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Trincanela

Sábado, Julho 24, 2021

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“Raivosas e ciumentas”, por Armando Fernandes

Todos os historiadores e investigadores na área da alimentação em Portugal são unânimes em declararem, destacarem, enunciarem a riqueza doçaria conventual e monacal de estirpe portuguesa. As freiras podem não ter deixado receitas de cozinha dignas de registo ou difusão nos dias de hoje, já no tocante a doces e lambiscos o caso muda de figura. Agiganta-se.

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As freiras na sua esmagadora origem provinham de famílias de teres e haveres, muitas eram obrigadas a gastarem os dias e as noites nos recolhimentos religiosos fosse no intuito de proteger os varões, fosse no pressuposto de honrarem as famílias rezando e pedindo bênçãos para a parentela. Aí «penavam» dias sobre dias, também pecavam através de pensamentos, palavras e obras.

Existe farta e forte literatura e iconografia relativa a tais considerados, de sinal contrário, de piedade, martírio e devoção ainda de maior relevo, no que interessa a este escrito, a expressão dos «pecados» no anel da doçaria. Entende-se, os freiráticos quase acampavam em redor dos conventos, as freiras não ficavam indiferentes às lisonjas, as cartas de Soror Mariana ajudam a entender o clima reinante, de noite e de dia. Há relatos de disputas, duelos e cabeleiras despedaçadas.

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As freiras do mesmo modo que outras mulheres desenvolviam afeições e raivas (até ódios) teimosos, Ódio Velho Não Cansa é o título de um romance de Rodrigo Paganino, levando a dualidade ao baptizado de inúmeras receitas hoje consagradas, outras deturpadas, em receituários de vária ordem e desordem.

E, façam o favor de tomar nota no intuito de a seguir encontrarem as receitas visto aproximar-se a quadra natalícia, dias de folgança dietética, logo de adoçar o palato pois como dizia o estudioso Emanuel Ribeiro, o doce nunca amargou. Assim, enumero: manjar branco, toucinho-do-céu, bolo do Paraíso (pois), papos de anjo, beijos de freira, pingos de tocha, barrigas de freira, fatias celestes, queijinhos do céu, melindres, arrufadas, raivas, súplicas, suspiros, esperanças, esquecidos, lérias, galhofas, caladinhos, bolos de amor, casadinhos, beijinhos, alfenins, línguas-de-gato, tortas de amêndoa, roscas doces, sonhos, ladrilhos de marmelada, trouxa-de-ovos, bolos secos, bolos de manteiga, bolo podre e as tigeladas, uma receita de tigelada levou no enxoval a bela Infanta D. Maria.

Em face da enunciação, longe de estar esgotada, temos à nossa disposição nomes de receitas a refulgirem de despeito, de inveja (a competição entre Conventos era grande), também de desejo, de ternura e amor. Façam favor de escolher, leiam as receitas escolhidas e ousem praticar!

Em devido tempo referi várias composições doceiras provenientes dos Conventos de Abrantes e imediações, por essa razão não as inseri nesta incompleta lista, a mesma apenas subordinada à doçaria de inspiração religiosa. Se nisso houver interesse consultem Culinária e Doçaria Portuguesa de Fernando Castelo Branco, o já referido Emanuel Ribeiro, ainda Sebastião Pessanha e Manuel Mendes, são autores rigorosos.

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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