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Sábado, Julho 24, 2021

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“Quirguistão: o duplo “ethos” primeiro, os Panama Papers depois”, por Tiago Ferreira Lopes

A foto de Temir Sariyev, agora ex-Primeiro-Ministro do Quirguistão, tem surgido um pouco por todas as redes sociais como sendo a segunda “vítima” dos mediáticos Panama Papers, após a demissão do Primeiro-Ministro da Islândia (Sigmundur Gunnlaugsson) e antecedendo a queda do Primeiro-Ministro da Ucrânia (Arseniy Yatsenyuk). Aguardam-se mais novidades dos Primeiros-Ministros de Malta, Reino Unido e (pois claro!) do Panamá.

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Segundo uma Comissão de Inquérito Parlamentar, Temir Sariyev terá usado o seu cargo de Primeiro-Ministro para beneficiar uma companhia chinesa, que o beneficiaria mais tarde. O caso envolvia não apenas o Primeiro-Ministro (e curiosamente antigo Ministro das Finanças!) mas também o Ministro das Obras Públicas.  A demissão foi tomada como sendo uma vitória dos Panama Papers. E até pode ter sido… mas outros factores entram aqui em jogo!

A conquista e manutenção do poder, actos supremos da política segundo Maquiavel, no Quirguistão está dependente de uma dupla dinâmica interdependente: geografia e identidade. O poder joga-se entre os clãs de Osh e Bishkek. Ora vejamos, Temir Sariyev foi precedido pelo Primeiro-Ministro interino Djoomart Kaipovich Otorbaev, nascido em Bishkek.

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Ora o Sr. Djoomart renunciou ao cargo, a 1 de Maio de 2015, porque “a coligação parlamentar deveria escolher um Primeiro Ministro decente”. A coligação escolheu Temir Sariyev nascido em Tosh-Bulak, pequena localidade parte da província de Chuy cujo centro administrativo é  Bishkek. Além da extraordinária coincidência, a confirmar-se tudo o que está nos Panama Papers, a escolha da coligação está longe de ter sido uma escolha decente.

TIAGO2Mas porque razão se tornou Djoomart Kaipovich Otorbaev, Primeiro Ministro Interino do Quirguistão em finais de Março de 2014? Porque o Primeiro-Ministro Zhantoro Satybaldiyev (nascido em Osh) foi acusado de corrupção e de ter provocado uma redução acelerada do crescimento do PIB. Antes de Zhantoro, tinha estado no poder (Setembro de 2012) mais um Primeiro Ministro Interino: Aaly Karashev (também este nascido em Osh).

Antes de Aaly, o cargo de Primeiro-Ministro pertencera (desde Dezembro de 2011) a Omurbek Babanov, político que apesar de ter nascido em Shymkent (actual distrito do Cazaquistão), tem ligações directas a Bishkek. O seu antecessor Almazbek Atambayev, um dos vencedores da Revolução de Abril de 2010, e Primeiro-Ministro por apenas um mês (tendo depois assumido a Presidência do Quirguistão), nasceu em Arashan, que pertence à província de Bishkek.

Sooronbay Jeenbekov, novo Primeiro-Ministro do Quirguistão, nasceu em Osh mantendo-se assim a curiosa dupla rotatividade entre Primeiros-ministros vindos de Osh e os vindos de Bishkek. E por isso quem alude aos Panama Papers como a causa central da queda do Primeiro-Ministro do Quirguistão, claramente pouco conhece das dinâmicas do poder no país. É importante dizer que a maioria dos Primeiros-Ministros do Quirguistão não chega a ter mandatos de dois anos. E quase podemos adivinhar que o sucessor de Sooronbay também será de Osh…

O Quirguistão, que viveu a Revolução Túlipa em 2005 e a contra-Revolução de Abril em 2010, tem vivido num dualidade política curiosa. O Quirguistão é, talvez, a única democracia híbrida parlamentar semi-funcional da Ásia Central pós-soviética. O Quirguistão é, sem dúvida nenhuma, o único regime onde o  Presidente tem os poderes limitados pelo Parlamento. Mas o Quirguistão é também o país onde a dinâmica do clã dita as regras, antes do partido político.

O Quirguistão ainda tem em curso o processo de negociação e estabelecimento de fronteiras com os vizinhos Tajiquistão e Uzbequistão.  Mas enquanto se delimitam fronteiras e marcos geofísicos, o Quirguistão parece não querer limitar fronteiras entre o ethos partilhado pelos etno-clãs e a política nacional.

E assim o país vai dançando entre Osh e entre Bishkek. E o eleitor-cidadão que pague o baile…

Professor Auxiliar no IBA (Paquistão), licenciou-se em Comunicação Social na Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA-IPT), cidade onde cresceu e viveu até aos 22 anos. Doutorado em Relações Internacionais (ISCSP-UL), colabora com vários centros de investigação internacionais. É autor da coluna “Cadernos do Tiaguistão” publicada na revista PACTA (ISCSP-UL, Lisboa), autor-residente da revista MindThis (Canadá), editor de opinião para a revista think.act.lead (Eslováquia) e editor-chefe do SOJRS (Turquia).
Escreve no mediotejo.net ao domingo, quinzenalmente.

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