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“Presidenciais: o dia seguinte”, por Helena Pinto

Vivemos uma campanha eleitoral completamente diferente de todas as anteriores. Em pandemia, uma situação que apenas conhecíamos dos livros entrou na nossa vida, testou e testa as nossas capacidades individuais e, sobretudo, testa as capacidades da Democracia naquilo que mais importa neste momento – a resistência, ou resiliência, o que queiram chamar – do nosso Serviço Nacional de Saúde (SNS).

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A pandemia impôs-se na campanha, limitou as iniciativas, desafiou a criatividade de quem não quis colocar em causa a saúde pública, foi centro dos debates e neste aspecto ajudou a que ficassem claras as divergências sobre a importância das políticas públicas. Vai continuar presente nas opções políticas do próximo futuro. Sem dúvida.

O resultado das eleições divide-se em dois campos – o que era esperado confirmou-se e até de forma reforçada – a reeleição de Marcelo. E o que não era esperado – a votação em André Ventura e a derrota das esquerdas.

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Cada candidata/o e as forças políticas que os apoiaram terão que retirar as devidas lições e perceber o que se passou. Mas houve quem, ‘pecando pela ausência’, pense que as coisas foram mesmo ao seu jeito. Falo do PS e do seu posicionamento desde sempre em relação a esta eleição. Desde o tal dia na AutoEuropa em que António Costa se antecipa no anúncio da candidatura de Marcelo até à declaração de “vitória” de Carlos César no dia da eleição.

PS e PSD estiveram ausentes do debate na campanha eleitoral. E não por “não terem candidato”, já que Marcelo aparece assim como que a pairar sobre os partidos, ausentes porque abdicaram desse debate, menorizaram-no desvalorizando a sua importância.

O PSD através de Rui Rio “acorda” no dia das eleições com uma incrível intervenção (que fez com que muitos/as dos seus militantes ficassem com os cabelos em pé) para dar a mão ao Chega, seguindo a lógica da normalização da extrema-direita já iniciada com o governo dos Açores.

À esquerda (que para mim é plural como disse em crónica anterior), Ana Gomes não conseguiu atrair voto do eleitorado PS, João Ferreira subiu um pouco a votação do anterior candidato do PCP (em percentagem e não em votos), mas nem a viabilização do orçamento, tão elogiada por dirigentes e militantes do PS, surtiu efeito. Mas fez uma campanha assertiva e sólida.

Marisa Matias ficou muito longe do desejado e do esperado. Os/as eleitoras e eleitores que lhe deram uma votação tão expressiva há 5 anos atrás, não repetiram e deslocaram-se para outros candidatos – provavelmente Ana Gomes e Marcelo Rebelo de Sousa. Fez uma campanha com muito mérito, com atenção aos temas nevrálgicos – SNS e serviços públicos, alterações climáticas, transparência e muito centrada nas pessoas, nas pessoas concretas. Mas não foi suficiente. A onda nacional e internacional de solidariedade contra o machismo (#vermelhoembelem) não se traduziu em voto, mas marcou em solidariedade.

André Ventura tem uma votação significativa em todos os concelhos. Meio milhão de pessoas votaram num candidato com um discurso de ódio, de divisão, racista e xenófobo. Haverá com certeza quem à direita defenda estas posições convictamente, há fascistas em Portugal, não tenho dúvidas, mas não são meio milhão. Este é um dos debates para os “dias seguintes”. Mas uma conclusão penso ser certa: a direita está em reconfiguração.

Este texto é escrito passados poucos dias do acto eleitoral. É cedo para certezas absolutas e conclusões definitivas. O tempo ajuda a esta reflexão.

Teremos que fazer esta reflexão em simultâneo com outras, muito urgentes. Passando pelas redes sociais vejo o testemunho de uma médica do Hospital Amadora-Sintra sobre o que se viveu devido aos problemas na rede de oxigénio e a pronta reacção dos profissionais e penso – isto é o mais importante.

Vejo nas notícias a apresentação do estudo “O vírus da Desigualdade” (1) publicado pela Oxfam (2), uma ONG que se dedica às questões da pobreza e das desigualdades e que, entre outras, retira a seguinte conclusão: As mil pessoas mais ricas do planeta recuperaram as suas perdas derivadas da crise pandémica em apenas nove meses, mas pode levar mais de uma década para que os mais pobres do mundo recuperem dos impactos económicos da covid-19.

Derrotas são derrotas e custam muito. Mas só à esquerda encontraremos as soluções para os problemas que contam na actualidade.

(1)                 Mega-rich recoup COVID-losses in record-time yet billions will live in poverty for at least a decade | Oxfam International

(2)                The power of people against poverty | Oxfam International

Helena Pinto, vive na Meia Via, concelho de Torres Novas. Tem 58 anos e é Animadora Social. Foi deputada à Assembleia da República, pelo Bloco de Esquerda de 2005 a 2015. É atualmente Vereadora na Câmara de Torres Novas.
Escreve no mediotejo.net às quartas-feiras.

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