“Porque aqui me chamaram, desbravando memórias…”, por Adelino Correia-Pires

Quadro: Plage de la Panne Belgique, François E. Mussin | Foto: Adelino Correia-Pires

Nas paredes agora despidas, meia dúzia de rugas que o relógio de ponteiros parados não consegue disfarçar. Ao cimo, no centro da sala, o quadro da matriarca. Talvez seja a bisavó, mulher de armas como se vê pelo seu olhar. Atenta a todos os passos, a todos os espaços, a tudo e a todos. De esguelha, amarelecido e enevoado, um Mussin – Plage de la Panne Belgique, um óleo do séc. XIX, com barcos, homens, mar e vento, como se a tempestade ali tivesse deixado o seu rasto. Memórias dum marinheiro, dum homem talvez viajado.

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Naquela velha cómoda de carvalho, gavetas entreabertas de memórias fechadas. Postais daqui e dali com muita saúde e saudade. Um diploma, três moedas e meia dúzia de brincos. E um par de botões de punho a condizer com o Mussin. Tudo o mais, salpicado com o pó dos anos, não sei se de ausência ou de abandono, como que adormecendo de um profundo sono, talvez esperando não sei se pelo relógio, se pelo marinheiro, sei lá por quem…

Velha casa, grande casa terá sido, da qual restam as tábuas de um soalho já gasto, mil vezes pisado por correrias de gente miúda, por galanteios de gente mais velha, por outros passos sabe-se lá de quem. Das janelas envidraçadas com bolhas nos vidros, caixilhos de velha madeira, portadas com velha ferrugem, quase que só resta a ferrugem, embaciando o tempo por quem por elas olhava, olhando-se para lá dos muros.

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E agora, por aqui estou eu, porque aqui me chamaram, desbravando memórias naqueles imponentes livreiros com centenas de livros gastos, lidos, remexidos ou simplesmente esquecidos, que a matriarca foi deixando amontoar, ano após ano, filho após filho, neto após neto.

E, aos poucos, vou tropeçando no mais improvável. Nas podas em agricultura ou nos desenhos do Pavia. Nas cartas de Soror Mariana ou nas outras das três Marias. No Douro e também na Lezíria. E, aos poucos, vou percebendo que a casa da matriarca, do marinheiro, de tantos filhos e netos, foi casa de gente boa. E que ela, ao longo dos anos, pouco a pouco os foi juntando, aos livros e àquela gente, para que um dia mais tarde, os poder ler quando o trabalho vagasse, o tempo sobrasse, o barulho sumisse. Afinal, o trabalho vagou, o tempo sobrou e o barulho sumiu. Só ela ficou, ali pendurada, ao cimo da sala, despida de filhos, de netos e de outros afectos.

E agora, por aqui estou eu, porque aqui me chamaram, despindo memórias, despejando gavetas, ensacando as lágrimas, enquanto a matriarca, fixando o olhar nos livros que lhe acolchoaram a alma, diz-me que os leve e que os faça chegar a quem, como ela, um dia, tenha tempo que vague e que ainda lhe sobre para os ir folheando. Por vezes ainda com as marcas de um tempo em que teria tempo para adormecer numa qualquer página.

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