“Presidenciais, Orçamento e instabilidade no horizonte”, por Pedro Marques

Na semana que sucede às eleições presidenciais é inevitável uma palavra sobre o assunto. Marcelo venceu à primeira volta, com folga. Teve mérito, apesar dos muitos ataques de que foi alvo. Espera-se agora uma magistratura serena mas sempre atenta. Com as suas competências intelectuais e emocionais, tenho a certeza de que irá algumas vezes a jogo, esperando que o faça com diplomacia, sentido de Estado, postura construtiva e clareza de valores. Os meses que se avizinham e adivinham não irão ser fáceis e o papel do Presidente quer-se moderado e de união, quando for de união, e de decisão (ou mesmo cisão), quando tal se revele necessário e recomendável.

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O grande derrotado do passado domingo? Foram dois, PS e PCP, dois dos pilares do atual Governo.

Primeiro o PCP, por antagonismo com o BE, o segundo vitorioso da noite. A diferença de votos absolutos e de percentagem entre ambos cria no PCP a necessidade de reflexão profunda e até de se modernizar, de arejar ideias, de evoluir, de combater a cristalização. Caso contrário corre o sério risco de ir perdendo apoiantes, militantes e votos. Jerónimo de Sousa conduziu o PCP ao seu pior resultado de sempre. Facto!

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Depois o PS. É a terceira derrota de António Costa, que continua a sorrir e a assobiar para o lado, como se não houvesse nenhum problema, nem sequer penalização pela forma obtusa como se apropriou do poder, como fez uma coligação negativa e como ameaça perigar os esforços que todos tivemos de fazer nos últimos anos, lançando no ar a perceção de que teremos de voltar, mais dia menos dia, ao país real, pobre, assistido, em dificuldades, que não pode prometer tudo para todos, porque isso implica novos sacrifícios no futuro. Se o espaço socialista teve duas candidaturas à partida fortes (Sampaio da Nóvoa e Maria de Belém, sem desprimor para os demais), a culpa foi apenas de António Costa, da sua inabilidade em gerir o processo. Sampaio da Nóvoa tentou e aprendeu depressa mas as hesitações após ter assumido a candidatura, geradas no seio do PS, foram-lhe fatais. Depois Maria (que perdeu o resto do nome, já que não se pode dizer que seja “de Belém” após este resultado), teve o acidente “Titanic” destas eleições. Foi uma derrota estrondosa, a derrota das subvenções e agora a crueldade de não ter acesso a subvenção do Estado por ter ficado abaixo dos 5% de votos.

Sampaio da Nóvoa foi mais digno na derrota do que na campanha e esteve muitos furos acima de António Costa que, por arrogância, ainda comentou os resultados da noite após o Presidente eleito ter falado ao país. Sinais e tiques que são próprios em António Costa, mas que não deixam de traduzir a sua pouca correção e até, diria, educação.

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Por fim Tino de Rans. Grande resultado e uma campanha em crescendo. Virá agora a sua luta pelas candidaturas independentes a deputado… Não morre politicamente e já anunciou o seu próximo desafio.

Já esta semana Centeno enviou um draft de Orçamento para Bruxelas. Um documento fraco, insustentável, assente em cenários excessivamente otimistas e que gera o consenso de ser irreal e inexequível, exceto para Mário Centeno e António Costa.

Bruxelas quer saber “porque a redução do défice estrutural é tão mais baixa que o acordado (uma redução de apenas duas décimas) e quer respostas até sexta-feira”, avisando que pode ser necessária uma nova versão do draft do Orçamento de Estado. Até falou em erros grosseiros nos cálculos…

Entretanto a Troika está por cá em mais uma visita de acompanhamento. António Costa diz que a carta que recebeu da Comissão Europeia serve para tirar umas “duvidazinhas” normais e que são questões técnicas, para técnicos responderem. Não são. Por que motivo foi, então, necessário a tal carta sido assinada pelo vice-presidente da Comissão, Valdis Dombrovskis, e pelo comissário dos Assuntos Económicos Pierre, Moscovici? Se fosse coisa técnica e de somenos importância o documento teria sido assinado por um tecnocrata funcionário das instituições europeias… Há aqui um claro sinal de firmeza das instituições europeias que Costa desvaloriza e Centeno nem sequer compreende, com aquele seu sorriso e ar meio alucinados. De acordo com o Jornal de Negócios, António Costa terá dado uma entrevista ao Finantial Times na qual afirma que “a redução proposta para o défice estrutural era «a maior em muitos anos»”, mas na verdade trata-se da segunda menor desde 2011.

Costa já está naquela fase em que talvez acredite nas mentiras que conta. Se é com consciência ou sem a dita, isso não sei. Mas começa a ser visível o desnorte. Também visível quando Centeno diz que a despesa com salários da função pública não pode crescer com a reposição das 35 horas semanais e, por outro lado, Adalberto Campos Fernandes, ministro da Saúde, já assumiu publicamente que, com esta redução, será necessário contratar mais profissionais de saúde e que isso implica aumento da despesa. Ainda agora começaram e já estão desalinhados. Ninguém manda e, pior que isso, ninguém comanda. Todos aguardam as indicações de Catarina e Jerónimo.

Qual é o problema de tudo isto? É que se Costa satisfaz a vontade da Comissão Europeia, se satisfaz as necessidades da Troika e se dá serenidade aos investidores e mercados, os seus parceiros da “geringonça” podem fugir. E vão, muito provavelmente, fugir e romper o acordo. Poderá ser mesmo o chumbo do OE e a consequente queda do Governo, já com Marcelo como Presidente em funções.

A este propósito recomendo a visualização da entrevista de Soares dos Santos, figura de referência da Jerónimo Martins, ao programa da SIC Notícias de ontem, conduzida por José Gomes Ferreira. Aos 81 anos está com uma lucidez impressionante, um vigor invejável e uma linha de pensamento estratégico que devia inspirar os nossos governantes e políticos. Às vezes é preciso parar para escutar quem nos deu e dá exemplos de trabalho, rigor, com humanismo, filantropia e verdadeira dimensão social, patriótica e fundada em afetos e valores de referência. Foi a minha terapia para as tontarias que ouvi ontem das bocas de António Costa e Mário Centeno. Com Marcelo a não comentar, claro…

Já não é comentador, é o Presidente de todos e Presidente dos afetos.

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