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Quinta-feira, Outubro 28, 2021

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“Quando as Câmaras emitiam dinheiro, cédulas abrantinas”, por José Martinho Gaspar

A Primeira República (1910-1926), ficou marcada pela instabilidade política, social e também económica e financeira. Com a implantação do novo regime, surgiram alterações monetárias, instituiu-se uma nova unidade e modificaram-se os títulos das moedas, o seu peso e liga, porém, tudo conjugado de forma a não alterar o seu valor real.

O Decreto-lei de 22 de maio 1911 mandou adotar como unidade de cunhagem monetária o escudo (divisível em 100 centavos), moeda de ouro equivalente ao antigo décimo de coroa, com o valor de 1000 réis, que só apareceu como ensaio. Também como ensaio, existiram moedas de 5 escudos, de ouro, de 1920, que não chegaram a entrar em circulação. Nos últimos anos da Primeira República, o poder de aquisição do escudo (1000 réis) começou a degenerar e a moeda metálica, cujo valor intrínseco ultrapassava o nominal, desapareceu de circulação.

Em tais circunstâncias, em que se sentia cada vez mais a necessidade de dinheiro miúdo, surgiu uma nova moeda de recurso, a cédula de papel, cuja emissão saiu do âmbito da Casa da Moeda e se espalhou por toda a parte, sob a responsabilidade de câmaras municipais, Misericórdias e outras entidades públicas, e mesmo particulares, ainda que, segundo Oliveira Marques, fosse ilegal a emissão de cédulas pelas câmaras municipais ou quaisquer outras instituições que não a Casa da Moeda. As cédulas dessa época (1917-1925), moeda provisória a atestar uma crise na amoedação de metais, podem hoje constituir uma coleção muito desenvolvida e interessante.

No caso de Abrantes, o vereador Manuel Lopes Valente Júnior apresentou, em sessão da Câmara Municipal de dezembro de 1919, a proposta de que a Câmara emitisse 2000$00 em cédulas de um a quatro centavos. Valente Júnior justificava do seguinte modo a sua proposição: “Considerando que a falta de trocos concorre bastante para dificultar grande número de transações comerciais, dando origem até a conflitos pessoais, considerando ainda que muitas casas de negócio têm dado em trocos ao público senhas de um, dois, três e quatro centavos, onde apenas põem um carimbo, armando-se assim em casas bancárias emissoras de papel-moeda […]”. Volvidos dois anos, foi a Associação Comercial de Abrantes que, por proposta do vogal Manuel José Coelho, optou por emitir “[…] cédulas representativas do valor e cinco e dez centavos para facilitar os trocos entre o comércio do concelho que atualmente são difíceis por falta de cédulas da Casa da Moeda”.

Até 1924 tornaram-se comuns os editais da Câmara Municipal de Abrantes a prorrogarem a validade das cédulas por ela emitidas, por prevalecer a escassez de moeda metálica e a dificuldade de trocos. Daqui em diante, iniciou-se o processo inverso de troca das cédulas por dinheiro corrente.

José Martinho Gaspar nasceu em Água das Casas (Abrantes), na década de 60 do século XX, e vive em Abrantes. É Professor de História e Mestre em História Contemporânea. Desenvolve a sua ação entre aulas, atividades associativas (Palha de Abrantes e CEHLA/Zahara, mas também CSCRD de Água das Casas), leitura e escrita, tanto de História como de ficção, sendo autor de vários artigos e livros. Apaixonado por desporto, já não vai em futebóis, mas continua a dar as suas voltas de bicicleta. Afinal, diz, "viver é como andar de bicicleta: não se pode deixar de pedalar e quando surge um cruzamento escolhe-se o nosso caminho".

1 COMENTÁRIO

  1. Bom dia caro José Gaspar
    Li o seu artigo sobre as células e gostei. Do facto agradeço-lhe o prazer que tive na sua leitura.
    Fazendo um bocadinho de graça sobre o assunto, estaria Portugal a fazer uma “ aproximação” ao QUANTITATIVE EASING do Mário
    Cumprimentos
    José Correia

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