelmente, quis a vida que nem as chegasse a conhecer.

Muito do que existia há mais de 30 anos não resistiu ao inexorável passar dos anos mas, mesmo assim, recordo cada espaço, cada rua, cada praça e cada local como se ainda existissem e como se ali estivesse estado ontem.

Ao caminhar pelas ruas onde outrora caminhei na companhia do meu pai sinto-me “mais” sozinho apesar de paradoxalmente sentir a sua presença a cada esquina. Esta presença quase física limita-se a aumentar as saudades dele e dos momentos que vivemos. É uma presença que se sente no desfiar das memórias que regressam sem esforço e sem pedir autorização. A cada passo recordo o seu sorriso natural que acompanhava a sua boa disposição crónica e que contagiava todos aqueles com quem convivia. Recordo também a educação e a simpatia que entregava de forma generosa a quem conhecia e também a quem não conhecia, principalmente aos turistas que vinham de outros países para quem tinha sempre pronto um “hello!”.

Mesmo que eu me esforce a descrever ao detalhe os pormenores de todos os momentos e de todas as suas características, as minhas filhas nunca conseguirão ter uma ideia aproximada do orgulho que iriam ter no seu avô. Bom, a mais pequenita ainda não entende bem estas coisas de adultos mas a mais velha já aprendeu a linguagem dos sentimentos e, sim, ela sente um orgulho e um amor enorme pelo avô… mas mesmo assim esse sentimento, que é de facto brutal, seria infinitamente maior se tivesse tido a oportunidade de o ter conhecido e de ter convivido com ele.

Bem sei que não há solução para esta mágoa mas há coisas que não se controlam, simplesmente sentem-se. E a verdade é que, enquanto assim for, o meu pai continuará a viver entre nós. Pelo menos entre aqueles que o conheceram e que tiveram o privilégio de conviver com ele. E quem teve esse privilégio compreende este sentimento.

É gestor e trabalhar com pessoas, contribuir para o seu crescimento e levá-las a ultrapassar os limites que pensavam que tinham é a sua maior satisfação profissional. Gosta do equilíbrio entre a família como porto de abrigo e das “tempestades” saudáveis provocadas pelos convívios entre amigos. Adora o mar, principalmente no Inverno, que utiliza, sempre que possível, como profilaxia natural. Nos tempos livres gosta de “viajar” à boleia de um bom livro ou de um bom filme. Em síntese, adora desfrutar dos pequenos prazeres da vida.

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