Sábado, Dezembro 4, 2021

“Portugal, futebol e sanções”, por Pedro Marques

Esta semana atrasei-me na preparação da crónica semanal. Estou um dia atrasado. Por vários motivos. A vida nem sempre acontece como pensamos ou planeamos.

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Sucede, contudo, que temas para reflectir não faltam. É dia de ver Portugal num jogo de mata-mata que mantém o país suspenso e a viver o sonho de acesso a uma final de futebol, apesar de não termos vencido nenhum dos jogos em a selecção participou nesta fase final.

Estou interessado na vitória – porque quero sempre que Portugal faça boa figura, apesar de achar um exagero de directos, coberturas, reportagens, painéis de peritos em palpitologia balofa e outras cenas tristes semelhantes. Mas compreendo que o futebol faça de tal forma parte do mundo português que a ele dispensamos mais atenção do que, objetivamente, o mesmo merece.

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Também me interessa o Campeonato da Europa de Atletismo que começa esta semana e, depois, os Jogos Olímpicos, cuja realização ainda sinto ameaçada, devido aos tumultos sociais e instabilidade no Brasil, a que se associam os atrasos nas obras e as ameaças de terrorismo.

Por cá adensam-se as nuvens sobre o Governo de António Costa. A União Europeia não confia no nosso chefe do Governo. Nem no Governo. António Costa joga todo o seu talento neste verão quente, nos equilíbrios dentro da Geringonça, na gestão de ataques, recados e equilíbrios com o Presidente da República e nos jogos diplomáticos com os países da União Europeia, a par com os dirigentes tecnocratas não eleitos.

Vai ser feio de ver. Sei que não vou gostar do que aí vem. Porque tenho a convicção de que virá sempre algo de negativo, que vai afetar a minha vida e a dos meus concidadãos. A correcção dos défices não se resolve com discursos assertivos, nem com equilíbrios ideológicos de blocos coesos, nem com sorrisos ou improvisos de António Costa. Como diz – e bem – Ricardo Arroja, ao Observador, “não é só uma questão que tenha a ver com as sanções. Trata-se de um problema estrutural de desenvolvimento da economia que Portugal ainda não conseguiu resolver, apesar do programa de ajustamento que aplicou”.

O trabalho que vinha sendo feito pelo anterior Governo, longe de ser perfeito e de estar imaculado, era um bom sinal de confiança e, acima de tudo, um caminho que permitia pensar que até poderia ser possível, um dia, corrigirmos os desequilíbrios, sermos produtivos, gerarmos riqueza, corrigirmos deficiências, superarmos este fado de miséria que não se despega da nossa pele de povo periférico, orgulhoso, que vive das glórias do passado e das quimeras do futuro incerto.

Gerir para agradar, gerir para sobreviver, gerir para não cair, gerir para iludir, gerir para ser simpático costuma ser mau sinal. Porque, geralmente, após a graça do estado de graça vem a desgraça que se lhe segue por inevitabilidade do destino. Sobretudo se não houver resultados, avanços, progressos sustentáveis, criação de valor, geração de riqueza, multiplicação de horizontes de futuro sólido.

Alguns consideram que temos de meter a Europa na ordem e que devemos proibir a entrada de quem nos vem fazer exigências e recorrem ao populismo do referendo. Coitados. Ainda não perceberam que, com o Brexit, o Reino Unido é quem ficará a perder mais. Porque, como refere o economista norte-americano Barry Eichengreen (que sustenta também que serão  o Reino Unido e a Itália quem mais sairá prejudicado com o Brexit), “o Reino Unido vai ser afetado de forma negativa pelo longo período de incerteza, vai arrefecer o investimento e prejudicar o crescimento económico”.

Este economista refere ainda que “a União Europeia pode não ser irreversível, mas é quase. Desmantelá-la será difícil”. Por isso, os populismos do Bloco de Esquerda, a ameaçar com referendos se houver sanções, são uma forma primária, triste, pobre e patética de solucionar os nossos problemas.

Pedro Marques, 47 anos, é gestor, gosta de ler, de exercício físico e de viajar

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