“Quem faz mudar o Mundo”, por José Rafael Nascimento

Cartoon de Pawel Kuczynski

“Lidere a mudança, antes que seja obrigado a mudar”
– Jack Welch

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Dizemos, com frequência, que “estamos todos no mesmo barco”, para logo nos corrigirem dizendo, com razão, que “estamos todos no mesmo mar, mas não no mesmo barco”. Em qualquer dos casos, dependemos uns dos outros e, o que acontece a um ou a vários, implica com todos os outros. Podemos não ter essa noção, mas é assim, sendo o barco frágil e o mar perigoso (apesar de ambos encantadores). O filósofo existencialista dinamarquês Søren Kierkegaard caricaturou esta viagem, sugerindo que o único altifalante do barco está nas mãos do cozinheiro (e não do comandante) e os passageiros estão mais interessados na ementa da próxima refeição do que nas condições do mar ou na rota que está a ser seguida.

Obviamente que esta (in)consciência tem de mudar, mas mudar como? Um estudo publicado há um par de anos na revista Science, conduzido por Damon Centola e colegas das Universidades da Pensilvânia e de Londres, demonstrou que basta ganhar os “corações e as mentes” de 25% dos indivíduos de uma dada comunidade para produzir a mudança social que se deseja, i.e., para que uma atitude minoritária ganhe a adesão da maioria da população, tornando-se mainstream. Evidentemente que esta é uma proporção média, a qual varia de acordo com vários factores adiante referidos. Atingidos esses 25% – o famoso tipping point –, a curva de adopção tende a disparar e a alcançar o universo desejado.

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Adam Smith contou em 1776, na sua obra A Riqueza das Nações, a famosa história do casaco de lã, onde se encontra o Mundo todo. Também há muito que os psicólogos sociais sabem que cada um de nós influencia e muda algo no Mundo, sendo igualmente influenciado e transformado por este. A área da Influência Social é, para mim, uma das mais fascinantes da ciência psicossocial. Estudei-a e leccionei-a com gosto, designadamente sobre aquilo que comummente se designa por “passa-palavra” ou “de boca em boca” (word-of-mouth para os ingleses, bouche-à-oreille para os franceses).

Já sabíamos “Que o sonho comanda a vida / E que sempre que um homem sonha / O mundo pula e avança” (António Gedeão). O que não sabíamos é de quantas pessoas precisávamos para sonhar e agir: 1 para começar e 25% para transformar. Imagem: Inscrição mural numa rua de Amarante

Influenciamos quem está perto e longe de nós, com maior ou menor frequência. Influenciamos quem está na nossa presença e com quem interagimos à distância, em especial através das redes sociais. Influenciamos mais em determinados aspectos do que noutros, consoante o nosso tipo de autoridade. Influenciamos pela palavra e sobretudo pelo exemplo, com as nossas atitudes e comportamentos. E produzimos, com a nossa influência, diferentes impactos: directos e indirectos, imediatos e diferidos, explícitos e implícitos, em público e em privado.

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Tudo isto fazemos – e nos fazem –, tenhamos ou não consciência do facto, assim como do processo inerente. Esta é a inevitabilidade de sermos seres sociais, pois seria impossível sobrevivermos humanamente se fossemos apartados de todos os outros. Nesse processo de interacção e influência social, três papéis se destacam: o de Maven  aquele que “sabe tudo”, o de Connector – aquele que “conhece meio mundo” e o de Salesman – aquele que “convence toda a gente”. Os chamados líderes de opinião são aqueles que juntam, em medida superior à média, todas ou algumas destas características.

Temos, então, líderes de opinião formais e informais, os primeiros dotados de um estatuto reconhecido pelo seu grupo social e os segundos por desempenharem ocasionalmente o papel de opinion maker, sendo uns de referência e outros de afinidade. De qualquer modo, o “passa-palavra” – ou seja, o processo de influência social – ocorre natural e espontaneamente entre as pessoas, nomeadamente quando a informação possui uma significativa carga emocional. Pode, também, ser determinado por uma motivação altruísta de cooperação ou pela retribuição de um incentivo ou recompensa.

Mafalda e a mudança que Quino (o seu criador), com imensa ironia, sempre quis ver no Mundo. Deixou-nos fisicamente no início deste mês, legando-nos um apurado sentido de liberdade, justiça e democracia. E a responsabilidade de prosseguir empenhadamente o seu activismo.

O certo é que estamos muito mais perto de qualquer pessoa da nossa comunidade – ou à superfície do nosso planeta – do que imaginamos. Na verdade, estamos à distância média de seis pessoas, sendo esta teoria conhecida por “pequeno mundo” ou “seis graus de separação” (a que já me referi em crónica anterior). Há sempre alguém que conhece alguém que, por sua vez, conhece alguém… e assim sucessivamente. Os factores que determinam a velocidade da difusão (da ideia ou atitude) são, além das características destas, as do meio social em questão, a comunicação realizada e o tempo que decorre.

Por sua vez, as características do objecto de difusão prendem-se com a sua vantagem relativa, observabilidade, complexidade, experimentabilidade e compatibilidade. Trocado por miúdos, uma nova ideia ou atitude será tanto mais (depressa) adoptada quanto as suas vantagens sejam reconhecidas pela comunidade, fáceis de notar e compreender, comprováveis e coerentes com os valores e preferências dos potenciais adoptantes. Este processo de disseminação de ideias e atitudes, quando viável e efectivo, começa num único indivíduo – “Há sempre alguém que resiste / Há sempre alguém que diz não” – e alarga-se, a maior ou menor ritmo, aos tais 25% que asseguram a mudança social desejada.

É, pois, um processo individual e colectivo, de pequeno e grande grupo. Esta evidência, deveria levar cada cidadão a ter maior autoconfiança e um sentimento mais forte de auto-eficácia, procurando “ser a mudança que deseja ver no mundo”, como terá dito o Mahatma Gandhi. Tal como o Colibri que procurava apagar o fogo na floresta levando no bico uma gota de água, é o exemplo de cada um que mobiliza a acção de todos. Não se diga, portanto, que de nada vale a acção individual. Ela vale e muito, como a História tem provado à exaustão. O que importa então fazer? Começar, dar o primeiro passo, porque o resto vem naturalmente.

*O autor não segue as regras do novo acordo ortográfico.

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