Prémio Literário do Médio Tejo | Martinho Branco e as palavras com que pinta poesia

Martinho Branco. Foto: mediotejo.net

As letras têm o dom de nos fazerem viajar sem sairmos de onde estamos. O espaço e o tempo são percorridos pela mente frase a frase, transportando-nos para lugares que ficam do outro lado do mundo ou do sonho. No caso de Martinho Branco, vencedor do Prémio Literário do Médio Tejo 2018 na categoria de poesia, não precisamos de fechar os olhos para imaginar a paisagem da viagem pois esta é criada, literalmente, com as palavras que transformam cada poema seu num quadro.

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A poesia convencional tem a sua essência no conteúdo, gerando imagens através dos versos e das estrofes alinhados, mas e se fosse a forma do poema a fazê-lo? Assim é a poesia visual de Martinho Branco, que venceu a segunda edição do Prémio Literário do Médio Tejo no passado dia 25 de outubro com a obra “O homem que tirava retratos”. As palavras não transmitem apenas a mensagem pelas letras, são moldadas traçando as linhas que dão forma a cada poema.

E foram as linhas, não as da poesia, mas as da ferrovia que lhe marcaram a infância, pois o sustento do pai Abílio e da mãe Maria José vinha das vendas feitas na pequena taberna localizada no Largo da Estação de Riachos, no concelho de Torres Novas. Foi lá, num “quarto escuro”, que diz ter vindo ao mundo “quase dentro de um barril de vinho”. As primeiras memórias são na estação ferroviária, muitas vezes sozinho pois existiam poucos companheiros de brincadeira com a mesma idade.

As palavras de Martinho Branco. Foto: mediotejo.net

O destino decidiu que não seria Baco, o deus do vinho, a orientar-lhe a vida e a tarefa coube a Apolo, protetor das artes (com a poesia incluída), com uma ajuda do pedagogo checo Comenius, considerado o pai da didática moderna. Tornou-se poeta durante o caminho em que passou de aluno a professor, iniciado na pequena aldeia, acompanhando as mudanças de escola com a turma até inaugurarem a então “escola nova, que agora já é velha”.

Os ofícios familiares, com gerações ligadas no lado materno ao meio ferroviário e no lado paterno aos cabelos e às barbas, também não o convenceram e acabou por “fugir” à regra. Das tradições partilhadas em casa, interessou-se pela música, nomeadamente a do pai Abílio, e ainda tem a viola Ibanez comprada numa loja da capital com o dinheiro ganho numa campanha de verão na antiga fábrica de produção de concentrado de tomate nos Riachos, a “Unital”.

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Martinho Branco. Foto: mediotejo.net

O instrumento teve uso pontual e foi a filha Joana que acabou por dar continuidade à veia musical, tornando-se professora nesta área. O filho Pedro optou pela área da multimédia, para a qual é essencial a eletricidade que marcou a formação académica de Martinho Branco. Passou pela Escola Industrial de Torres Novas, pelo Liceu Sá da Bandeira, em Santarém, e pela Escola do Magistério Primário em Torres Novas (onde conheceu Helena), e na viragem do milénio estava a fazer o curso de equivalência na Escola Superior de Educação de Santarém.

A colega de curso tornou-se colega de vida e da carreira de docente de crianças e adultos, que Martinho Branco iniciou em 1980 e o fez conhecer alunos da região, entre eles os do Agrupamento de Escolas Golegã, Azinhaga e Pombalinho, onde leciona atualmente. Um percurso marcado no início pela experiência de ambos como professores cooperantes no Bié, antiga Silva Porto, em Angola.

A ideia de concorrerem surgiu ainda durante o curso e os papéis foram entregues pouco antes dos que lhes viriam a abrir pouco depois a porta da Escola Superior de Educação pela Arte, no Conservatório de Lisboa. Casaram entretanto na Igreja de São João Baptista, no Entroncamento, perante as notícias de que a viagem para Angola poderia tornar-se realidade. E esta chegou a 28 de maio de 1980, a meio de uma aula, acompanhada da indicação para ele e a esposa se apresentarem nesse mesmo dia.

As palavras de Martinho Branco. Foto: mediotejo.net

Despediu-se dos alunos, apanhou boleia para Santarém e seguiram para a capital. O momento de indecisão em frente ao Cinema S. Jorge, na Avenida da Liberdade, deu lugar ao “vamos experimentar, porque não?”. Nesse dia, entraram no Ministério da Educação para assinar o contrato sem saber o que iriam encontrar num cenário de guerra civil. Na bagagem feita à pressa, pois partiram no início de junho, levou a poesia imaterializada para não ocupar espaço.

Em Portugal ficaram as “edições de autor” feitas nos tempos da juventude na máquina de escrever oferecida pela bisavó Maria Luísa, quando Martinho Branco decidiu concorrer, em vão, ao lugar de escriturário, e com as capas cartonadas das revistas que chegavam à loja do pai Abílio. Por cá ficaram também os artigos do jornal de parede “Coesão”, que fundou no curso da Secção Preparatória para a Escola Industrial.

Martinho Branco. Foto: mediotejo.net

O número zero da publicação criada na redação composta pelos “copinhos de leite” do Comércio, os “ferrugentos” de Serralharia e os “faíscas” de Eletricidade, como ele, foi pintado pelo lápis azul da censura, algo que partilha “não sabíamos o que era, mas sentimo-la”. Estávamos no início da década de 70, altura em que conheceu aquele que considera ser o seu “pai literário”, António Mário Lopes dos Santos, cuja obra “Poetas Torrejanos Contemporâneos”, editada em 2008, integra a poesia de Martinho Branco.

Foi esse professor que lhe sugeriu alguns autores, entre eles António Gedeão, E. M. de Melo e Castro (Ernesto Manuel Geraldes de Melo e Castro) e Ana Hatherly, que se tornaram influências na escrita que passou a acompanhar-lhe os dias e que, à chegada a Luanda, poderia ter ganho a forma de um poema quando o avião aterrou no continente africano e viu a paisagem marcada pela “terra vermelha”.

O vermelho, infelizmente, também estava associado ao sangue derramado em prol de interesses materialistas, numa terra em que Martinho Branco e Helena encontraram um mundo completamente diferente daquele que conheciam. O tempo atenuou o impacto mental do som constante dos morteiros e habitou-lhes os olhos à chamada “luz de guerra” que piscava nas aulas noturnas a adultos e das quais recorda a mãe com o bebé às costas.

As palavras de Martinho Branco. Foto: mediotejo.net

O cenário, diz, tornou-se “banal”, mesmo quando via diariamente o buraco na parede da escola, resultante de um bombardeamento, ou perante o risco de um dos adolescentes a quem dava aulas de português durante o dia não aparecer pois tinha sido recrutado à força ou feito desaparecer. Foi assim até setembro de 1981, convivendo com as ameaças nas quais lhes diziam “procurem as bombas” que não sabiam reconhecer.

A fome, essa, era fácil de detetar e ocupava lugar nas secretárias dos alunos, tal como na casa pré-fabricada que lhes foi atribuída a título “provisório” até se irem embora. Perante a escassez, o pouco torna-se luxo e tudo se torna moeda de troca. Os maços de tabaco não serviam para aliviar o vício, pois não o tinham, mas compravam-nos à mesma para os transformar nos bens que não conseguiam encontrar nas lojas dos cooperantes.

Martinho Branco e uim dos poemas publicados em antologias. Foto: mediotejo.net

Quando conseguiam os alimentos surgia o desafio de cozinhá-los. O fogão existia, mas não o redutor e quando este chegou por via aérea, levado por um amigo português, deparam-se com outro problema: onde encontrar uma botija de gás… Alguns pormaiores que, segundo Martinho Branco, tornaram cada dia daquele ano letivo “uma aventura diferente” que “dava para fazer um romance”. Os romances não surgiram e manteve-se fiel à poesia nos dias que se seguiram e nos quais foi conhecendo estudantes de muitas idades na terra natal, Chamusca, Ourém, Alcanena ou Abrantes.

Antes já os versos poéticos tinham tido a companhia das palavras na imprensa escrita com a ligação ao Jornal “O Riachense”, por exemplo, e nesta altura com o jornal escolar “Letras e Números”. Na década de 70 começaram a subir ao palco com o GRUTAR, grupo que existiu em Riachos entre 1978 e 1996, e as da rádio também acabaram por surgir, primeiro em Angola e mais tarde em Portugal, período do qual recorda entrevistas feitas a Rui Reininho, Raul Solnado, Saramago ou Jorge Sampaio.

A poesia, nos seus traços únicos desenhados pelas palavras, manteve-se por perto, conquistando prémios e menções honrosas, nos encontros de poetas que frequentava ou nas páginas das muitas publicações (escolares, municipais e antologias) que foram surgindo até à data. Os temas foram variando, conforme a inspiração, desde a casa estreita na Nazaré, a mulher que estudava, as ruas do Entroncamento – nas quais mora desde que voltou de Angola -, os ferroviários ou as férias em Peniche.

As palavras de Martinho Branco. Foto: mediotejo.net

Questionado se o ponto de partida são os lugares e as pessoas, Martinho Branco responde que “em parte sim”, porque a vida é feita de pessoas. “Sem pessoas não há vida e as pessoas precisam dos lugares. Os lugares fazem parte e há as raízes dos lugares e as raízes das pessoas, que se cruzam ou não.” No seu caso, também se cruzou com o Poetrix, uma derivação da forma poética Haikai, com raízes japonesas, caracterizada pela objetividade e sintetização.

O conceito surgiu no Manifesto Poetrix, apresentado em 1999 pelo brasileiro Goulart Gomes no livro “Trix – Poemetos Tropi-Cais” durante a III Feira Internacional do livro da Bahia, dando o mote para o Movimento Internacional Poetrix (MIP) que existe, atualmente, em diversos países. Martinho Branco esclarece que Poetrix resulta de Poe (poesias) e Trix (três), acrescentando que “terceto é o máximo de trinta sílabas métricas, repartidas”.

Martinho Branco. Foto: mediotejo.net

As guerras conceptuais multiplicam-se e as derivações vão surgindo: duplix, triplix, multiplix… A essência reside na captação de um momento singular, como o segundo em que se capta a imagem carregando no botão de disparo da máquina fotográfica. O momento fica congelado em poucas palavras e, no caso de Martinho Branco, o primeiro poetrix, datado de 1979, tornou-se público numa edição da Câmara Municipal da Chamusca, quando coordenava a educação de adultos.

Seguiram-se outros, nomeadamente nas publicações “Poetrix”, cuja sexta edição literária que assinala as duas décadas de vida do Poetrix tem lançamento previsto até ao final deste ano. Às edições anteriores, que tiveram como temas o fogo, a água ou ar junta-se agora o da energia e no último volume publicado escreveu sobre os refugiados: “Enxames de arame farpado / Quebram horizontes / Nas fronteiras do sonho”.

A Liberdade e o Sonho são palavras constantes na poesia de Martinho Branco, que no passado mês de outubro foi premiada com o Prémio Literário do Médio Tejo, promovido pela Médio Tejo Edições com o apoio do TorresShopping e da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo. A obra “O homem que tirava retratos” conquistou o primeiro lugar da categoria de poesia e vai ser editada em breve, partilhando as diversas histórias que se ligam ao virar da página.

Poetrix de Martinho Branco sobre os refugiados. Foto: mediotejo.net

A obra literária pode ser comparada a uma exposição, feita de quadros desenhados com traços unidos pelo título inspirado na viagem que fez a Viana do Castelo em 1972. Dela recorda “o retratista” em frente a um dos monumentos que a família visitou, e são agora os retratos poéticos de Martinho Branco que vão passar a ser conhecidos na “estreia mundial” nas publicações em nome próprio.

Quem quiser conhecer esta exposição vai encontrar uma história feita de histórias, interligadas por elementos comuns e em que as ilustrações são feitas de letras. O seu autor pretende que “as pessoas olhem para isto não só como um poema, mas como um poema que tem alguma continuação”, acrescentando que “podemos dizer que é um romance, um conto com vários personagens. Uma espécie de viagem”. No fundo, trata-se de um passeio embalado pela poesia que, segundo Martinho Branco, “é uma viagem que se faz com as palavras”.

*O Prémio Literário do Médio Tejo é uma iniciativa da Médio Tejo Edições, com o apoio do TorreShopping e da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo. Distingue autores da região em três categorias: romance, poesia e não-ficção. Cada vencedor recebe um prémio de 500€ e vê a sua obra publicada e distribuída a nível nacional.

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