- Publicidade -

Prémio Literário do Médio Tejo | “A Esquina do Tempo”, um romance que invoca a liberdade de crescer na rua

Jorge Fazenda, 72 anos, venceu a 3ª edição do Prémio Literário do Médio Tejo na categoria de romance com “A Esquina do Tempo”, uma história que mergulha nos seus tempos de juventude, quando a vida se fazia na rua. Lisboeta radicado em Alcorochel, no concelho de Torres Novas, fez um pouco de tudo ao longo da vida, desde comissário de bordo da TAP a autarca. Nos últimos anos tem-se dedicado à escrita e o seu talento não passou despercebido ao júri deste prémio, que já na 1ª edição lhe tinha atribuído uma menção honrosa.

O Prémio Literário do Médio Tejo é uma iniciativa da Médio Tejo Edições
com o apoio do TorreShopping e da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo.
Estão abertas as candidaturas para a 4ª edição.
Mais informações e Regulamento >>

- Publicidade -

Foi estudante, escriturário, desenhador, topógrafo, fotógrafo, operador de reator, militar, comissário de bordo, proprietário de restaurante, pintor de artes plásticas, músico, autarca. Jorge Fazenda dita de um fôlego uma vida pejada de experiências, as mais extraordinárias das quais viveu, durante 25 anos, ao serviço da TAP. “Descobri mundo”, diz ao mediotejo.net. “Aquilo não era trabalho, eram férias. Foi um tempo fabuloso, levava livros para ler. Foi lá que acabei por conhecer a minha mulher. Faria tudo outra vez.”

As suas memórias de viajante já as eternizou na obra “À Flor da Pele”, livro lançado em 2018 e do qual cita algumas passagens. Jorge Fazenda foi um privilegiado, tendo tido a oportunidade de conhecer, em trabalho, alguns dos locais mais extraordinários do mundo. “A TAP permitiu-me usufruir destes espaços e colocá-los em livro”, reflete, não escondendo a satisfação com que fala desta fase da sua vida.

- Publicidade -

Na obra vencedora do Prémio Literário Médio Tejo deu, porém, enfoque a outras passagens da sua vida, sendo inclusive o primeiro livro que efetivamente escreveu. “É uma homenagem a Alcântara e aos meus colegas de liceu”, começa por explicar, narrando um tempo já quase mítico, quando a vida se fazia na rua e os amigos se encontravam na esquina. “A rua era o mundo para nós jovens. A casa era para dormir, a rua para viver”, reflete.

A história faz assim memória dessa esquina de Alcântara onde a juventude se reunia para conviver e beber café. “Criou-se um grupo, uma tribo, que ficou até hoje”, reconhece. “Um dia tive a ideia de dar-lhes outra dignidade”, tendo nascido assim uma obra de ficção em torno deste grupo de amigos. O livro chegou aos finalistas do Prémio da Fundação Eça de Queirós, adianta, razão pela qual decidiu continuar a apostar na participação em prémios literários.

A propósito deste “A Esquina do Tempo”, Margarida Teodora Trindade escreveu, em nome do júri: “Assente numa escrita elegante, limpa e séria, mas com notas de um humor subtil e até um certo tom divertido que, a espaços, rompe com a gravidade da narrativa, A Esquina do Tempo é um romance vertido da memória e do valor da amizade, pilares desta história. Nos cenários de um Portugal pré e pós-revolução, o autor recorre aos cambiantes estilísticos necessários para nos apresentar, em duas épocas distintas, e em narrativas paralelas – que se completam – cenários e personagens, traição, urgência e justiça. Ingredientes distintos que se demarcam da banalidade, ao mesmo tempo que conferem ao enredo uma simplicidade e uma densidade que, em simultâneo, nos desarmam e nos agarram, logo a partir da primeira página.
A Esquina do Tempo prende assim o leitor ao argumento.
O autor soube, nesta obra, demarcar a linha do tempo e a ação em consonância com uma estética onde a investigação tem a primazia. Sintetiza, de forma muito bem conseguida, personagens e cenários, e o narrador tem o condão de conseguir tornar-nos íntimos de cada um.
Reporta-nos para um tempo recente que não deixa de ter a atualidade necessária para nos seduzir e com ele fazermos parte de um desenlace desejado.”

Jorge Fazenda é uma figura muito conhecida em Torres Novas, tendo sido presidente da Junta de Freguesia de Alcorochel nos anos 1990 Foto: D.R.

A sua ligação a Alcorochel, onde chegou nos anos 1990, é familiar. Terra dos avós maternos, ali passava as férias em criança, das quais afirma guardar boas recordações. “Foram dos tempos mais felizes da minha vida”, frisa, “o meu avô era agricultor, a minha avó fazia queijos”, preservando consigo essas memórias carinhosas do mundo rural.

Talvez por isso, rapidamente se envolveu na vida autárquica e, como independente, tornou-se presidente da junta em 1995. Durante seis anos, afirma, procurou trazer para a freguesia algumas das experiências que tinha vivido, promovendo espetáculos com grandes nomes da música portuguesa. “Tanta gente que passou por Alcorochel nessa época, espetáculos para as pessoas de cá que de outro modo não teriam assistido”, salienta. Pelo caminhos criou ainda uma escola de música e uma orquestra, onde chegou a tocar saxofone, estruturas que atualmente já não existem. Também é do seu tempo, refere, a construção da Piscina de Alcorochel.

Entretanto dedicou-se à pintura e à escrita. “Quem cria, penso que pretende que a sua obra seja reconhecida e eternizada”, reflete ao mediotejo.net. “Acho que a eternidade não é mais do que isso”. Há porém, constata, “imortalidades muito curtas”. Nem toda a criação resiste ao escrutínio do tempo.

Depois há aqueles criadores cuja obra deixada padece de uma intemporalidade tal que nos leva a desejar que os seus autores nunca tivessem desaparecido. Essa sim, salienta, é a verdadeira imortalidade. Estatuto reservado apenas para alguns, muito poucos, sublinha. Não se atreve a colocar o seu nome entre eles. “Eu só escrevo alguns livros, enquanto as livrarias estiverem abertas”, comenta rindo.

Por tal, admite que ficou surpreendido com a vitória no Prémio Literário do Médio Tejo, não obstante já tivesse arrecadado uma Menção Honrosa na primeira edição (com outro romance, “A Tribo”). “Não criei expetativas”, refere, tendo pensado que, devido à pandemia, o concurso não se concretizaria.

“Dá-me gozo contar histórias”, admite, “gosto muito de compor, adoro conversar, adoro aprender. Sou a curiosidade a espreitar ao virar da esquina”.

“As pessoas que leem os meus livros dizem que é como estar no cinema. O livro é a tela”, reflete.

Há muito que percorria as editoras nacionais a tentar que lessem o seu trabalho. A tarefa, constata, foi inglória e reflete os problemas do setor. “Se não for isto [os prémios literários] nada acontece. As livrariam estão cheias de porcaria, porque quem escreve é quem aparece na televisão. É pena, porque há aí muita gente a escrever bem… e não são lidos.”

O Prémio Literário do Médio Tejo é uma iniciativa da Médio Tejo Edições com o apoio do TorreShopping e da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo. Estão abertas as candidaturas para a 4ª edição. Mais informações e Regulamento.

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

- Publicidade -
- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
O seu nome

APOIE O NOSSO JORNAL, TORNE-SE UM LEITOR BENEMÉRITO

Se lê regularmente as nossas notícias torne-se um leitor benemérito fazendo contribuições a partir de 10€/mês, ou doando valores iguais ou superiores a 100€. Esses leitores passam a constar da ficha-técnica como apoiantes deste projeto independente de jornalismo. Pode também fazer uma contribuição pontual (5€, 10€, 20€, o que puder e quiser).

- Publicidade -