Prémio Literário do Médio Tejo | Os voos artísticos de Paulo Alves

Paulo Alves no atelier AMARTE. Foto: mediotejo.net

Foi com uma “árvore cantante” que Paulo Alves conquistou o Prémio Literário do Médio Tejo 2018, na categoria de não-ficção. A árvore falou por ele, que se diz pessoa de poucas palavras, preferindo traços e cores para preservar as aves que passaram de paixão a missão de vida. Fomos conhecer os voos artísticos do ilustrador e consultor ambiental que, aos 29 anos, já viu o céu em diversas partes do mundo e que, além das tintas, também gosta de sujar as mãos na terra.

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Numa rara tarde de novembro em que sol quase fez esquecer o chapéu-de-chuva guardado na mala junto do material de reportagem, seguimos até ao r/c do n.º 20 da Rua de Angola, em Abrantes, para uma entrevista com Paulo Alves. Vamos inspirados pelo Prémio Literário do Médio Tejo, promovido pela Médio Tejo Edições com o apoio do TorresShopping e da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo, que este ano destacou a sua obra “Árvore Cantante” na categoria de não-ficção, dando a conhecer a ilustração que o já levou ao outro lado do mundo.

O trabalho de ilustração que venceu o Prémio Literário do Médio Tejo 2018 na categoria Não-Ficção será publicado pela Médio Tejo Edições em 2019

Chegámos pelo nosso pé para uma conversa com o ilustrador e partimos com muitos voos para contar numa história que teve início há 29 anos na Aldeia do Mato. Quem conhece a pequena localidade do concelho de Abrantes depressa a associa à água da albufeira da Barragem do Castelo de Bode. No entanto, não foi para a parte azul da paisagem que Paulo Alves começou a olhar em criança. Foi para a verde e o que está “dentro dela” que encontrou a sua paixão, as aves.

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Paulo Alves no atelier AMARTE. Foto: mediotejo.net

As primeiras vezes que estas o fizeram sair de casa durante a madrugada – primeiro da Aldeia do Mato e pouco depois de Martinchel – foram com o pai José. Hoje continua a largar a cama quando ainda é noite, mas o motivo de então era muito diferente do atual e os animais esvoaçantes, inicialmente apanhados para se transformarem em petisco, acabaram por se transformar numa experiência muito maior do que a gastronómica, uma missão de vida.

Aos cadernos em que traçou os primeiros esboços artísticos, vertente estimulada pela mãe Laura que nunca lhe dizia “não” à compra de novo material de pintura, juntaria mais tarde os binóculos comprados após tempos de poupança. Uma altura em que um pequeno livro lhe revelou que, entre outros, o “Trigueiro”, como o pai chamava, também era conhecido por Escrevedeira-de-garganta-preta (Emberiza cirlus). Havia mais para descobrir sobre as aves e a atitude, tanto dele como a do pai, mudaram.

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A convicção de que as aves deviam ser apreciadas fora da mesa de cozinha (e, acima de tudo, preservadas) foi-se aprofundando com o passar dos anos em que a residência da família viajou para o concelho de Tomar (Cem Soldos) e, mais tarde, novamente para o de Abrantes, onde atualmente reside. Algures nessas viagens surgiu o dilema no 9º ano. Queria fortalecer a ligação com as aves e optou pela biologia.

O atelier AMARTE na Rua de Angola, em Abrantes. Foto: mediotejo.net

Cedo percebeu que as matérias escolares aprendidas nessa área não iam ao encontro do que queria, preferindo o “trabalho de campo”, que lhe permitia “ver e ouvir”, ao ambiente de laboratório. A falta de química pela química acabaria por ditar a saída, ainda no primeiro ano, da Escola Secundaria Dr. Solano de Abreu e optar pela Escola Profissional de Desenvolvimento Rural de Abrantes (EPDRA), nas Mouriscas, onde tirou o curso de Turismo Ambiental e Rural.

Três anos em que Paulo Alves considera ter crescido “muito” e no final dos quais surpreendeu os professores com a direção que queria seguir, ao fazer um estágio na Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), em Lisboa. “O que é que isso tem a ver com turismo?” perguntaram-lhe na altura. “Porque não o turismo ornitológico?”. Proposta aceite e pouco depois começava o primeiro voo oficial de Paulo Alves no mundo das aves.

Aterrou na entidade parceira da BirdLife International, organismo mundial dedicado à proteção de aves, e foi por lá que começou a sedimentar os conhecimentos que hoje o fazem ser consultor ambiental na empresa STRIX, depois de ter passado por outras. Foi, igualmente, por lá que, segundo diz, o “hobbie” passou a “vocação”, entretanto aparentemente interrompida quando, no final do estágio, teve que parar de estudar para apoiar a mãe nas despesas da casa e trabalhar num aviário.

Esboço de campo. Foto: Paulo Alves

Quando tudo apontava que os pássaros partissem em bando, eles mantiveram-se por perto, sobretudo a partir dos traços desenhados em folhas de papel, deixando para trás o primeiro animal que desenhou e mostrou orgulhosamente à mãe por volta dos cinco anos, um camelo. O animal exótico daria lugar aos da quinta onde cresceu, registando os pormenores de gatos, patos, cães e galinhas, como a que surge no quadro em destaque da montra na Rua de Angola.

O recanto onde se situa o atelier AMARTE é de aprendizagem uma vez que na porta ao lado funciona um centro de explicações. No n.º 20 é a “Arte para Todos” que surge como lema e apareceu na vida de Paulo Alves associada ao seu segundo emprego, entre um e outro biscate que ia aceitando, na loja de molduras e material de pintura de Nuno Lobo, situada uns números antes da mesma rua abrantina.

O patrão, que prefere chamar “amigo”, ligou-lhe quando ainda lidava com as aves aprisionadas num cenário que prefere esquecer e a arte com que já presenteava as professoras nos quadros da escola primária durante os recreios em que ficava de castigo ganhou novas cores. Paulo Alves lembra que “foi um período muito importante porque desenvolvi imenso a minha capacidade artística”.

Ilustração Palm Cockatoo (Probosciger aterrimus), pormenor. Foto: Paulo Alves

A mesma que hoje partilha no atelier e no concelho de Mação a alunos de todas as idades durante as aulas que confirmam que a arte “é mesmo para todos” e nas quais o convívio entre tintas, pincéis e telas se releva “terapêutico” quer para os alunos, quer para o professor. À segunda-feira e à sexta-feira, os temas da vida passam para segundo plano e são os desafios da pintura que ocupam a mente e as mãos.

Se os primeiros podem parecer complicados, os segundos, assegura, “têm sempre solução” e por vezes a resposta surge, também nos primeiros, devido aos “esboços” que se fizeram no passado. Foi o que aconteceu no estágio da SPEA, cujos contactos durante o período formativo, se transformaram em trabalhos na área ambiental pouco depois de ter começado a trabalhar na AMARTE.

Às aves que ilustrava para a SPEA e em resposta a outros pedidos juntaram-se as que foi protegendo através de censos de avifauna em parques eólicos, estudos de impacto ambiental e a experiência de observação de aves. Uma fase da vida na qual os pássaros surgiam desenhados no papel e, por exemplo, salvou dos aerogeradores do parque eólico do Barão de São João, em Lagos, e que acabou por ganhar novos contornos em 2012 com um email vindo da Indonésia.

Paulo Alves em Bogor, ilha de Java: Foto: Paulo Alves

Novos contornos e novos voos uma vez o convite assinado por Astrid, elemento da Burung Indonesia, parceira da BirdLife International, o levou a ilustrar algumas espécies ameaçadas das Ilhas Molucas. Os ensinamentos do curso da EPDRA acabaram por ser materializados, nomeadamente, através dos suportes de comunicação, de posters a t-shirts, utilizados nas escolas locais para sensibilizar os mais pequenos sobre as espécies de aves que davam sustento aos pais, muitas vezes através do tráfico ilegal.

A experiência abriu-lhe horizontes e foi então que percebeu que podia juntar “a ilustração à conservação” de aves, uma missão que assume e põe em prática com gosto sempre que pega em material artístico, sobretudo se for guache, acrílico e aguarela. Entre as preferências também se encontra o papel, apesar de admirar ilustradores que tenham optado pelo digital, assume que não conseguiu adaptar-se porque precisa “do papel e do pincel”, de “sujar as mãos” e sentir os cheiros.

No último caso, seriam os que imaginava no Egito que o levaram a tomar a decisão de se deixar o atelier de Abrantes por não conseguir conciliar o tempo com a vertente de consultor ambiental. Um “erro crasso”, admite, pois o projeto não avançou e ficou sem emprego. Face à perda da oportunidade para conhecer pessoalmente o Beija-flor-do-Nilo (Eupetomena macroura) decidiu tentar fazê-lo pessoalmente com o Wallace’s Standardwing, Bird-of-paradise (Semioptera wallacii) e conseguiu.

Ilustração Wallace’s Standardwing, Bird-of-paradise (Semioptera wallacii). Foto: Paulo Alves

Primeiro voou o email para a Burung Indonesia a perguntar se precisavam de um ilustrador e, em 2014, voou ele até ao arquipélago para dar continuidade ao trabalho iniciado à distância no ano anterior. Ficou três meses, viajando pelo país e tendo como “casa” a cidade de Bogor, na Ilha de Java, onde está sediada a instituição. Se a experiência anterior tinha definido a vocação, partilha que a confirmação chegou nesses tempos em que sentiu “ok, é mesmo isto”.

O visto terminou entretanto e voltou a Portugal, mas os três meses passados na Indonésia depressa se transformariam em nove com os seis somados em 2015, depois de receber um novo email. Fez as malas e voou para conhecer novas pessoas e lugares e continuar a passar a mensagem de salvar espécies ameaçadas. Visita após visita, foi fortalecendo outra causa, a das crianças não perderem a capacidade de sonhar.

Foi através das ações de sensibilização com a equipa da Burung Indonesia que colocou brilho nos olhos dos mais pequenos quando os viam chegar. “Hoje vamos desenhar!”, alegravam-se os alunos num ambiente que lembra ser severo e no qual muitos convivem com a fotografia do presidente, a trazer-nos recordações não tão distantes assim dos tempos “da velha senhora”. Anos depois das criações da escola primária durante os castigos do recreio, voltou a desenhar no quadro e teve muitos alunos que o marcaram, destacando que todos se “esforçaram ao máximo”.

Educação ambiental na escola, ilha Sulawesi. Foto: Paulo Alves

A educação ambiental era conjugada com a observação de aves e do Wallace’s Standardwing apenas trouxe o registo áudio quando voltou a aterrar em Portugal e a regressar ao emprego na loja e no atelier. Revela que “se, ainda hoje, carrego no play dessa gravação consigo transportar-me para lá” e é através do som único da espécie que vai regressando até fazer uma nova viagem para reencontrar os “amigos, a família” que deixou para trás.

Até lá, continua o trabalho em todas as áreas profissionais e que, há cerca de dois anos, conheceu uma nova, a agricultura. O patrão Nuno manteve-se e foi com ele que voltou a ter maior ligação à terra, iniciada com a mãe. Aquilo que começou por ser uma ajuda para fazer a poda da vinha transformou-se numa colaboração regular ligada às videiras e oliveiras nos terrenos de São José das Matas, no concelho de Mação.

Diz que não tem medo de sujar as mãos, até porque não sabe “o dia de amanhã”. Nunca conhecerá o futuro por antecipação, mas conhece o presente e nele estão as aves que defende ser necessário mostrar para salvar pois “os animais não têm voz e a maioria das pessoas estão alheadas do que está à sua volta”, por isso usa a arte para “divulgar aquilo que temos porque se as pessoas não souberem o que existe, não se preocupam”.

Paulo Alves no atelier AMARTE. Foto: mediotejo.net

Já levou a mensagem de que “há sítios onde é mesmo preciso a nossa presença para que se evitem atentados contra a natureza” a vários pontos do globo, quer a título profissional – pelo Egito, Inglaterra, Suíça, Espanha, Marrocos ou Djibouti (Jibuti), como pessoal. Naqueles onde ainda não foi, encarregou-se a internet disso através dos trabalhos que vai fazendo e partilhando.

Sobretudo através das ilustrações pois continua sem acreditar muito nas antigas professoras Fernanda e Luísa quando lhe diziam que escrevia bem. Aliás, é às ilustrações que atribui a conquista do Prémio Literário do Médio Tejo, no passado dia 25 de outubro, com “A Árvore Cantante”. As palavras também estão na obra inspirada no workshop de urban sketching realizado na Biblioteca Municipal António Botto, em Abrantes, e nos esboços e frases regista quando viaja.

As palavras não marcam presença em quantidade, as cores e os traços sim. Juntos, ajudam a contar a história da árvore que percorre o centro histórico “sempre atenta aos sons e aos sinais visuais que as aves nos vão dando” e que, no final, revela ser o “alter-ego” de Paulo Alves.

Uma vez vencido o prémio que o apanhou de “surpresa” enquanto fazia consultoria ambiental em Sagres, o livro será editado em breve pela Origami, chancela da Médio Tejo Edições.

Ilustrações de Paulo Alves para o European Breeding Bird Atlas. Foto: mediotejo.net

Revela que outros, sobretudo técnicos, estão na gaveta. Vontade de os tirar de lá não falta pois o prémio, que “foi quase o exorcizar dos medos, criar algo que seja avaliado e, eventualmente, aberto a toda gente”, acabou por lhe trazer a confiança que já tinha na sua missão. Quer continuar “a educação ambiental para os miúdos” e a salvar as aves de que tanto gosta. A “arma” escolhida para esta demanda é a ilustração, que lhe permite mostrar em imagens aquilo que não consegue dizer por palavras.

Paulo Alves voltará a usá-la em 2019, na segunda edição do European Breeding Bird Atlas, para o qual foi convidado juntamente com outros artistas, e que partilha acima de 500 espécies de mais de meia centena de países. Uma nova oportunidade de passar a mensagem de que “há mais coisas para além da nossa vida. Vamos conhecer aquilo que está do outro lado. Conhecer para preservar”.

Depois de palavras e imagens, também damos a conhecer um pouco desse “outro lado” através do audio gravado por Paulo Alves – um entre os muitos registos que vai fazendo por trabalho e por gosto – na floresta onde observou os Wallace’s Standardwing, Bird-of-paradise (Semioptera wallacii). Neste, o cenário foi após o nascer do sol, que relembra ter sido deslumbrante. Feche os olhos e dê asas à imaginação…

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