“Que festa é esta?”, por António Matias Coelho

Representação do Município de Almeirim na Bênção dos Barcos, 2011 | Foto: CM Constância

Do conjunto das festividades cíclicas do Vale do Tejo, há duas ou três que claramente se destacam, quer pelo seu significado, quer pelo volume de pessoas que movimentam, quer pela projeção que conseguem alcançar. Uma delas é, sem dúvida, a Festa de Nossa Senhora da Boa Viagem que todos os anos se cumpre em Constância por ocasião da Páscoa.

Que festa é esta afinal, donde lhe vem o sentido, o que a faz tão participada, que encanto ela terá que chama os olhos da gente, milhares que vêm e outros muitos milhares que se interessam por saber o que acontece aqui e, se não vêm, virão, quando a vida os deixar vir?

São muitas as razões que se podem reunir para tentar explicar a vitalidade da Festa. Porque uma Festa, é sabido, tem de ser sempre o encontro de muitas motivações, de uma infinidade de afetos que se juntam para dar corpo àquilo que depois se vê. Mas parece-me que o segredo da força que tem a Festa se poderá resumir a quatro características que lhe estão na própria essência: é uma festa com História, uma realização coletiva, aposta na criatividade e conhece a alma que tem.

A História é conhecida: a Constância que temos hoje, muito mudada pelo tempo e pela evolução da vida, é herdeira da Punhete de outros séculos atrás, porto fluvial estratégico, no encontro de Zêzere e Tejo, de importância crucial para o tráfego de mercadorias entre o interior e Lisboa.

Desse movimento dos barcos, dos homens e dos produtos se fez a vila, ela mesma, como se fosse nascida das próprias águas dos rios.

E da navegação vieram também os perigos e os receios, as aflições e a necessidade de proteção que gerou a devoção à Senhora da Boa Viagem e a Festa em cada Páscoa, para abençoar os barcos e agradecer o amparo da Senhora.

Sempre assim foi, há mais de duzentos anos, apesar das vicissitudes da vida, dos rios, da vila. A Festa chegou até nós carregando esta História, transportando consigo uma enorme dignidade.

Procissão de Nossa Senhora da Boa Viagem |
Foto: CM de Constância

Depois a Festa resulta do querer de muita gente, a começar pela Paróquia, que a manteve viva na mais crítica das fases por que teve de passar, quando os barcos acostaram e Constância mudou de vida, conta com os moradores – e, mais recentemente, com o Agrupamento de Escolas e com as associações e outras entidades e pessoas de todo o concelho – que se envolvem com generosidade e entusiasmo no engalanar da vila para receber a Senhora e a multidão dos festeiros, com a autarquia, os vizinhos, os amigos, gente do Tejo e do Zêzere, arrais, pescadores, barqueiros, de longe e de muito longe, todos aqui se juntando, em dia da Boa Viagem, para o encontro, o abraço, a bênção, a festa.

E para o ano cá estarão: há qualquer coisa na Festa que enfeitiça quem se deixe envolver nela e quem cá vem uma vez sempre gosta de voltar.

Enfeitar a Rua do Arco: uma tarefa coletiva | Foto: CM Constância

A pujança que a Festa tem resulta, por outro lado, da sua enorme capacidade para se renovar, para se adaptar aos tempos que hoje vivemos, a sua notável capacidade criativa, gerando novos laços afetivos e novas razões de interesse, potenciando a energia que tem em si e acrescentando novidade à herança que traz consigo. A tradição – já o escrevemos – faz-se, como tudo, sob pena de estar morta.

A tradição é o que recebemos, mais o que formos capazes de lhe acrescentar de nós, o contributo da nossa geração, a nossa marca, o testemunho da nossa passagem pela vida.

É isso que se está fazendo em Constância: herdou-se uma Festa com História, envolveu-se a comunidade nela, acrescentou-se à herança recebida o nosso jeito de ser, o contributo que damos para renovar a tradição e levá-la por diante, mais rica, mais viva, mais participada, mais forte.

Enfim, a Festa tem alma. A essência da Festa é o sítio, a História, a vida. A alma da Festa é o encontro dos rios, a vila que surgiu deles, séculos de ir e vir pelo Tejo, o transporte, o comércio, e depois as mudanças da vida, o fim dos barcos, a nova Constância, outra vez o Tejo e o Zêzere, sempre os rios, este lugar de uma extrema beleza, uma raiz profunda, um futuro que se constrói no respeito por ela mas olhando para diante, vivendo do que se tem, sabendo que a riqueza maior é o conhecimento que temos da nossa própria identidade.

É nisso que a Festa da Senhora da Boa Viagem encontra uma enorme vitalidade: tem sentido, sabe que o tem, conhece-se e gosta de si. Constância não se imagina sem a Festa. Seria um corpo sem alma.

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