Queixoperra/Mação | A tradição da chanfana que nasceu das malhas do pão (C/vídeo/fotos)

O início deste outono apresenta-se quente lembrando um verão de incêndios que permanece na memória das gentes de Queixoperra, no concelho de Mação. Mas a população não baixa os braços e faz a festa apesar de toda a zona envolvente da aldeia ter sido consumida pelas chamas. O Centro Recreativo e Cultural decidiu cumprir com as atividades programadas e na noite deste sábado, 7 de outubro, a população da aldeia quase que duplicou; o Festival da Chanfana atraiu mais de 300 pessoas. Residentes, vizinhos e filhos da terra a ganhar o pão por outras paragens fizeram questão de comer a carne temperada pelas sábias mãos de Regina Martins que dá umas dicas mas recusa contar o segredo da sua já famosa receita.

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Quando Rui Silva, presidente da direção do Centro Recreativo e Cultural de Queixoperra (CRCQ), teve a ideia de recuperar a tradição da chanfana através de um evento que pudesse comportar não só os residentes da aldeia mas quem os quisesse visitar, pensava que o mais difícil seria comprar a matéria prima, uma vez que escasseia a carne de cabra autóctone para confecionar este prato tão genuíno muito ligado às tradições serranas. Depressa percebeu que difícil era conseguir sentar à mesa todas as pessoas que procuravam (e procuram) a associação para um lugar no Festival da Chanfana.

Na aldeia, que agora tem 170 habitantes, “já havia tradição quando se fazia as malhas do pão de matar uma ovelha ou uma cabra, dependendo do que as pessoas tinham em casa, para aquele dia” explica Rui Silva ao mediotejo.net. As festas estiveram ativas em Queixoperra até 1964, depois pararam até início da década de 80. No ano que a luz elétrica chegou à aldeia “os rapazes decidiram fazer um baile. Viram que deu lucro e tornou-se um hábito” o arraial popular e os petiscos na segunda-feira a seguir à festa de julho. Da fatalidade de morrer uma cabra enforcada na altura da terceira festa de Queixoperra, recuperou-se a tradição de comer chanfana, oferecido que foi o animal para preparar o petisco.

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Rui Silva, presidente da direção do Centro Cultural e Recreativo de Queixoperra, festeiro há várias décadas foi um dos impulsionadores do Festival da Chanfana

A partir daí, durante o peditório anual, os festeiros pediam cabras ou ovelhas a quem quisesse doar com o intuito de oferecer uma refeição de chanfana à população de Queixoperra. Aliás, ainda hoje, no peditório realizado pelo CRCQ existem várias doações em espécie. Esse facto pode ser devidamente comprovado na lista de nomes e respetivas doações exposta no café desta associação fundada em 1990.

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Agora “todos os anos na segunda-feira da Festa faz-se a chanfana. Já chegámos a ter 350 pessoas sentada à mesa na associação que oferece o jantar”. Mas essa iniciativa não chegava para Rui Silva. Entusiasmado pelo sucesso do prato confecionado com ovelha ou cabra adulta, e não apenas a tradicional “cabra velha”, mais habitual na preparação da chanfana, lançou a ideia da aldeia avançar para um Festival que em 2017 cumpriu a sua quarta edição.

A sala do Centro Recreativo e Cultural de Queixoperra com lotação esgotada no jantar do Festival da Chanfana

“Há mais de 30 anos que se reativou a tradição da chanfana” indica Lurdes Vicente, vice-presidente da associação. As festas de julho “traziam sempre muita gente e todos apreciavam a nossa chanfana” e surgiu assim o Festival. Quanto ao tempo que o associativismo pode ou não ‘roubar’ a cada um dos voluntários, Lurdes Vicente responde convicta: “Não! É preciso é boa vontade. Esta é uma aldeia onde toda a gente ajuda e participa”.

E verdade seja dita que em Queixoperra o povo tem formas diferentes de fazer as coisas. Também a chanfana foge à regra que apresenta a cabra, quanto mais velha melhor, cozinhada em caçoila de barro negro em forno de lenha. Em Queixoperra, para realizar o IV Festival foram cozinhados 170 quilogramas de carne de ovelha, devido à dificuldade cada vez mais presente em comprar carne de cabra, numa espécie de guisado cozido em fogo lento durante 4 horas num tacho que seria vulgar em qualquer lar não fossem as exageradas dimensões.

No CRCQ “temos sócios mas não temos quotas, na festa fazemos um peditório e cada um dá o que quiser. Temos eleições de três em três anos mas não existem listas candidatas, cada pessoa da terra com mais de 16 anos pode votar em quem entender e as onze pessoas mais votadas ficam nos órgãos sociais sendo o poder de decisão igual entre todas. Mais democrático que isto não há”, advoga Flávio Santos, presidente do conselho fiscal do CRCQ.

O Festival “tem corrido sempre bem” garante, por seu lado, Rui Silva. E este sábado, mais uma vez com lotação esgotada, cerca de 300 pessoas foram até Queixoperra para jantar, uma refeição por 13 euros, um valor considerado “justo e que possa garantir alguma margem de lucro” refere Flávio.

O objetivo “é angariar fundos para a associação”. Até porque este ano, devido aos incêndios perceberam a importância dos kits de combate a fogos. Além da unidade disponibilizada pela Câmara Municipal de Mação ponderam comprar outra por considerarem uma “mais valia para a população”.

Lurdes Vicente e Regina Martins colocavam na bancada as primeiras travessas de chanfana, prontas a ir à mesa

Regina Santos Martins, de 58 anos, cozinheira há 37, habituada a confecionar, diariamente, refeições para centenas de alunos no Agrupamento de Escolas Verde Horizonte de Mação, é apontada pelos conterrâneos como “a grande responsável” pelo sucesso do evento. “Toda a gente se admira como é que a carne cozinhada num tacho tão grande, fica tão saborosa” sublinha Rui Silva.

Além de cozinhar quatro horas “em vinho bom, com bastantes ervas aromáticas como salsa e hortelã, a carne leva um toque final que é o segredo da cozinheira”, confessa ao mediotejo.net Regina Martins. Quando iniciou estas lides de festivaleira “já sabia temperar chanfana” mas a prática, tal como o prato, vai apurando de ano para ano, diz.

Testemunha do “bom paladar da iguaria” é Natália Martins, filha da terra a viver há 28 anos em Lisboa. Veio pela primeira vez ao Festival da Chanfana que julgava “não apreciar” e trouxe dois casais amigos para a prova gastronómica. Uma visita que “superou as expetativas” também para Anabela e Rosário Santos pela qualidade do jantar, no qual Natália aproveitou para confraternizar com a família. João, de Valhascos, e Nuno Lobato, de Santiago de Montalegre, Sardoal, ambos estreantes no Festival de Queixoperra, gostam de chanfana mas confessam ser “o convívio com os amigos” o principal motivo desta viagem até ao concelho vizinho.

O CRCQ situa-se no centro da aldeia, onde está inserido o único café da povoação, com espaço para dar largas à imaginação de quem queira aproveitar, por exemplo, o salão que pode ser requisitado para casamentos ou batizados, as duas salas no primeiro andar que já serviram de escola primária e pré-escolar às crianças que agora estudam na vila de Mação, a nove quilómetros de casa.

Orgulham-se de ser a aldeia com população mais jovem do concelho e sabem como ninguém que a união faz a força. O CRCQ como associação “é o maior pólo dinamizador do concelho de Mação” sustenta Flávio Santos. Organiza “várias atividades diversificadas ao longo do ano. Todos os meses temos duas ou três atividades diferentes” explica. E o CRCQ disponibiliza um ginásio equipado com vários aparelhos de fitness, mesa de ping-pong, aulas de zumba duas vezes por semana, aulas de acordeão, passeios pedestres, de autocarro e até de avião. No sentido de “dar uma oportunidade a quem nunca tinha andado de avião fomos um dia almoçar à Madeira e regressámos”, conta.

Além dos fundos que conseguem angariar nos eventos e no café, que abre todos os dias à hora de almoço e à noite, contam ainda com apoio financeiro da Câmara Municipal e da Junta de Freguesia. O presidente da Câmara, Vasco Estrela, o vereador Vasco Marques, que vive em Queixoperra, e o presidente da União de Freguesias de Mação, Penhascoso e Aboboreira, José Fernando Martins, também marcaram presença na festa.

O presidente da Câmara Municipal de Mação, Vasco Estrela, e o vereador Vasco Marques, a viver em Queixoperra, também marcaram presença no evento.

Mais do que gostar de chanfana e do convívio com os munícipes Vasco Estrela considera a sua presença “uma obrigação” não só da Câmara Municipal mas de “outras entidades acompanharem as iniciativas das associações” na sua dinâmica. Esta iniciativa em concreto, “até pelo sucesso de que se reveste, merece todo o carinho e apoio” por parte da autarquia. Vasco Estrela reforça mais uma vez “a importância e o valor das associações” do concelho, bem como “os extraordinários dirigentes que têm”, sendo Queixoperra considerado “um bom exemplo daquilo que as pessoas fazem de uma forma voluntariosa, com vontade de ajudar os outros, a sua terra e o seu concelho”.

“O meu pai, Mateus Jesus Marques, juntamente com outros ilustres membros desta associação que infelizmente já faleceram, deram início a esta coletividade que tanto nos orgulha”, recorda Vasco Marques. “Nos primeiros anos com muitas dificuldades, e com as próprias mãos começaram a construir, pedra sobre pedra, todo este edifício. Fizemos muitos jantares de chanfana e não só, com esta união e com espírito de aldeia que adoramos, chegámos a esta sala cheia”, observa.

Vasco Marques, por motivos académicos, esteve fora durante muitos anos e hoje tem ligação profissional a uma empresa de Oleiros mas escolheu viver em Queixoperra. “Neste momento como exerço funções de vereador na câmara Municipal de Mação tenho a possibilidade e a felicidade de estar por cá todos os dias”.

A união da população de aldeia “é algo que não se vê mas é sem dúvida a nossa força. Nos momentos bons e nos maus este espírito de unidade faz com que qualquer pessoa que esteja em qualquer parte do mundo, quando se fala em Queixoperra, o faça com grande sentimento de pertença, amizade, mas sobretudo com orgulho”, destaca.

Após o jantar alguns voluntários do CRCQ fotografaram os presentes segurando uma pequena ardósia onde se podia ler IV Festival de Chanfana ou ainda “Tenho esta aldeia no coração”. Depois foi a vez de Francisca Gomes animar os participantes num serão da mais tradicional música portuguesa: o fado. A jovem fadista, natural de Abrantes mas com ligações a Queixoperra, foi acompanhada por Nuno Ezequiel (guitarra portuguesa) e Alexandre Silva (viola de fado).

A ideia passou por “abrilhantar o evento e apesar de ser uma noite gastronómica também acrescentar um serão cultural” esclareceu Flávio Santos, mencionando ser hábito desde o início do Festival a existência de animação musical.

Queixoperra/Mação | Regina Santos Martins é a cozinheira do Festival da Chanfana organizado pelo Centro Recreativo e Cultural de Queixoperra. Há quatro anos que coloca os seus segredos culinários nos tachos que cozinham por horas a iguaria, atraindo cada vez mais comensais.

Publicado por mediotejo.net em Sábado, 7 de Outubro de 2017

 

Queixoperra /Mação | Rui Silva, presidente da direção do Centro Recreativo e Cultural de Queixoperra, fala da tradição da chanfana e do Festival que este ano cumpriu a sua quarta edição.

Publicado por mediotejo.net em Sábado, 7 de Outubro de 2017

 

Queixoperra /Mação | O Festival da Chanfana recebeu este sábado 7de outubro mais de 300 pessoas no Centro Recreativo e Cultural. Alguns filhos da terra como Natália Martins a residir em Lisboa marcaram presença para conviver com amigos de familiares.

Publicado por mediotejo.net em Sábado, 7 de Outubro de 2017

 

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Paula Mourato
A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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