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Sexta-feira, Julho 23, 2021

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“Primaveras de Pesadelos”, por Carlos Andrade Costa

Sobre as chamadas primaveras árabes fui um daqueles que em nada se alegraram. Antes pelo contrário. Sobre as mesmas disse, repetidas vezes, que nada de bom haveria a esperar. Nestes países não se pode esperar uma democracia instantânea. Mas pode-se esperar uma instabilidade instantânea se as respetivas lideranças forem subitamente apagadas. A transição, em política, é uma arte e para que não se causem vítimas inocentes.

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O entusiamo europeu, mais uma vez, provinha de uns líricos. De gente que pensa que a segurança dos povos e das nações se faz com uma meia dúzia de abraços e a descida de uma avenida em duas ou três capitais europeias. As mesmas capitais de sempre.

Vem esta minha reflexão não tanto dos trágicos e repugnantes atentados do passado dia 13 de novembro em Paris, mas bem mais da tensão criada entre a Turquia e a Rússia e a propósito do abate de um avião de combate russo pela Força Aérea da Turquia.

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Este preocupante e insólito caso é mais uma consequência mediata do caos que as ditas primaveras árabes trouxeram. Nações inteiras e bem nossas vizinhas que não se governam nem se deixam governar. Desde logo pelos setores mais moderados entre as suas “polvorizadas” forças políticas e religiosas. A título de exemplo, e se fosse preciso um exemplo, veja-se a situação na Líbia. Aqui tão perto.

Turquia que, sendo Marrocos, e em outra latitude, um excecional exemplo, tem sido um elemento de estabilidade politica para os padrões regionais e de intensiva atividade diplomática com alguns dos países vizinhos. Mas não é menos verdade que tem vindo a atuar em várias e relevantes frentes de forma autónoma, por vezes ignorando acidentalmente aliados e praticando a política do facto consumado.

Sem concordar com a severidade das autoridades egípcias no que respeita à condenação à morte de milhares de opositores que provêem das fileiras ou dos setores intelectuais da designada fraternidade muçulmana, ou de movimentos políticos moderados, não é possível deixar de reconhecer o mérito das Forças Armadas do Egipto para o controlo, ainda que frágil, da região do mediterrâneo oriental. Sem a atual situação política no Egipto a Europa teria uma situação política e social bem mais aguda em todo o flanco sul das suas várias fronteiras mediterrânicas. Por exemplo, a crise dos refugiados seria simplesmente épica.

Mas voltando ao incidente Turco-Russo ele é, na minha perspetiva, um aspeto visível e preocupante da multifacetada ambiguidade seguida pela Turquia. Um país repleto de potencial, que ganhou com a liderança de Erdogan uma consciência de si próprio como ator internacional de primeiro nível em todo o médio oriente. Alterando profundamente a sua estratégia, nomeadamente com a Europa, mas sem lhe anular a condição de parceiro essencial. A tensão com a Rússia era, até este incidente, silenciosa em algumas facetas, mas crescente. Sendo que algumas destas facetas são novas. Contudo, o atual momento em todo o médio oriente chegou, em alguns sectores, a desenhar a expectativa de alguma cooperação politica entre Ancara e Moscovo.

Disso tive redobrada consciência numa viagem que, entre outros países, incluiu quer a Turquia quer a Rússia. Viagem relativamente recente e já depois da questão da Crimeia.

Só o tempo dirá se o abate do avião russo pela Força Aérea Turca não poderá traduzir outra clivagem entre as Forças Armadas turcas e o poder político turco. Fragilizando este último. Numa tentativa de forçar o realinhamento da política externa.

 

Música: Tchakovsky, Hymn of the Cherubim. Coro de Câmara do Ministério da Cultura da URSS. Muito facilmente encontrável no Youtube.

Fotografia: Imagem Bizantina de Nossa Senhora em Santa Sofia. Catedral Cristã em Constantinopla e até à queda do Império Romano do Oriente. Depois, Mesquita Principal em Istambul após a conquista Turca. Hoje, monumento sem qualquer culto religioso, traduzindo a tolerância inter-religiosa e inter-civilizacional de que o Mundo tanto precisa.

Carlos Andrade Costa é o actual presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar do Médio Tejo (CHMT).
Carlos Costa tem Licenciatura em Direito e os Cursos de Administração Hospitalar, de Auditor de Defesa Nacional e Pós-graduação em Gestão de Instituições sem Fins Lucrativos, entre outros, como o de Director dos Serviços de Planeamento, Programação Financeira e de Assuntos Bilaterais I, no Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Na Santa Casa de Misericórdia de Lisboa foi administrador delegado de todos os equipamentos de cariz hospitalar da instituição. Membro de Direção dos Hospitais das Forças Armadas, foi o único civil a gerir hospitais militares, Carlos Costa realizou ainda um estágio no âmbito da gestão hospitalar do serviço nacional de saúde Dinamarquês.
É professor em Instituições Universitárias, em cursos de especialização pós graduada, em gestão de saúde.

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