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“Predispostos a desobedecer”, por Aurélio Lopes

Há algum tempo atrás, numa das alturas cíclicas em que, neste país, os escândalos da corrupção adquirem preponderância noticiosa, assinei um artigo de opinião que, de alguma maneira, propositadamente provocatória, afirmava a tese de que somos,  de alguma forma, um “país de corruptos”.

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Não queria dizer, naturalmente, que o fôssemos absolutamente; todos e cada um. Mas, sim, que, fruto da nossa história recente, os pressupostos que favorecem a mesma são, entre nós, de aceitação e incitamento, mais ou menos generalizados.

Encaramos, com toda a naturalidade, tais procedimentos. Os mesmo são, digamos assim, parte integrante da contextura moral em que nos movimentamos.

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Afinal, escassas décadas atrás, Portugal era ainda um país em grande parte rural. E é com essa realidade que, em grande parte (mais do que seria conveniente), ainda estamos a lidar.

Se quisermos, muitos de nós são ainda portadores de uma mentalidade comunitária,  conservadora e familiar em que, os hoje indispensáveis imperativos de cidadania, estão ainda, em grande parte, ausentes.

Pois as questões  de mentalidade são de mudança especialmente lenta.

E, nessas sociedades rurais, evidenciavam-se direitos locais (empíricos e consuetudinários) que não só permitiam estes comportamentos como os promoviam e enalteciam. Comportamentos, convenhamos, de dimensão local e tradicional adequados, afinal, à realidade comunitária.

O “compadrio”, por exemplo, hoje estigmatizado, inseria-se em grande parte (nesses tempos não tão remotos assim), na entreajuda familiar e comunitária.

Daí a tendência, que manifestamos, de não se cumprirmos obrigações estatais, se o pudermos evitar. Como a desobediência civil  que este tempo de Pandemia tem mostrado à saciedade.

Daí estarmos sempre ao lado dos autarcas corruptos ou acusados de tal. Cujas seguintes eleições resultam, sempre, em reforços eleitorais.

Daí não cumprimos voluntariamente as leis, se não formos obrigados. E sermos coniventes com os outros com tal.

Daí, sei lá, avisámos os condutores em transgressão (ou possível transgressão) da presença das autoridades policiais.

Afinal uma razão semelhante à que nos faz encarar a hoje corrupção como coisa positiva ou pelo menos desculpável (o uso, fora de tempo, de uma moral tradicional e um direito consuetudinário) faz-nos encarar o Estado (visto pelas mesmas sociedades como algo estranho, logo suspeito, ao universo local) como instituição, afinal, não merecedora de confiança.

E, infelizmente, este mesmo Estado (enquanto Governo, Policia, Justiça ou autarquias) pouco tem feito, desde 74, para mudar tal ideia. Muito pelo contrário.

Não admira, assim, que o atual processo de vacinação tenha gerado comportamentos abusivos de uma imoralidade muito peculiar.

Em que, mandando às malvas prioridades e legalidades, uma “Santa Casa da Misericórdia” vacine todos os seus administradores.

Um Presidente da Câmara reivindique ser o primeiro a ser vacinado.

E responsáveis por pastelarias recebem vacinas, convenientemente excedentárias.

Um Diretor hospitalar vacine mulher e filha. Não sei, se não, a amante.

Outro, vacina a família e até a empregada doméstica, por “lapso”, referida como médica.

É o “fartar vilanagem”.

Afinal, diz a sabedoria popular, numa asserção, por demais conhecida, de moralidade mais que duvidosa e de uma evidente promoção do oportunismo; “quem parte e reparte e não fica com a melhor parte; ou é tolo ou não tem arte”.

E artistas, é o que não falta por aí!

Investigador universitário na área da cultura tradicional, especialmente no que respeita à Antropologia do Simbólico e à problemática do Sagrado e suas representações festivas, tem-se debruçado especialmente sobre práticas tradicionais comunitárias culturais e cultuais, nomeadamente no que concerne à religiosidade popular e suas relações sincréticas com raízes ancestrais e influências mutacionais modernas. É Licenciado em Antropologia Social, Mestre em Sociologia da Educação e Doutorado em Antropologia Cultural pelo ISCSP da Universidade Técnica de Lisboa.

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