“Por que David vence Golias”, por José Rafael Nascimento

David e Golias. Créditos: DR

“Muito do que é belo e valioso no mundo vem do pastor, que tem mais força e propósito do que alguma vez imaginámos.”  Malcolm Gladwell, em David e Golias

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Descendo ao vale de Elá, na planície de Sefelá, David foi ao encontro de Golias. O jovem pastor hebreu apareceu desprotegido e apoiado no seu habitual cajado, enquanto o gigante guerreiro filisteu se apresentava coberto por uma pesada armadura e empunhava uma espada, uma lança e um dardo. Quem vencesse o combate singular daria a vitória ao seu exército e ao seu povo, uma forma tradicional, não-sanguinária e “cavalheiresca”, de resolver contendas entre combatentes e povos.

Golias gritou com voz poderosa “Vem até mim! Vou dar a tua carne a comer aos pássaros do céu e às bestas do campo” e, olhando para o cajado de David, exclamou “Sou algum cão para que venhas ter comigo com paus?”. O pastor, que havia apanhado cinco pedras do chão e as tinha no alforge, colocou uma na sua funda, fê-la girar rapidamente, atirou-a pelo ar e, com total precisão, atingiu o gigante entre os olhos. Golias caiu moribundo ou inconsciente, aproveitando David para lhe tirar a espada e, com ela, cortar-lhe a cabeça.

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Este é, em resumo, o episódio bíblico que Malcolm Gladwell recorda com grande rigor no seu livro David e Golias – A arte de combater os mais fortes. Contrariando o significado corrente da metáfora confrontacional de David contra Golias, em que o primeiro está condenado a perder e o segundo a vencer, o autor disserta sobre casos de pessoas e organizações que superaram grandes desafios e, baseando-se na evidência histórica e científica, demonstra como as limitações e as desvantagens são muitas vezes aparentes e, mesmo quando reais, podem ser ultrapassadas com sabedoria e experiência.

“Que não te impressione o seu belo aspecto nem a sua alta estatura, porque Eu rejeitei-o. O que o homem vê não importa; o homem vê as aparências, mas o Senhor olha o coração.” – 1 Samuel 16,7, citado por Malcolm Gladwell em David e Golias. Desenho do Século XIX de Robert Cruikshank

No livro, o autor dá conta da pesquisa que efectuou e procura esclarecer as condições e particularidades que determinaram o desfecho do combate entre o pequeno pastor e o gigante guerreiro. Assim, Gladwell explica que foi David quem se ofereceu ao Rei Saúl para enfrentar o poderoso Golias e que o monarca aceitou a escolha com surpresa e reserva, pois era muito o que estava em jogo. O certo é que, perante a inevitável derrota, mais ninguém se dispunha a fazê-lo. O Rei ainda tentou que o pastor usasse uma armadura, mas este recusou dizendo que a mesma o atrapalhava.

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David tinha grande experiência com a funda, usando-a para enfrentar os lobos e os leões que diariamente ameaçavam o seu rebanho. Quando girava a funda, esta fazia 6 a 7 revoluções por segundo, largando a pedra a uma velocidade próxima dos 35 metros por segundo. Acresce que as pedras neste vale são compostas por sulfato de bário, um material extremamente denso (o dobro da densidade de uma pedra vulgar), fazendo com que o impacto do projéctil no alvo fosse equivalente ao de uma pistola de calibre .45.

Sabe-se, também, que os fundeiros experientes conseguiam acertar num alvo em movimento, incluindo pássaros, a mais de 180 metros de distância. Eles formavam, com os arqueiros, a antiga artilharia, a qual venceu muitos combates contra a frequentemente bem equipada infantaria inimiga. Quando grita para o pastor “Vem até mim!”, o gigante acredita que vai ter um combate corpo-a-corpo (de infantaria) e não à distância (de artilharia). Além disso, como se comprovará, ele não é um guerreiro tão poderoso quanto parece.

No livro “A vida imita o Xadrez, o campeão mundial Garry Kasparov demonstra que os jogadores mais fracos podem vencer os mais fortes, em determinadas condições. Também um jogador com apenas um peão (além do Rei, obviamente) consegue dar xeque-mate e vencer o adversário. Fotografia: DR

O texto bíblico refere que Golias é levado ao vale por um ajudante, move-se lentamente e reage com desorientação à presença do desataviado David. Estranhamente, ele vê dois paus (cajados) na mão do pastor o que, para a comunidade médica que estuda este episódio há cerca de 60 anos, indicia que Golias sofria de acromegalia, uma produção excessiva de hormonas do crescimento causada por um tumor benigno na glândula pituitária. Ora, esta doença está na origem do gigantismo e tem como efeito secundário a “visão dupla” associada a uma forte miopia, além de dores de cabeça e nas articulações, diabetes, hipertensão e outros males.

Malcolm Gladwell conclui, no seu livro, que “a razão da força de Golias era também a razão da sua fraqueza, ou seja, os gigantes não são tão fortes e poderosos quanto parecem e, por vezes, o pequeno pastor tem uma funda no bolso”. Por outras palavras, nada nem ninguém é melhor do que os outros em tudo, podendo algo ou alguém ser melhor do que os outros em alguma coisa. O importante é identificar os pontos fortes e fracos do próprio e dos outros, assim como as oportunidades e as ameaças que se colocam pela frente.

Há muitos anos que partilho esta perspectiva em acções de formação e consultoria empresarial. Em 1995, publiquei uma brochura intitulada Pequenos? Mas Competitivos!, na qual procurava esclarecer os pequenos comerciantes sobre “como competir com as grandes superfícies e outras formas modernas de comércio, num mercado cada vez mais instável e exigente”. O que recomendava neste texto era que os pequenos comerciantes cooperassem entre sim, fazendo-se grandes (p.e. para negociarem vantajosamente com os fornecedores), e oferecessem aos consumidores aquilo que dificilmente as grandes superfícies poderiam oferecer (p.e. atendimento personalizado e venda avulso).

Na fábula dos irmãos Grimm “O Alfaiate Valente”, este também enfrenta homens gigantes. Mas, ao contrário de David, que usa a sua extraordinária autoconfiança, coragem e competência, o pequeno alfaiate usa a esperteza e beneficia do acaso e da percepção favorável, embora enviesada, dos outros. Ilustração de Alexander Zick

Ainda no plano organizacional, importa referir o conceito de Marketing de Guerrilha introduzido por Jay Conrad Levinson em 1984 com o sentido de “prosseguir objectivos convencionais usando estratégias não-convencionais de fácil acesso e forte impacto”, sendo estas entendidas como mais genuínas, criativas e flexíveis. De facto, as organizações pesadas, seja pela sua dimensão seja pela sua antiguidade, têm como ponto fraco a inércia do pensamento e da acção. E as organizações que lideram o mercado tendem a assumir uma postura mais conservadora e defensiva do que inovadora e ousada.

No domínio das famílias, a ideia de saber lidar com os pontos fortes e fracos é igualmente fundamental. No seu livro Soar uith your strengths (Voe com os seus pontos fortes), Donald Clifton e Paula Nelson criticam os pais que centram obsessivamente a sua atenção nos pontos fracos dos filhos, pouco ou nada investindo nos seus pontos fortes, i.e., nos talentos que os poderiam fazer excelentes e ‘fora de série’, se fossem devidamente valorizados e desenvolvidos. Não que se deva ignorar as fraquezas, mas também que não se permita que estas ofusquem as forças actuais ou potenciais. Trata-se, na verdade, de ver a floresta e não apenas a árvore que se interpõe, usando sabiamente a visão focal e a visão periférica.

Também na arena política e no exercício dos direitos de cidadania é essencial acreditar nas vantagens dos (aparentemente) mais fracos face aos (aparentemente) mais fortes. Refiro-me, nomeadamente, à relação cidadão-Estado e à disputa eleitoral entre os GCE – Grupos de Cidadãos Eleitores (ou até dos pequenos partidos) e os grandes partidos do sistema que tudo fazem para “eliminar a concorrência”. Se, no primeiro caso, têm sido criados mecanismos legais de transparência e prestação de contas que importa obrigar os órgãos centrais e locais do Estado a cumprir, já no segundo caso parece assistir-se a um retrocesso normativo e dificultação competitiva, difíceis de entender e muito mais de aceitar.

Robert Wadlow (na foto) não escapou ao destino de muitas vítimas de gigantismo/acromegalia no passado, sendo exibido em espectáculos patrocinados pela marca que lhe fabricava os sapatos à medida. Desta doença, que afecta cerca de 60 pessoas por milhão, padecia também Gabriel Mondlane, o famoso Gigante de Manjacaze. Créditos: Paille/Flickr

Mas, uma vez mais, os princípios e tácticas aplicadas por David contra Golias são inspiradores e, mais do que isso, dão-nos a convicção de que nenhum gigante pode estar descansado enquanto houver pastores que sabem usar bem a funda. Tanto o mundo real como o das fábulas estão povoados por gigantes que suscitam o temor ou a mera curiosidade das gentes. Entre estes, Robert Wadlow terá sido a pessoa mais alta de sempre, com 2,72 metros, falecendo de uma infecção no pé em 1940, com apenas 22 anos de idade. Mas, se a maioria destes eram pessoas boas e, até, exploradas e sofridas, já os das fábulas – muitas vezes metáforas do poder absoluto e corrupto – tendem a ser representados como maus e a abater.

Nestas estórias, os heróis são geralmente pessoas individuais com capacidades excepcionais, negligenciando-se sistematicamente a força da acção colectiva, empreendida por pessoas comuns. Em crónica anterior, afirmei a este propósito que, “se um mosquito incomoda muita gente, a mosquitada toda – unida e determinada – incomoda muito mais”. Quanto ao mito da “impossibilidade”, lembrei nas três crónicas intituladas Sim, é possível! (I, II e III) que “o mundo do impossível está cheio de excelentes possibilidades. Não se pode, por isso, acreditar em tudo o que se escuta, nem escutar apenas aquilo em que se acredita. Chegou a hora de sacudir o torpor e libertar o espírito do atoleiro da descrença”.

Finalmente, em Quem tem medo da mudança? citei Séneca (“Onde está o medo, não está a felicidade”) e Napoleão (“Não temam a morte, rapazes, desafiem-na e ela passará para o lado do inimigo!”). Imperadores, filósofos, pastores ou cidadãos, textos bíblicos, históricos ou literários (e até azucrinantes mosquitos), todos convergem há milhares de anos na mesma crença de que a vitória sobre os grandes e poderosos está ao alcance dos pequenos e frágeis, desde que acreditem e se organizem com a liderança e a estratégia adequadas. Nada mais é preciso para vencer – apenas começar a lutar pela vitória – quando a causa é justa e se tem a convicção de estar do lado certo da ética, da razão e da História.

*O autor não segue as regras do novo acordo ortográfico. 

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